A força das
palavras no contexto é que dá o timbre do que seja uma boa ação, como veremos
no correr deste texto.
A professora
prescreveu o tema sobre o qual os alunos deveriam discorrer: “Uma boa ação”.
Recomendou que os meninos dessem asas à criatividade. Que o texto tivesse
grandeza e procurasse comover.
Augusto,
sempre cioso de ser um bom aluno, pôs-se a meditar:
“Eu já sei
muito bem o que vou escrever, não tenho a mínima dúvida sobre a boa ação que
proporei aos meus colegas. Só não sei como vou fazer para comover, pois é isto
que a professora quer.”
Lembrou-se
então o menino de uma frase que, dias antes, sua Mãe falou baixinho, no ouvido
do Pai:
“Marido,
quando suas ações sobem, você é um outro homem, você me emociona”.
Augusto então
concluiu; “ação que emociona é ação que sobe”.
Entretanto,
há ações que não sobem, mas que são boas. Foi o que seu Pai falou dia desses na
hora do jantar:
“As ações que
temos caíram, com essa crise financeira internacional, mas quando a empresa é
forte, como o Banco do Brasil, podemos ficar tranquilos. A ação cai hoje, mas
sobe amanhã.”
Depois de
todas essas reflexões, Augusto decidiu sobre o rumo a tomar e iniciou solenemente
sua redação:
“Uma boa ação
é a do Banco do Brasil. Tudo quanto é empresa pode falir, mas o Banco do Brasil
sempre estará garantido. O Banco do Brasil só haverá de falir se o Brasil cair
em falência. Por esta razão, não existe ação melhor que a do Banco do Brasil.”
O Augusto
releu o parágrafo e achou que estava ótimo. Entretanto, atento às recomendações
da professora, viu que seu trabalho estava incompleto, pois não tinha emoção. E
perguntou a si mesmo: como uma ação do Banco do Brasil pode comover?
Imaginou
então a história de um homem que tinha colocado todo o dinheiro que economizou
na compra de ações do Banco do Brasil. Essas ações, como todas as outras,
caíram muito na bolsa. Embora sabendo que o Banco do Brasil era muito forte,
ele ficou desesperado, teve um enfarte e morreu.
No dia em que
os trabalhos foram entregues, a professora comentou os textos para todos os
alunos ouvirem.
“Augusto, meu
querido aluno. Você é muito inteligente. Sua redação está perfeita, não tem um
só erro de português. Mas uma boa ação que eu dei como tema
não é isso. Veja as boas ações que seus colegas apontaram: ajudar uma pessoa
idosa a atravessar a rua; defender um colega que sofre uma injustiça; visitar
uma pessoa doente”.
Esse é o
lamentável epílogo do insucesso escolar do Augusto.
Cabe um
acréscimo, à margem. Triste sociedade onde até as crianças, de tanto ouvirem
falar em queda da bolsa, supõem que uma boa ação seja a do Banco do Brasil.
O mundo seria
melhor, se estivesse liberto da onipotência do capital e do seu mais nefasto
vértice, o capital financeiro.
Afinal quem é
mais útil ao convívio humano: o banqueiro que manipula o dinheiro e pede
socorro ao tesouro público quando seu negócio fracassa, ou o agricultor que
trabalha de sol a sol, lavra a terra e produz alimentos?
João Baptista
Herkenhoff é Professor da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES),
palestrante e escritor. Autor do livro Dilemas de um juiz – a
aventura obrigatória (Editora GZ, Rio de Janeiro, 2010).
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br
