O espírito científico
Ricardo Bergamini*
“No século XXI o embate não será travado entre esquerda e direita, ou comunismo e capitalismo, mas sim entre racionalidade e estupidez, presentes em todas as ideologias e formas de governos conhecidas até o presente”. (Ricardo Bergamini).
O espírito científico manifesta-se ainda, na atividade científica, pela vontade de romper com as perspectivas puramente subjetivas do conhecimento vulgar. O conhecimento científico implica numa verdadeira ascese. Para conquistar a objetividade científica é necessário libertarmo-nos da visão subjetiva, imposta espontaneamente por nossa organização biológica, por nosso corpo (passagem do conhecimento sensível, qualitativo, ao conhecimento racional, quantitativo; substituição do sol visto pelos olhos do corpo pelo sol concebido pelo astrônomo, por exemplo), e também da subjetividade ligada às tendências psicológicas, às paixões (recordemos a necessária “psicanálise” do antropomorfismo espontâneo) e, ainda, da subjetividade de origem social (o peso da tradição, do conformismo; falamos da longa resistência dos partidários do flogístico à química de Lavoisier e da necessidade de vencer o poder psicológico e sociológico do hábito pela força racional das provas).
O espírito científico é racionalista. Ele exige, diz muito bem Goblot, um esforço para “subtrair o pensamento à influência do sentimento e à arbitrariedade da vontade”. Isso não quer dizer – muito ao contrário – que a ciência diminua a importância dos fatores irracionais na conduta humana. Quando um historiador, um sociólogo, um economista, um psicólogo se dizem racionalistas, não querem expressar com isso que a conduta humana seja sempre, nem mesmo freqüentemente, racional. Eles não se deixam enganar pelas “racionalizações”, pelas justificações que os homens, comumente, dão de suas crenças e de seus atos, “como se ficasse entendido que eles devem estar penetrados de lógica”. Nas ciências humanas, o racionalismo consiste em dizer, não que a conduta humana seja racional, mas que ela é suscetível de ser racionalmente explicada, que é possível determinar suas causas (mesmo que a causalidade psicológica, ou sociológica, escape ao próprio sujeito que a sofre).
O historiador e o sociólogo sabem que, em seu trabalho, podem ser vítimas de ilusões, e de influências irracionais como os primeiros físicos ou químicos o foram. Mas o racionalismo consiste em ressaltar, simultaneamente, a importância e o perigo dessas influências irracionais. Ele somente reconhece sua presença – e seu poder – a fim de empregar o que de melhor possui para delas escapar.
Não censuramos o espírito crítico por seu caráter negativo, dissolvente. Pois o espírito crítico não é o espírito de crítica. O espírito crítico não é senão o reverso de uma exigência muito construtiva, a exigência de verdade de objetividade. Bem compreendido, o espírito crítico é, como muito se repetiu e com justa razão, “o sentido da prova”. É nessa vontade de não afirmar coisa alguma, que não possa ser provada, que reside a vocação essencial do espírito científico. O matemático somente desenvolve o que é rigorosamente deduzido do sistema de axiomas previamente adotado (e reduzido à sua base “mínima”, segundo o incomparável rigor do método axiomático). O físico, o químico, o biólogo, por outro lado, submetem suas hipóteses à verificação experimental, multiplicando experiências a fim de construir um feixe de provas e rejeitando as hipóteses desmentidas pela experiência.
Para finalizar cabe apenas acrescentar que, com a globalização e a democratização do saber e do conhecimento através da internet, não haverá mais espaços para ideologias e formas de governos antigas e ultrapassadas. É óbvio que a passagem, do atual momento de irracionalidade generalizada da humanidade, para a racionalidade, será um processo longo e duradouro – com muita dor, sofrimento e sangue – será inevitável! Faz parte do processo de purificação e evolução espiritual da humanidade.
* Economista, formado em 1974 pela Faculdade Candido Mendes no Rio de Janeiro, com cursos de extensão em Engenharia Econômica pela UFRJ, no período de 1974/1976, e MBA Executivo em Finanças pelo IBMEC/RJ, no período de1988/1989. Membro da área internacional do Lloyds Bank (Rio de Janeiro e Citibank (Nova York e Rio de Janeiro). Exerceu diversos cargos executivos, na área financeira em empresas como Cosigua – Nuclebrás – Multifrabril – IESA Desde de 1996 reside em Florianópolis onde atua como consultor de empresas e palestrante, assessorando empresas da região sul.
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