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Haiti, um país que se define pelas ausências

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Pela Agência Senado, acompanhei em setembro de 2008 comitiva de senadores da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) em visita diplomática a nove países do Caribe, entre eles o Haiti. Conhecer o  país mais pobre das Américas é algo que muda a forma de vermos o mundo e os conceitos de pobreza e riqueza.

Chegamos ao Haiti munidos de algumas informações sobre aquele país – a desnutrição crônica afeta 51% da população e a expectativa de vida no país é de 52,4 anos – mas nada me preparou para o que iria encontrar. O Haiti não possui nada do que, mesmo em um país emergente como o Brasil, consideramos básico para viver: água encanada, luz elétrica, escolas, transporte público, gás para cozinhar.

Os rios são cobertos de lixo até as bordas e, na prática, deixaram de existir. Quando chove, a água se espalha, porque não tem por onde escoar. Os haitianos cozinham com lenha, o que gerou o desmatamento de 98% do território nacional. Com a falta de lenha, as pessoas retiram galhos das poucas árvores que existem nas ruas para cozinhar.

Na capital, Porto Príncipe, praticamente não há lojas e o comércio é feito basicamente por camelôs. A principal feira de alimentos da cidade é conhecia como Cozinha do Inferno e verduras e legumes que serão vendidas à população ficam no chão, sobre plásticos, em cima da lama.

Os desastres naturais parecem ser atraídos para o Haiti. Na época da visita, o norte do país acabara de ser assolado por três furacões  e  grupos de militares brasileiros se preparavam para deslocar-se para a região a fim de ajudar a população local.

Visitei com os parlamentares vários pontos da capital haitiana. Não presenciamos cenas de violência, mas os militares contaram que quando chegaram ao país a situação era dramática. A guerra entre gangues era intensa e os corpos muitas vezes não era sequer enterrados, ficavam expostos em decomposição nas ruas da cidade.

Mesmo a capital sendo considerada pacificada quando estivemos lá, o deslocamento era feito sob escolta dos soldados brasileiros que representavam a Organização das Nações Unidas, os “capacetes azuis”. Um dos crimes mais comuns nas ruas da cidade na época, segundo os  militares me contaram, eram sequestros relâmpagos e o resgate pedido para as famílias girava em torno de 10 dólares.

Em Cité Soleil, favela mais pobre da capital e pacificada pelas tropas brasileiras, quando viam o comboio da ONU as pessoas saiam às ruas com panelas nas mãos pedindo , em Português , comida.  O primeiro impulso era dar o que tínhamos conosco, no meu caso uma barra de chocolate, mas fomos orientados a não dar comida aos haitianos, porque não haveria suficiente para todos e só causaríamos mais problemas.

Com todas as tragédias que vi nessa viagem, um sentimento muito bom ficou: um grande orgulho pelo trabalho que os militares brasileiros estão fazendo no país. Diante de uma miséria tão absoluta que não dá para saber nem por onde começar a solucionar os problemas – tantos e tão urgentes – os brasileiros levaram paz, um pouco de ordem e auxílio prático, como a construção de pontes. Saí de lá com a sensação de que o Brasil é um país rico e que podemos fazer coisas muito boas se quisermos.  

Silvia Gomide, editora da Agência Senado, viajou em 2008 para o Haiti como repórter, acompanhando os trabalhos da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

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Fonte: Senado

Como citar e referenciar este artigo:
NOTÍCIAS,. Haiti, um país que se define pelas ausências. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2010. Disponível em: https://investidura.com.br/noticias/senado/haiti-um-pais-que-se-define-pelas-ausencias/ Acesso em: 09 set. 2026