Política

O impasse gerencial

O impasse gerencial

 

 

Ricardo Bergamini*

 

 

Os três temas à considerar como obstáculos ao desenvolvimento sustentado são o hiato existente entre “motivação e entendimento”, o contraste entre “planejamento e implementação” e, finalmente, aquilo que se poderia chamar de “o paralelismo desconfortável”.

 

Nos países em desenvolvimento, o hiato entre a motivação para resolver problemas, e a capacidade de entendê-los e formular soluções adequadas é anormalmente grande. A motivação é freqüentemente emulativa: trata-se de imitar realizações alcançadas em outros países. Mas a capacidade concreta de resolver problemas é deficiente pelo próprio nível baixo do treinamento técnico e educação administrativa. Nos países hoje desenvolvidos, a evolução foi gradual, colocando-se os problemas sem grande defasagem em relação ao instrumental disponível para sua solução. Os problemas econômicos eram antes incrementais que escolares.

 

Usando a linguagem de Albert Hirschaman, diríamos que nos países retardatários na senda do desenvolvimento existe marcada tendência para que a “motivação” avance mais depressa que a “compreensão”(1). Cria-se então uma brecha entre a “formação de desejos” e a “satisfação dos desejos” no dizer de Huntington (2).

 

Isso produz não apenas ineficiência econômica, mas frustração social e não raro instabilidade política. Essa frustração leva a uma crescente impaciência com soluções, remediais e melhorativas e acende o entendimento por soluções ideológicas ou radicais. Na semântica dos países em desenvolvimento, o vocabulário “revolução”, sem qualquer avaliação do enorme custo social das verdadeiras revoluções, tem como curso mais amplo e aceitação muito menos qualificada que o vocabulário “reforma”.

 

Problema correlato é o hiato entre “planejamento e implementação”. Nos países em via de desenvolvimento, o planejamento tem maior importância que nas economias maduras, cujo crescimento se tornou mais ou menos automático. Isso por vários motivos. Primeiro, para racionalizar e coordenar a ação governamental, fixando objetivos prioritários e definindo políticas de desenvolvimento, seja do tipo “centralista” (como nos regimes socialistas) seja do tipo “indicativo” (para orientação do setor privado, nos regimes não socialistas). Segundo, como instrumento de motivação social, para atingir determinadas metas de produção e renda.

 

A dificuldade que surge habitualmente é que os planos são formulados por uma elite tecnocrática do tipo “weberiano”, orientada no sentido do desempenho, enquanto que sua execução tem de ser feita por uma “burocracia prismática”, essencialmente tradicionalista, mais preocupada com os problemas imediatos do seu “status” social e promoção pessoal (3).

 

Acresce que os planos tendem a ser elucubrações tecnocráticas, produzidas na rarefação dos departamentos de pesquisa; na melhor das hipóteses, engajam o compromissamento do Poder Executivo, mas raramente se transformam em plataforma política (até mesmo pela instabilidade das instituições políticas) ou em fonte de motivação popular.

 

Outro problema é o do “embaraçoso paralelismo”. A tendência socializante e estatizante tão freqüentes nos países em desenvolvimento é, não raro, explicada em termos da inadequação e debilidade empresarial do setor privado. Mas a insuficiência deste reflete um conjunto de condições sociais e culturais que afetam também negativamente o nível de eficiência do setor público. A indubitável vantagem do Estado como agente econômico de desenvolvimento deriva: a) de sua capacidade de captar e conglomerar poupanças pela via tributária; b) de sua capacidade de investir a longo prazo, independentemente dos estímulos correntes do mercado. Mas a simples transferência de atividades do setor privado para o público não constitui nenhuma fórmula mágica de desenvolvimento. Não se corrige a ineficiência e talvez apenas se logre uma concentração de erros. Há um paralelismo entre a escassez de elites gerenciais e de elites administrativas.

 

 

(1) – A . Hirschaman, Journeyes Toward Progress, New York, 1963, p 237.

 

(2) – Samuel P. Huntington, Political Order in Changing Societies, Yale University Press, 1968, p 54

 

(3) – Robert T. Daland, Brazilian Planning, University of North Carolina Press, 1967, p 143.

 

 

* Economista, formado em 1974 pela Faculdade Candido Mendes no Rio de Janeiro, com cursos de extensão em Engenharia Econômica pela UFRJ, no período de 1974/1976, e MBA Executivo em Finanças pelo IBMEC/RJ, no período de1988/1989. Membro da área internacional do Lloyds Bank (Rio de Janeiro e Citibank (Nova York e Rio de Janeiro). Exerceu diversos cargos executivos, na área financeira em empresas como Cosigua – Nuclebrás – Multifrabril – IESA Desde de 1996 reside em Florianópolis onde atua como consultor de empresas e palestrante, assessorando empresas da região sul.

 

 

Compare preços de Dicionários Jurídicos, Manuais de Direito e Livros de Direito.

Como citar e referenciar este artigo:
BERGAMINI, Ricardo. O impasse gerencial. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2008. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/o-impasse-gerencial/ Acesso em: 27 fev. 2024
Sair da versão mobile