“O diabo na rua, no meio do redemoinho”
Guimarães Rosa
O cinquentenário de Brasília, em 2012, é um marco importante da nossa história e merece uma reflexão. A nova capital foi projeto antigo, desde os
tempos de Colônia. Com a Proclamação da República a ideia virou obsessão. Foi realizada por um governante saído de Minas Gerais, o mais central dos
estados brasileiros, algo carregado de grande simbolismo. Jucelino Kubitschek de Oliveira encarnou o homem fáustico à brasileira, o construtor de
cidades, o colonizador do sertão.
O Brasil, enquanto Nação, foi produto de duas crenças que são a própria face da modernidade europeia: o mito faustico, do Estado construtor e
colonizar, tão belamente cantado por Goethe; e o mito fundado por Rousseau em torno da igualdade e da representação democrática por voto universal. Se
no inicio o Brasil era apenas objeto da ânsia fáustica dos europeus, desde a Independência a ideia do Brasil “grande”, desenvolvido e afirmativo no
concerto das nações jamais saiu do campo de visão de sua elite governante. Essa elite internalizou ela própria o mito do Fausto e Brasília é a máxima
expressão da realização desse mito. A cidade, que é o coração da “Fortaleza Brasil”, nascida contra a Europa, contra a Igreja Católica e contra a
potência dominante, Estados Unidos da América.
Esse sentimento ficou muito bem expresso pelo presidente João Batista Figueiredo, quando da Guerra das Malvinas. O Brasil ainda tolerou um conflito
bélico com potência europeia no Atlântico Sul, mas fez chegar ao Presidente Reagan (e, por tabela, ao governo britânico) que não toleraria desembarque
de tropas alienígenas na América do Sul e que interviria militarmente para impedir. Importante o fato porque delimitou que a América do Sul é dos
sul-americanos e aqui a voz imperante é a brasileira, contra a Europa, os EUA e qualquer potência de fora do continente.
Da mesma forma, os fatos recentes da diplomacia nacional demonstram esse élan fáustico está mais ativo do que nunca. A busca quase impertinente por um
assento no Conselho de Segurança da ONU chega a ser folclórica. O tom arrogante da participação do ministro Guido Mantega, na última reunião geral do
FMI, mostrou que a nação adolescente quer ser adulta. O recente surto protecionista, a pretexto de proteger a indústria, é o mais recente movimento
nessa direção.
No âmbito interno, o século XX foi o momento do triunfo das ideias de Rousseau. A Revolução de 30 deu o pontapé inicial para a construção da democracia
de massas e o longo governo de Getúlio Vargas caminhou nessa direção. É bem verdade que ele deu combate ao comunismo, a máxima materialização do
delírio de Rousseau, mas por circunstâncias táticas. O comunismo, naquele momento, fazia guerra ao Ocidente, desde a Rússia, sendo uma forma de
imperialismo interventor. Pari passu, tivemos a aceleração do processo de industrialização, muito bem sucedida.
O cinquentenário de Brasília ocorreu quando forças políticas de esquerda governam, com apoio de toda a sociedade. O projeto fáustico, vê-se, não é de
uma facção isolada, mas é bandeira de toda a elite dirigente. Ele une toda a gente.
Importante notar que a transferência de poder das elites tradicionais para as novas elites forjadas pelo voto universal foi suave. Não tivemos aqui
guerra civil. Se houve guerrilha, não era por conta dessa ideia, que é aceita por todos, mas porque as elites esquerdistas estavam alinhadas com uma
forma agressiva de imperialismo, inaceitável dentro do projeto político de grande nação. A esquerda percebeu isso e forjou o Foro de São Paulo,
liderado e administrado pelo PT, partido ora governante. Ao dar esse passo, legitimou-se para assumir o poder.
O grande cantor desse processo foi sem dúvida Guimarães Rosa, autor do épico Grande Sertão, Veredas. A obra é a expressão artística acabada desse
processo histórico, tendo sido publicada no ano do início das obras da nova capital. O autor nela contemplou toda a tradição literária e filosófica
ocidental. Deu voz ao amálgama de raças que forma a gente brasileira. Fez do português sertanejo língua literária, o desejo expresso pelas elites
intelectuais pelo menos desde 1922.
Romper com Portugal, sobretudo na língua, era meta antiga. Mas Guimarães Rosa limitou-se ao registro dessa ruptura, foi buscar no fundo das Gerais a
realidade do Brasil profundo, que deixou de ser litoral, provisório, para ser o agente permanente da afirmação do poder nacional.
Guimarães Rosa tinha como projeto escrever a continuação do seu épico. Seria o Grande Sertão: Cidades. Uma obra que ainda precisa ser escrita, para
fechar o ciclo de ouro do mito fáustico no Brasil, no campo literário.
* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias
coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor
da ANL – Associação Nacional de Livrarias.
