Sociedade

Um ato de liberdade

 

06 de novembro de 2009

 

     Muitos têm criticado a intransigência da Igreja Católica em manter a disciplina do celibato para aqueles que querem tornar-se sacerdotes, como se essa exigência fosse descabida. Ora, depois de dois mil anos de história as coisas herdadas da tradição têm sua razão de ser. A Igreja não pode se moldar aos modismos passageiros das épocas.

 

      O catolicismo sempre teve em Cristo o modelo a ser seguido e os Evangelhos testemunham que o cristão deve imitá-lo. Segui-lo é largar tudo. Nunca é demais recordar a passagem de Lucas (18,28-30): “Eis que nós deixamos nossos bens e te seguimos”. Jesus lhes disse: “Em verdade eu vos digo, não há quem tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do reino de Deus, sem que receba muito mais neste tempo, e no mundo futuro, a vida eterna”. O sacerdócio é um caminho para a imitação de Cristo.

 

      São Paulo foi claro quanto a isso. Podemos ler no 1Coríntios (7,32-33) “Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa, e fica dividido.”

 

      Desde o Concilio de Elvira, realizado no ano 300 d.C., que a tendência de exigência do celibato sacerdotal se institucionalizou. Essa visão foi consolidada ao longo da existência da Igreja. O santo João Paulo II também escreveu sobre o assunto (Carta Novo Incipiente), lembrando que ninguém se faz sacerdote senão depois de uma escolha conscienciosa, em anos de preparação e oração. Quem não tem vocação não deve buscar esse caminho. Fa-lo-á por um ato de pura liberdade. Ninguém é compelido a ser padre.

 

      O caso excepcional recente dos sacerdotes oriundos da confissão anglicana deve ser tomado como isso, uma excepcionalidade, justificada pelo anseio da união da Igreja sob um só pastor. Não deve ser tomado como uma tendência de abandono do ideal de castidade sacerdotal. A sábia decisão de abrigar os irmãos levou em conta a realidade das coisas que não podem ser desfeitas, sem, todavia, transigir com a própria disciplina da Igreja. 

 

 

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. Um ato de liberdade. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2009. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/sociedade/um-ato-de-liberdade/ Acesso em: 23 abr. 2024
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