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Enquanto a violência ocorre com os outros



Todos nós nos impressionamos com qualquer tipo de violência e sabemos que o tema sempre ocupou amplo espaço nas mídias brasileira e internacional, com ênfase nos últimos tempos, seja como decorrência do aumento dos índices de criminalidade nas áreas urbanas, seja com o aumento significativo da disseminação das drogas em nossa sociedade. Mas ao analisarmos a questão da violência urbana nas nossas cidades, perceberemos que, muito mais grave do que o crescimento do número de mortes violentas, está o terrível sentimento de normalidade que domina a nossa sociedade frente à violência cotidiana.

 Faço esse preâmbulo para falar do latrocínio – roubo seguido de morte – que vitimou o proprietário do Supermercado Rizzo, localizado na esquina da Avenida Itaimbé com a Rua Sete de Setembro, no bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ocorrido no último sábado.

Paulo Gilberto Heck, com 60 anos, foi assassinado quando trabalhava em seu comércio e foi surpreendido por bandidos armados. Ele teria reagido ao assalto e foi atingido por três tiros.

 

Seu Paulo era meu amigo, amigo do minha família, enfim um velho amigo do bairro Perpétuo Socorro. Eu o conhecia desde a minha infância, tendo muito frequentado o seu estabelecimento comercial. Como todos os santa-marienses, fiquei impressionado com tamanha crueldade. Mas como homem público, deputado estadual e com a responsabilidade que assumi desde a minha primeira função pública, decidi que não poderia ficar apenas sentido. Então organizei uma reunião no final da tarde da última segunda-feira, com o comandante do 1º Regimento de Polícia Montada de Santa Maria, Ten. Cel. Sidenir Cardoso de Oliveira, o presidente interino da Câmara de Vereadores, Admar Pozzobom, e o vereador eleito, Cel. Vargas, além de empresários e comerciantes do bairro Perpétuo Socorro. Na oportunidade ficou definido que, pela posição geográfica do bairro, será intensificado o policiamento ostensivo na localidade.

 

Depois de falarmos também sobre a possibilidade de outras ações, senti a sensação de dever cumprido, embora nada vai trazer a vida do seu Paulo de volta, nem aliviar o sofrimento de sua família, amigos e conhecidos.

Tenho a convicção de que a nossa atitude é o caminho da mudança. Quando refletimos sobre os números de mortes causadas pela violência, observamos que morrem mais pessoas por ano decorrentes da violência urbana no Brasil do que em guerras ou grandes catástrofes. Se levarmos em consideração o fato de não termos em nosso País nenhuma “Guerra Civil”, ou outro tipo de conflito dessa natureza, perceberemos então que a realidade é muito mais amarga do que podemos imaginar. Entretanto, um outro elemento, diretamente ligado a essa indiferença, me chama a atenção: esse sentimento de banalização só não existe quando a violência urbana ocorre bem próxima de nós: um vizinho, um parente ou algum amigo são motivos suficientes para a indignação e a consternação frente a vida ceifada de maneira bruta e violenta.

 

Com isso, o crescimento da violência – que ocorre em grande escala em função da falta de oportunidades e na insatisfatória atuação do Estado através de políticas públicas como, por exemplo, uma educação de qualidade acessível a todos e de um sistema penitenciário que realmente recupere os infratores – faz com que esse sentimento de “banalização” cresça na mesma proporção. Quanto maior o número de casos de violência, mais “acostumada” e “anestesiada” fica a nossa sociedade, infelizmente.

 

(artigo publicado no jornal A Razão de 1º de novembro de 2012)

 

*Deputado estadual, líder do PSDB na Assembléia Legislativa

Fonte: AL/RS

Como citar e referenciar este artigo:
NOTÍCIAS,. Enquanto a violência ocorre com os outros. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2012. Disponível em: https://investidura.com.br/noticias/alrs/enquanto-a-violencia-ocorre-com-os-outros/ Acesso em: 15 jul. 2026