O editorial do Estado de São Paulo em 11/4/2010, intitulado “Vale tudo por Lulilma”, apresenta a seguinte conclusão:
“Além da arrogância de se imaginar acima de quaisquer limites, como os velhos oligarcas da política nacional com quem se associou, e da obsessão com a suprema prioridade de sua vida este ano, Lula tem um motivo real para entrar com tudo na campanha – ou melhor, para não deixar Dilma solta por aí. O motivo, evidentemente, é ela mesma. Os dois dias que passou em Minas foram uma sucessão de vexames. Fez comentários insultuosos aos presos políticos de Cuba, foi hostil com o repórter que se referiu ao Estado como “berço tucano” e, sem a menor consideração com o provável candidato da coligação lulista ao governo mineiro, o ex-ministro Hélio Costa, do PMDB, pregou a dobradinha Dilmasia (ou Anastadilma): ela para presidente e o tucano Antonio Anastasia, ex-vice de Aécio Neves, para governador.”
“O candidato rejeitou com elegância o esquema por não ter “amparo na realidade”. Por sua vez, um agastado Hélio Costa retrucou que a candidata poderá “morrer pela boca” e que, chapa por chapa, Serrélio seria uma boa alternativa. Decerto isso não está nas cartas a esta altura do jogo.”
“O que está é a crescente suspeita dos partidos da base aliada de que a construção de uma liderança política acreditada não é o forte de Dilma. A pessoa, desconfiam, simplesmente não é do ramo. É a servidão da candidatura Lulilma.”
Para começar, é preciso levar em consideração dois importantes fatores: Primeiro, a grande popularidade de Lula que chegou a mais de 80% de aprovação de seu governo, só sendo superada pela de Aécio que chegou ao recorde nacional de 93%! Com a diferença de que a de Aécio pode ser justificada por sua excelente administração no governo de Minas e a de Lula só pode ser creditada à beocidade ou ao oportunismo de seus ternos e eternos admiradores e sequazes. Em segundo lugar, a ausência de um nome presidenciável nos precários quadros do PT (Perda Total, no jargão das seguradoras).
As duas coisas conjugadas fizeram Lula pensar que elegeria até um poste. E o poste escolhido por ele foi uma candidata antipática, sem nenhum carisma, sem nenhum traquejo político nem jogo de cintura, com um discurso chatérrimo incapaz de mobilizar deslumbrados apedeutas e, ainda por cima, portadora de um pavio curtíssimo. Diante desse perfil da candidata, recuso-me a acreditar que o Zé Mané votaria em sua sogra para Presidenta do Brasil!!
Diante disso, o próprio Lula já se mostrou assaz preocupado com o futuro político de sua preferida quando ele não estiver mais em cena para garantir boa receptividade da parte dos eleitores e garantir a transferência de votos.
Até agora, a campanha presidencial do PT – feita à margem da lei, diga-se en passant!!! – tem sido feita por Lulilma, quer dizer: Lula faz discursos em inaugurações e reinaugurações de obras, e Dilma só abre sua boca para dizer que os discursos são dele, mas a candidata é ela, apesar de Lula já ter recebido duas multas do TSE, no valor total de R$10.000, 00 – uma merrequinha que satisfaz plenamente a relação custo/benefício!
Contudo, custo a crer que a elevação do valor dessa multa à quinta potência, em prol de campanhas eleitorais feitas de acordo com a legislação, inibiria campanhas milionárias dispostas a pagá-la de bom grado. Creio que a única solução é a criminalização da pilantragem.
Como “não há nada de novo debaixo do sol” (Salomão: Livro do Eclesiastes) e, a fortiori, nada de novo há na desgastada vida política brasileira, eu já vi esse filme antes. Como não sou desmemoriado, a exemplo de 80% dos meus compatriotas, lembro-me muito bem da película:
O governador do Rio de Janeiro era o Pangaré dos Pampas, Leonel Brizola, e seu candidato à sucessão era Darcy Ribeiro, o idealizador do Sambódromo. Darcy era aquele que, entre os políticos, dizia que era antropólogo e, entre os antropólogos, dizia que era político: um verdadeiro desastre em matéria de angariar aliados e votos.
O velho Briza lá de Carazinho (RS) – um dos políticos mais matreiros que o Brasil já conheceu – bolou uma solução genial: a candidatura Darçola em que Darcy metia a cara na TV, mas quem soltava a voz no espaço era Brizola. Na realidade, Darcy não passava de um boneco no colo de um ventríloquo. Apesar da candidatura Darçola, Darcy Ribeiro perdeu a eleição.
Mas, como as coisas têm que mudar para que permaneçam as mesmas – et plus ça change plus ça devient la même chose – agora o boneco tem sido Dilma, mas quem tem deitado falação é Lulinha-Paz-e-Amor. Todavia, quando o ventríloquo estiver afônico e não puder mais emitir sua tonitruante voz para as massas, seu boneco terá que falar e expor toda sua chocante insipidez, carência total tanto de simpatia como de boas idéias.
apêndice único: dr. darcy e a invenção da coisa
Como poucos sabem, o Sambódromo foi uma idealização de Darcy Ribeiro, fanático e fiel acólito de Jango, o defenestrado do Poder em 1964. Coube a Oscar Niemeyer desenhar a idéia do antropolítico, exatamente como na elaboração de um retrato falado feito na polícia. Como Niemeyer nunca soube calcular nem mesmo o volume de um cubo, foi chamado um engenheiro para fazer o cálculo estrutural, transformando a idéia numa construção.
Pouco antes da inauguração da grande obra, com sua Praça da Apoteose encimada por um M arredondado – que muitos consideraram descarado plágio do McDonald’s – um programa na TV reuniu Darcy e alguns sambistas das escolas de samba, e foi justamente aí que se deu o inolvidável diálogo registrado na minha memória rígida:
Um sambista _ Mas Dr. Darcy, como é que a rapaziada da escola vai fazer quando chegar à Praça da Apoteose! Vai embolar tudo, Dr. Darcy!
Darcy Ribeiro _ Meu filho, não tem problema. Quando chegar na Apoteose, todo mundo pula, grita, faz qualquer coisa…
Bem se vê que o Dr. Darcy entendia muito de apoteose, mas não entendia chongas de escola de samba! Como antropólogo, ele era nitidamente melhor do que Churchill e como político nitidamente melhor do que Lévi-Strauss.
* Mário Antônio de Lacerda Guerreiro, Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos]. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000) . Liberdade ou Igualdade? ( EDIPUCRS, Porto Alegre, 2002). Co-autor de Significado, Verdade e Ação (EDUF, Niterói, 1985); Paradigmas Filosóficos da Atualidade (Papirus, Campinas, 1989); O Século XX: O Nascimento da Ciência Contemporânea (Ed. CLE-UNICAMP, 1994); Saber, Verdade e Impasse (Nau, Rio de Janeiro, 1995; A Filosofia Analítica no Brasil (Papirus, 1995); Pré-Socráticos: A Invenção da Filosofia (Papirus, 2000) Já apresentou 71 comunicações em encontros acadêmicos e publicou 46 artigos. Atualmente tem escrito regularmente artigos para www.parlata.com.br,www.rplib.com.br , www.avozdocidadao.com.br e para www.cieep.org.br , do qual é membro do conselho editorial.
