Senado

Crise do euro pode fortalecer extremismo, alerta sociólogo

Marcos Magalhães

A crise do euro, que nasceu financeira, começa a tornar-se política, alertou nesta segunda-feira (16) o sociólogo Demétrio Magnoli, durante audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE). A manutenção desse quadro pode levar ao fortalecimento dos extremismos de direita e de esquerda, segundo observou durante a reunião, dedicada a debater o tema “2012: um ano de crise no mundo”, dentro de ciclo de debates sobre a política externa brasileira.

As politicas deflacionárias e recessivas adotadas por diversos países europeus em resposta à crise, recordou Magnoli, têm motivado grandes mudanças políticas no Velho Continente. Na Grécia, informou, os dois mais tradicionais partidos políticos de centro-direita e de centro-esquerda, Nova Democracia e Pasok, contam – somados – com apenas 37% das intenções de voto para as próximas eleições.

A Espanha, prosseguiu o sociólogo, vive um momento de “forte instabilidade” política pouco depois da eleição de um novo governo, de centro-direita. E, na França, os dois principais candidatos às eleições presidenciais – Nicolas Sarkozy, de centro-direita, e François Hollande, de centro-esquerda – estariam sendo levados a fazer discursos antieuropeus, sobre temas como protecionismo e o pacto fiscal da Europa.

– Depois das eleições, haverá um choque político. Os franceses terão um governo que será levado a adotar as políticas da zona do euro – previu Magnoli.

Resposta brasileira

A resposta do governo brasileiro à crise do euro, na opinião do sociólogo, limita-se à denúncia da existência de um “tsunami monetário”, que estaria sobrevalorizando as moedas de países em desenvolvimento a partir do excesso de liquidez internacional.

Ao adotar esse comportamento, observou Magnoli, o Brasil “age como avestruz”, por não enfrentar as “causas estruturais” de sua falta de competitividade. Imaginar que as principais moedas voltarão a ter o valor que tiveram, alertou, “é um sonho de uma noite de verão”.

Além disso, assinalou o sociólogo, o Brasil tem deixado de dar a devida atenção às mudanças em curso na China, que não poderá mais contar com a expansão de suas exportações para os mercados dos Estados Unidos e da Europa, ambos afetados pela crise econômica.

Indústria

Em sua exposição aos integrantes da comissão, na mesma audiência, o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz Coelho, apontou a existência de um “círculo vicioso recessivo” na zona do euro, motivado por uma política fiscal restritiva que leva à queda na atividade econômica e à redução da arrecadação fiscal, aumentando o déficit nas contas públicas e agravando o endividamento.

O baixo crescimento – estimado em 0,2% para este ano e 1% em 2013 – afetou os fluxos comerciais internacionais, observou Coelho. A queda da demanda nos Estados Unidos e na Europa, lembrou, leva a um excesso de oferta de bens manufaturados nas economias líderes. Visando ampliar suas exportações para o resto do mundo, esses países praticam uma política monetária expansionista, desvalorizando suas moedas, concluiu.

– Este é um dos grandes problemas que temos hoje. Além disso, o menor crescimento na Ásia coloca em risco os preços das commodities – alertou Coelho.

O vice-presidente da Fiesp observou que a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) caiu nos últimos anos de 27% para 14%. Para dobrar a renda per capita em 15 anos, a indústria de transformação deveria ter a sua participação elevada para 25% do PIB. Ele defendeu taxas de câmbio que “favoreçam a produção” e disse ver “com bons olhos” a discussão sobre a redução das taxas de juros.

Protecionismo

Ao abordar as possíveis respostas do Brasil à crise econômica internacional, o presidente da comissão, senador Fernando Collor (PTB-AL), ressaltou que é “fácil de entrar e difícil de sair” no protecionismo. Por sua vez, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) observou que, apesar do decréscimo de sua participação no PIB, a indústria ainda responde por 34% da arrecadação de impostos no Brasil.

Agência Senado

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Senado

Como citar e referenciar este artigo:
NOTÍCIAS,. Crise do euro pode fortalecer extremismo, alerta sociólogo. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2012. Disponível em: https://investidura.com.br/noticias/senado/crise-do-euro-pode-fortalecer-extremismo-alerta-sociologo/ Acesso em: 29 set. 2026
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