Sociedade

Cidadania x Racismo

 

Recebi hoje o correio eletrônico que transcrevo abaixo (substituí o nome da brasileira por BB, do país por ZZ, da cidade por XX e a nacionalidade por YY):

 

Meu nome é BB, sou brasileira, de São Paulo.

Moro na ZZ há mais de 30 anos !

Fui casada com um YY.

Hoje sou viúva há menos de 2 ano.

Com 63 anos, vivo só e independente.

Tenho uma filha casada e uma linda netinha !

Gostaria de saber mais sobre os seus artigos!

Encontrei ao procurar algo sobre SOS racismo, palavra que mais se fala atualmente na ZZ.

Atualmente está sendo insuportável viver aqui !

Mesmo tendo a nacionalidade YY, as coisas são terrivelmente complicadas e difíceis.

O racismo se vê em toda parte, em tudo no dia-a- dia !

Gostaria de saber mais sobre o que o sr. faz para combater o racismo !

Como o Brasil reage?

Poderá me responder?

Conto com isto !

Estou aqui em XX à sua disposição para dar dados mais graves sobre o que estamos passando aqui, nós os brasileiros !

Obrigada,

BB

 

Respondi-lhe enviando, anexos, três artigos que escrevi sobre a necessidade de se estabelecer o sistema de cotas para negros no Judiciário.

 

Termino um daqueles artigos com a seguinte afirmação:

No final das contas, o que deve ser considerado como pano de fundo para a previsão de cotas é a questão da cidadania. Não se pode aceitar que, na prática, se estabeleça uma separação entre cidadãos como de 1ª e de 2ª classe…

Imagine-se em países (como o nosso), onde as leis que combatem o racismo são consideradas menos interessantes que o Código de Processo Civil, o Código Eleitoral e outros…

 

A questão da cidadania deveria um dos temas mais importantes da atualidade…

 

Deve-se pensar na cidadania do dia-a-dia e não apenas aquela que vive no mundo ideal dos textos legais; palpitante na realidade dos ambientes de trabalho, das escolas, das oportunidades de emprego, do contato cotidiano entre as pessoas etc. etc.

 

O país onde vive aquela brasileira é um dos campeões (teóricos) dos Direitos Humanos. E, mesmo ali, a realidade é de extrema desigualdade (de fato) em desfavor dos negros.

 

Falta muito para a idéia de cidadania ampla penetrar na cabeça e no coração de cada um de nós… Quando isso acontecer, o racismo será peça de museu como se fosse um reconstituído esqueleto de dinossauro.

 

 

* Luiz Guilherme Marques, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG).

Como citar e referenciar este artigo:
MARQUES, Luiz Guilherme. Cidadania x Racismo. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2009. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/sociedade/cidadania-x-racismo/ Acesso em: 04 jul. 2026
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