Sociedade

Universidade e adversidade


Quase
todo mundo sabe que o ensino brasileiro no primeiro e no segundo grau é de
péssima qualidade, pior mesmo do que o de alguns países pobres da América do
Sul. Esta é a avaliação feita pelos poucos pais que, sabedores da importância
cada vez maior da educação, acompanham de perto a educação de seus filhos e
sentem as deficiências das escolas em que estudam.

No
entanto, a maioria dos pais – seja por indiferença, por ignorância ou ambas –
ainda não se deram conta do papel fundamental de uma boa educação para o futuro
de seus filhos.

A
avaliação feita pelos pais baseia-se evidentemente em observações paroquiais
diretas sem nenhum método de pesquisa, não obstante elas chegam ao mesmo
resultado das avaliações feitas por pesquisas embasadas em estatísticas de um
número maior ou menor de escolas e cobrindo regiões mais abrangentes ou menos.

Por isso mesmo
é preciso levar em conta que a qualificação negativa do ensino é resultado de
uma média das escolas avaliadas. Isto significa dizer que ao qualificar o
ensino como péssimo, não deixa de haver o reconhecimento de que existe um
pequeno número de boas escolas, quase todas particulares e a maior parte delas
de orientação religiosa, seja ela católica, evangélica, judaica, etc.

As
escolas públicas, no entanto, situam-se entre as piores. E nisto também a
avaliação dos pais e outras pessoas interessadas no ensino coincidem com a
feita pelas pesquisas.

Todavia,
nem sempre isto foi assim. Nas décadas de 50 e 60, as escolas públicas eram
muito melhores do que as particulares. A maioria dos pais – ainda que
portadores de suficiente poder aquisitivo para pagar uma escola – costumavam
matricular seus filhos em escolas públicas, porque sabiam que o ensino
oferecido por elas era muito melhor.

Creio que
por volta dos últimos anos da década de 60 que o ensino público de primeiro e
segundo grau começou a se deteriorar e acabou se tornando a lástima que é hoje.
E cada emenda mostra-se pior do que o soneto!

Na década
de 80, quando ele já estava em fase avançada de deterioração, o ensino público
universitário começou a apresentar efetivas melhoras, principalmente com o crescimento
de instituições de pesquisa como a CAPES e o CNPq, que incentivaram tanto a
pesquisa como a geração de cursos de pós-graduação, isto para não falar na lei
de carreira do magistério superior do general e professor Ruben Ludwig, então
Ministro da Educação.

Tudo isto
se passou durante o regime militar e os professores universitários têm uma
dívida de gratidão para com o general Ludwig e o almirante criador do CNPq,
dois grandes estimuladores do ensino superior e da pesquisa em pós-graduação.

Mas com a
deterioração do ensino público de primeiro e de segundo grau e com a melhora do
terceiro e do quarto grau ocorreu um fenômeno insólito: a maioria dos pais,
cujo poder aquisitivo era suficiente, matriculava seus filhos em escolas
particulares; eles faziam cursinhos de pré-vestibular particulares e,
posteriormente, prestavam concurso de vestibular em universidades públicas
federais ou estaduais.

Por sua
vez, os pais que não tinham recursos financeiros para matricular seus filhos em
escolas particulares, recorriam às escolas públicas do primeiro e do segundo
grau.

Como
estas mesmas não os preparavam adequadamente para concorrer a vagas no ensino
público superior e como os pais careciam de recursos para pagar cursinhos de
pré-vestibular, a alternativa era fazer um grande esforço financeiro
matriculando-os em faculdades particulares em que os concursos, salvo pequenas
exceções, eram menos difíceis e o número de vagas maior.

É
escusado apontar o caráter extremamente injusto dessa situação, mas para
resolver a questão parece que a solução é melhorar o ensino público do primeiro
e do segundo grau, de tal modo que os estudantes de menor poder aquisitivo
fiquem mais bem preparados para concorrer com os de maior nos concursos de vestibular.

Além disso,
as universidades púbicas deveriam criar cursinhos de pré-vestibular e
oferecê-los gratuitamente aos que, comprovadamente,
não pudessem pagar. Os custos, assim como outros das universidades públicas,
poderiam ser repassados aos que, comprovadamente, pudessem pagar.

Não obstante,
pouco tem sido feito para gerar um ensino de primeiro e de segundo grau da
melhor qualidade possível. Em vez disso, tenta-se construir uma casa não
começando pelos alicerces, mas sim pelo telhado.

Estamos nos referindo à Ação Afirmativa e seu
sistema de quotas que, baseado num distorcido igualitarismo, tem se constituído
numa séria ameaça à meritocracia.

[Não é
por nada que a Suprema Corte dos Estados Unidos, uma vez provocada, declarou
que a AçãoAfirmativa, com seus variados sistemas de cotas, é inconstitucional.
Mas, no Brasil, o STF ainda não tomou uma decisão, simplesmente por não ter
sido ainda provocado].

Em vez de
aplicar o princípio da igualdade de
oportunidades
, colocando os estudantes de baixa renda num patamar mais
próximo dos de maior poder aquisitivo, com boas chances de aprovação no
vestibular, criaram um mostrengo discriminatório baseado em critérios arbitrários,
como o de “raça”. Competência não tem sexo nem cor! E tudo o que importa é
competência!

Como já
escrevemos vários artigos visceralmente contra a Ação Afirmativa, não diremos
aqui mais nada sobre o assunto. Preferimos abordar a questão da qualidade de
nosso ensino universitário. Na média, ele é pouco menos ruim do que o ensino
básico e o médio.

Levando
em consideração uma comparação das universidades brasileiras, reconhecemos que há
um pequeno número de centros de excelência. A USP, a UNICAMP, a UFRJ, a PUC-RJ,
etc. são as que têm recebido a mais alta nota do CNPq e da CAPS e estão entre
as melhores do país. Destas se destaca a USP, reconhecidamente a melhor
universidade do país.

Contudo,
se levarmos em consideração uma comparação com universidades estrangeiras, o
resultado é decepcionante e assustador, de acordo com o THE (Times Higher Education),
uma instituição inglesa avxaliadora das universidades no mundo, que apresenta
periodicamente um ranking das
universidades.

O THE
leva em consideração 13 requisitos na sua avaliação: entre eles, relação
estudante/professor, quantidade de alunos e estudantes estrangeiros, número de
trabalhos científicos publicados, ênfase na pesquisa, etc.Eis a lista das 10
primeiras no ranking da última
pesquisa feita (Fonte: Folha de São Paulo,
10/3/2011):

1.o Harvard (EUA), 2.o MIT (EUA), 3.o Cambridge (Reino
Unido), 4.o Berkeley (EUA), 5.o Stanford (EUA), 6.o Oxford (Reino Unido), 7.o Princeton (EUA), 8.o Tóquio
(Japão), 9.oYale (EUA), 10.o Instituto de Tecnologia da
Califórnia (EUA).

Devemos
reparar que, entre essas 10 melhores, 7 são universidades americanas, duas
britânicas e uma japonesa. Das universidades européias continentais, estando fora
as britânicas, as mais bem colocadas são uma universidade suíça (24.o lugar)
e uma alemã (48.o) lugar.

Devemos
ficar sabendo ainda que a tão decantada Sorbonne, assim como nenhuma
universidade francesa, figura entre as 50 primeiras do ranking, para o indizível desgosto dos francófilos e dos
intelectualóides tupiniquins. Além disso, as universidades americanas – para o
desprazer dos antiamericanistas que pululam neste Brasil – ocupam a maioria dos
35 primeiros lugares. God Bless America!

Mas o que
é mais espantoso e constrangedor é que a USP – destacadamente a melhor de
nossas universidades – ocupa um lugar na rabada abaixo do 200.o lugar!!!

Que
vergonha! Como é que uma república banana como a nossa tem as tolas pretensões
de vir a ser uma grande potência, de figurar entre países de Primeiro Mundo e
de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?!

Sem boa
educação acessível a todos e sem meritocracia como parâmetro de avaliação dos
recursos humanos, não passamos de uma lagartixa pretensiosa pensando ser um
jacaré.

Mas,
mesmo diante desse quadro deplorável, os governos Lula tiveram a desfaçatez de
alardear o slogan: brasil: um pais de todos. Isto necessita
uma pequena mudança: brasil: um país de tolos.

Doutor em
Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ.
Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e
Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos]. Membro
Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Autor de Problemas de
Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível
(Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto
Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica
(Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto
Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL,
Londrina, 2000) . Liberdade ou Igualdade? ( EDIPUCRS, Porto Alegre, 2002).
Co-autor de Significado, Verdade e Ação (EDUF, Niterói, 1985); Paradigmas
Filosóficos da Atualidade (Papirus, Campinas, 1989); O Século XX: O Nascimento
da Ciência Contemporânea (Ed. CLE-UNICAMP, 1994); Saber, Verdade e Impasse
(Nau, Rio de Janeiro, 1995; A Filosofia Analítica no Brasil (Papirus, 1995);
Pré-Socráticos: A Invenção da Filosofia (Papirus, 2000) Já apresentou 71
comunicações em encontros acadêmicos e publicou 46 artigos. Atualmente tem
escrito regularmente artigos para www.parlata.com.br,www.rplib.com.br ,
www.avozdocidadao.com.br e para www.cieep.org.br , do qual é membro do conselho
editorial.

Como citar e referenciar este artigo:
GUERREIRO, Mario. Universidade e adversidade. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2011. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/sociedade/universidade-e-adversidade/ Acesso em: 07 jul. 2026
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