Política

O Conselheiro Rossi

 

29 de novembro de 2009

 

É uma grande ilusão achar que a posição do governo Lula relativamente a Honduras é passageira ou fruto de um capricho. A tentativa de entender os fatos – a intervenção aberta naquele país – pelos parâmetros da normalidade das relações entre países fracassa, porque o que está sendo feito é nada mais nada menos do que um gesto de imperialismo comunista, no âmbito do Foro de São Paulo. Por isso a posição do PT é tão estridente quanto seus fracassos são ampliados. Pouco importa se o poder constituído de Honduras triunfou e que as eleições de hoje foram reconhecidas, sobretudo pelos EUA. Lula e o PT sabem que seu aliado perdeu e esse fato pode implicar o recomeçar de um trabalho de anos, para chegarem de novo ao poder.

 

A confusão leva até mesmo um jornalista experiente como Clóvis Rossi a querer dar conselhos de bom senso a Lula, como no artigo ontem publicado na Folha de São Paulo (A fila andou em Honduras). Rossi constatou o óbvio: “Qual é a realidade? Vai haver eleição amanhã em Honduras, sem Manuel Zelaya. Insistir em negar a realidade contradiz, de resto, um lote de atos e palavras do próprio governo Lula”. A questão não é negar a realidade enquanto tal para o PT. A questão é saber que botões apertar para colocar no governo hondurenho as forças aliadas. É isso que estão fazendo.

 

Dentro das relações normais de Estado as eleições esgotariam a discussão e a vida seguiria seu curso. Mas essa gente está em processo revolucionário e a questão da democracia é mera retórica, justificadora de suas ações para a tomada do poder. Democracia, para os revolucionários, não é um valor em si, mas um recurso instrumental para chegar ao poder. Lula e seus acólitos contavam com a omissão dos norte-americanos para realizar seu projeto de recondução de Zelaya. Não deu certo.

 

Clóvis Rossi tangenciou o problema ao notar que Lula usa de pesos diferentes quando trata do Irã e de Cuba e mesmo de Chávez. Por que o jacobinismo com relação a Honduras? Pelo simples fato de que lá suas forças perderam, enquanto nos países citados os aliados estão confortavelmente no poder. Mesmo assim o jornalista atribuiu a posição brasileira a uma mera falta de realismo. Ora, quem não enxerga o real é o próprio Rossi. Este sempre apoiou os vermelhos do PT sem imaginar que eles chegariam às últimas conseqüências. Mas eles estão chegando às últimas conseqüências, seja no âmbito da política interna, seja na externa.

 

A cegueira de Clóvis Rossi reflete a cegueira geral das classes pensantes e empresariais no Brasil. Estão tomados pelo torpor de achar que essa gente não atravessaria a linha vermelha. Ora, revolucionários são revolucionários em tempo integral. Chego a ter pena de Clóvis Rossi, querendo dar conselhos de realismo a Lula. Ele que deveria tomar um choque de realidade. Só fará isso todavia quando a coisa estiver completamente fora do controle. Quem viver verá.

 

 

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. O Conselheiro Rossi. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2009. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/o-conselheiro-rossi/ Acesso em: 29 fev. 2024