Visão Liberal

Do mulato e mulatinho

Saí do cinema emocionado. Esse Breno Silveira é um sujeito que sabe me arrancar lágrimas. Repeti o gesto da emoção em Gonzaga – De pai para filho que já
vivera nos magníficos filmes anteriores do diretor. Eu esperava menos ao entrar no cinema, pois afinal Luiz Gonzaga pode ser uma máquina de fazer dinheiro,
especialidade do Breno Silveira, mas havia me esquecido que o notável diretor o tem feito sem qualquer sacrifício da qualidade. Faz cinema de gente grande.

O filme foca a relação entre Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha. A narrativa tem como pano de fundo o Brasil que se transformou violentamente desde que
o menino de Exu saiu de sua terra Natal para voltar depois, famoso. Antes de chegar às terras do sul passara por Fortaleza, no Ceará. Dez anos de serviço
militar.

Tudo no filme emociona, ao menos a mim que, menino, aos cinco anos, pude uma única vez, ver Luiz Gonzaga, montado às costa do meu pai, em Juazeiro do
Norte, em 1964. Ele já era herói em nossa família. Fui ninado ouvindo minha mãe cantar, com sua voz melodiosa e sua entonação emocionada, as canções
imortais de Seu Lua. E vi meus pais dançarem os xotes e baiões em todas as festas que íamos. Gonzagão tomou o centro do entretenimento e lazer dos
sertanejos, cantando sua terra, suas alegrias e infortúnios.

“Lá no meu pé de serra/deixei ficar meu coração/ai que saudade tenho/eu vou voltar pro meu sertão”. Assim Luiz Gonzaga cantava seu amor por uma mulher e
por sua terra natal. “Juazeiro, juazeiro/ onde anda meu amor/juazeiro, juazeiro/me responda por favor”. Eu não sabia que esse amor tinha nome e que ao pé
de um juazeiro estava tatuado com um coração ardente. Gonzagão foi diversas vezes chorar suas mágoas e libertar-se da saudade aos pés desse juazeiro
amoroso.

Foi uma descoberta para mim, no filme, que Luiz Gonzaga tenha tentado no Rio de Janeiro a vida de artista tocando tangos e fados. Confesso que pasmei! E
que só acidentalmente tenha descoberto o poder da música popular, cantando o cotidiano de sua gente. Inventou gêneros musicais – o mais certo seria dizer:
divulgo-os – e virou Rei do Baião. Naquele momento minha cabeça já era de sociólogo e as emoções das belas imagens e músicas não deixaram atrofiar o
cérebro do aprendiz de sociólogo que sou.

Luiz Gonzaga, o mulato escuro e pobre, era um pacifista convicto e um artista de sensibilidade, negando os preconceitos da gente pensante. Um poeta
popular. O destino o transformou no cantor dos retirantes. Sua música acalantou os deserdados e desterrados. Os exilados o foram menos porque a voz de
Gonzaga emergia dos aparelhos de rádio irradiando poesia e saudade. O que vemos no filme são cenas nem sempre veladas de racismo, mas vemos também o homem
dono de si e convicto de suas forças e potencialidades, que triunfou. Gonzaga criou um tipo, como o fez Charles Chaplin: aquele chapéu, que nem é de
vaqueiro e nem de cangaceiro, mas é dele, homenageia as suas origens. O chapéu e as roupas, cheios de alusões à marca registrada de nossa formação, em
torno do gado e da vida lida livre do sertão.

Ao tentar modernizar-se para manter seu público Gonzagão apenas estilizou um pouco mais o gibão e as vestes, como aquelas com as quais recepcionou o papa
João Paulo II em Fortaleza. Não tinha jeito: fosse onde fosse ele dizia a quem o visse que era o filho dileto do sertão, o seu poeta.

Grande Sertão. Do grande sertão para as veredas nada livres dos morros cariocas, que viram seu filho correr em busca da liberdade, da felicidade.
Gonzaguinha puxou do pai a poesia e a musicalidade e o enorme desejo de amar e ser amado, sobretudo pelo pai famoso. Relação difícil, o pai provedor e
ausente, o filho carente e sensível, frágil. A história da relação dos dois, foco do filme, emociona.

“Diz lá para Dina que volto/que seu guri não fugiu/só quis saber como é/qual é/perna no mundo, sumiu”. Um retirante de si mesmo. Dina, a adorável mulher
que fez as vezes de mãe substituta, que deu-lhe o aconchego que não teve do pai ausente.

A emoção sobe no filme quando a entrevista “entra no ar”. O reencontro de pai e filho e o gravador como testemunha. O mulatão e o mulatinho – por que não
dizer, os brasileiros? – se abraçam na recordação da vida sofrida. No sangue de Gonzaguinha corria o do avô Januário e da avó Santana, mulher que impunha
respeito a todos. Uma história que espelha a realidade das mulheres fortes do sertão. Breno Silveira teve muita sensibilidade ao dirigir e escolher as
atrizes que fizerem reviver a saga dos Gonzaga – a saga brasileira.

A vida de Luiz Gonzaga e de seu filho é um resumo épico da formação do brasileiro em geral. Temos algo grandioso assim no Grande Sertão, Veredas, de
Guimarães Rosa. O mulato é a nacionalidade. Os Gonzaga calaram os teóricos racistas tupiniquins, sempre falando de cordialidade, sempre desqualificando a
miscigenação, sempre maldizendo nas entrelinhas o nosso povo como ele é. Nem malandro e violento: apenas gente sensível como toda gente. Nos Gonzaga a
brasilidade estampada na música. A saga do pai que lutou bravamente para manter – ser o provedor – de seu família e que alcançou o seu objetivo, fez do
filho Gonzaguinha “doutor”. Mas este só queria ser poeta, como o pai. E foi. Grande como o pai.

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias
coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da
ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. Do mulato e mulatinho. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2012. Disponível em: https://investidura.com.br/colunas/visao-liberal/do-mulato-e-mulatinho/ Acesso em: 05 mar. 2026
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