Sociedade

O medo da solidão


Umas
das muitas características negativas do nosso tempo é o temor exagerado da
solidão. O medo de ficar-se só e o pavor da rejeição. Nunca as pessoas gastaram
e se desgastaram tanto, na ânsia de buscarem companhia física. Mesmo com todo
esse empenho e gastos materiais e afetivos, nunca os seres humanos se sentiram
tão só, vazios e desamparados. Festas, reuniões, associações, excursões,
passeios e diversas outras formas de lazer e acontecimentos sociais são
programados e praticados com freqüência, a fim de se afugentar dos corações e
das mentes, o espectro da solidão.

Milhares de pessoas se acotovelam em ambientes
festivos, cinemas, teatros, ruas, calçadas, praças, barzinhos, botecos,
restaurantes, jogos, televisão, novelas, carnaval, além de outros locais
recomendáveis ou não; onde buscam escapar de seus vazios existenciais, na
ilusão da bebida, drogas e no falso amparo e aplausos dos outros. Outras tantas
se sujeitam e se submetem às uniões e acasalamentos negativos e sofridos,
somente para não ficar sozinhas, darem satisfação aos demais e demonstrarem que
são capazes de atrair alguém. O temor da reprovação alheia é uma constante na
atualidade. Essas uniões por interesse ou necessidade são muito negativas, pois
logo sobrevêm os atritos e o reconhecimento da superficialidade conjugal, com
enormes prejuízos psicobiosocial para os envolvidos e seus descendentes, cujo
futuro estará comprometido, com a desestruturação do lar. Muitas pessoas são
atendidas por psicólogos e médicos, cujos casamentos ou acasalamentos se
efetuaram porque essas pessoas se sentiram “velhas”, “rejeitadas”,
“incompetentes”, por estarem sendo criticadas por não terem ainda se casadas,
sentindo-se solitárias e incompetentes para a conquista de um real
relacionamento amoroso, etc.

Geralmente, nesses casais, as mulheres é a parte
mais prejudicada, pois se submetem a vexames e, não raro, às ameaças e às
agressões físicas de seus companheiros. O curioso é que apesar dos maus tratos
a que são submetidas nesses relacionamentos doentios, muitas delas não se
animam a tentarem uma nova forma de acasalamento; as exceções ficam por conta
das que tem bom nível cultural e financeiro. Muitas alegam já terem perdido
muito tempo na vida e agora não se disporiam a procurar novo parceiro. Vale
ressaltar que em muitos casos sofrem carência e dependência financeira,
justamente porque não se prepararam, intelectualmente para alcançarem melhores
condições econômicas e sociais. Não desenvolveram os seus intelectos e não
lapidaram suas inteligências, ou por ignorância dos seus pais, que não lhes
valorizaram o “saber” ou por não terem tido condições financeiras para
adquirirem o conhecimento ou, geralmente, terem dado mais atenção e cuidados ao
exterior de seus corpos que às suas mentes.

Desta forma, sem conhecimento e sem cultura, ficam
dependentes de subempregos e com poucas chances de se tornarem independentes.
E, assim, serão escravas de seus companheiros, de seus patrões e de suas
paixões, com pouca coragem de deixá-los, mesmo subjugadas e sofrendo, por se
sentirem incapazes de sobreviverem com as suas escassas condições financeiras.
É claro que estamos nos referindo a pessoas de poucas posses e baixa
escolaridade; embora haja exceções para ambas as classes sociais; pessoas ricas
e cultas, sujeitas e submetidas a relacionamentos negativos e doentios, por
diversos motivos como idade, dependência sexual, dependência à beleza física,
medo da solidão, estados psicopatológicos, defeitos físicos, etc. Poderíamos
citar muitos exemplos de pessoas em situação de penúria física, moral e mental,
com graves conseqüências para si, para a família e para o social. O número de
solitários e de suicidas aumenta consideravelmente e a depressão tornou-se um
fenômeno freqüente e universal. A angústia se apodera dos seres humanos, na
proporção da multiplicidade e diversidade de suas tentativas de serem felizes,
principalmente com as outras pessoas. Diversas formas artificiais de felicidade
foram criadas a fim de afugentar o fantasma da solidão e do abandono (ou da
rejeição). O álcool, o sexo, cães, gatos, o consumismo desenfreado e o uso de
incontáveis fórmulas químicas de drogas para colorirem artificialmente as mentes
imaturas e vazias, notadamente os de menos idade.

O consumismo exagerado de bens materiais é uma falsa
e doentia tentativa de preenchimento desse vazio existencial que hoje atinge a
maior parte da população mundial. Os homens (todos os humanos) investem nos
outros a esperança de eles os fazerem felizes. Acontece que devido a grande
ansiedade pelos resultados desse investimento, leva-os a uma forte expectativa
de recebê-la do próximo, gerando exigências desmedidas que geralmente o outro
não consegue atender. Dependendo de muitos fatores, inclusive da idade, cada
experiência negativa (e frustrante), esgotam-se os seus mananciais de
“doações”, desejando e esperando somente o retorno desse investimento; quer a
níveis consciente e/ou inconsciente. É claro que a felicidade tão almejada tem
muita relação com a pessoa do sexo oposto. Esta é a programação natural, ditada
e traçada pelas forças instintivas biológicas; não fosse assim, não teríamos
sequer prosperado como Humanos. O “crescer e multiplicar-se” não é só um ditame
divino; é o destino genético de todos os animais e vegetais. Entretanto, a
fonte maior da felicidade encontra-se dentro de cada pessoa, na riqueza e
diversidade da sua vida mental; na criatividade e utilidade de seus atos
positivos a si, e aos demais seres. A dificuldade está na razão de, quase todos
buscarem fora essa felicidade, como se ela fosse alguma coisa extra; algo como
uma dádiva do destino; ou, ainda, uma oferenda dos deuses.

A felicidade, que não é mais que o viver adequado do
indivíduo no seu meio, é fruto de seu mundo interior, de sua formação,
educação, bom senso, maturidade e alguns poucos “rasgos” de sorte. Há homens
que, sublimando os poderosos instintos naturais, conseguem a felicidade através
da espiritualidade, das artes, da ciência e da religião. O que é raro e difícil
de acontecer em nossos dias, devido aos sedutores e atraentes apelos do
consumismo, da futilidade e do “pornossexismo” ensinado, divulgado e
condicionado pela televisão, internet, filmes e diversos outros veículos que
condicionam todos, desde criancinhas até aos mais velhos, à promiscuidade
libertina, descarada, escancarada e desenfreada que não encontram limites ou
resistência em qualquer autoridade ou em quem quer que seja. As pessoas mental
e espiritualmente evoluídas parecem não se importarem ou sofrerem com o
isolamento e, ao contrário, muitas vezes até o procuram. O está só é um fato
inevitável e inerente à condição humana. A experiência existencial é um
fenômeno inexplicável, individual, única, intestemunhável e, sobre tudo,
não-solidário. Ninguém é capaz de sentir, concretamente, a dor do próximo, por
mais próximo que ele nos seja ou esteja. O máximo que podemos fazer é avaliar a
angústia e o sofrimento alheios. Hipotecar solidariedade é o máximo que podemos
e devemos fazer. Cada Ser Humano é um mundo à parte; que não se compartilha com
ninguém. Nascemos só e, só, morreremos. Não tem nenhuma alternativa ou
desculpa. Esta é a maior de todas as provações e frustrações. Nenhum Ser humano
vem ao mundo, mentalmente acompanhado; nem mesmo os gêmeos univitelinos. Não
existe comunhão mental, a não ser como expressão romântica e literária.

O universo da Mente é infinitamente vasto, complexo
e, até agora, pouco explicado e entendido. A vivência de cada Ser é única,
indivisível, intransferível e impartilhável. A ontogênese nos ensina que, desde
a sua origem até o final de sua existência o ser humano é mentalmente só e
sozinho caminhará. Este é o destino do homem. Mesmo quando gera muitos
descendentes, um casal sente que não os criou para si; mas, para o Mundo. E,
este fato está cada vez mais desumano, com os filhos abandonando os pais,
seduzidos pela miríade de atrações do mundo fantasioso do sexo, das drogas, da
riqueza fácil e da beleza exterior fugaz, propagadas pelos filmes, pela
televisão, cinema, revistas e outros condicionadores das mentes infantis e dos
imaturos de qualquer idade, raça, classe social, cor, seita e religião. Os
filhos seguirão os seus próprios caminhos e os pais estarão novamente sozinhos,
como no princípio. É perfeitamente genético e biológico que os pais queiram,
inconscientemente, manter os seus filhos em torno de si, a fim de tê-los em sua
companhia até o final de suas vidas. Isto é aceitável e faz muito sentido,
considerando os aspectos psicológicos, genéticos e biológicos. Mas, este é
outro assunto que no momento foge da pretensão deste Trabalho. Porém, apesar da
solidão psicológica e desamparo biológico que nos esperam no inevitável final
da existência; temos meios para minimizar esse estigma e dilema existencial. O
segredo está no enriquecimento interior, com o cultivo da sabedoria criadora
que é o único espantalho das vicissitudes da progressão etária. Albert
Einstein, em uma de suas últimas entrevistas, afirmou que era feliz porque não
precisava de ninguém. O grande cientista buscava o isolamento que lhe
proporcionava paz, genialidade e criação. Einstein, por si próprio se
completava; dependia pouco dos demais, devido ao seu vasto enriquecimento
interno que lhe proporcionou um vigoroso consciente mental, capaz de controlar
e neutralizar os impulsos primários e animalescos do seu Inconsciente. Este
controle é raro em nossos dias quando a maioria dos humanos é condicionada e
levada a se comportar imitando os atos perniciosos e negativos de bilhões de
imaturos, doentes e degenerados do mundo inteiro, cujos exemplos nocivos nos
são mostrados e condicionados pelos meios de comunicação, principalmente pela
televisão e seus “descendentes” e “ascendentes”, como os vídeos, os filmes,
revistas, alguns tablóides, internet e certas peças teatrais.

Ao se sentir sábio e criativo, o indivíduo torna-se
seguro e não teme o “encontro consigo mesmo” nos inúmeros e inevitáveis
momentos de solidão e desamparo que a vida nos reserva. Quando a pessoa é
vazia, carente de conhecimento e de cultura, não dispõe do poder criativo que
uma mente repleta de conhecimento pode proporcionar-lhe. Ela sente necessidade
freqüente do amparo alheio, é uma pessoa dependente. Esta dependência provoca
diversos comportamentos que buscam assegurar a sua estrutura e a sua
estabilidade psicofísica. Isto, é muito difícil de se obter, considerando que a
segurança interna é fruto de um processo mental que se relaciona com o conteúdo
da mente, num dinamismo intenso desde a vida intra-uterina até a morte do
indivíduo. Quando esta dinâmica mental está empobrecida, principalmente por
carência de conhecimento (este, é o alimento da mente), a pessoa assim carente
não terá um comportamento adequado à sua própria sobrevivência; não será feliz
e prejudicará, também, os semelhantes, o meio ambiente e toda sociedade. Neste
estágio mental, o vazio existencial se estabelece, forçando a pessoa a
valorizar mais as coisas externas como o corpo, os adornos, o sexismo, o
exibicionismo corpóreo e material, o insaciável consumismo, as fugas
alucinógenas e toda espécie de subterfúgios neuróticos e, até psicóticos. Neste
ponto, como é costume nosso, citaremos exemplos clínicos de casos que
demonstram, na prática, a realidade do que afirmamos, com o fim de esclarecer
àqueles que costumam culpar o “destino”, a “má-sorte” , o “sistema”, o
“Governo” e os “outros”; por suas mazelas existenciais.

-Há tempos, uma jovem mulher de 29 anos, procurou o
tratamento psicoterápico com o seguinte histórico de vida:

Filha de uma família de classe média, desde mocinha
utilizou a sua beleza exterior para conquistar e variar de parceiros, com os
quais teve muitos prazeres e …decepções. Foram vãos os apelos, súplicas e
esforços de seus pais para que estudasse e se dedicasse ao cultivo de sua
inteligência, espiritualidade e riqueza interior. Seu interesse limitou-se ao
sexo, às futilidades físicas exteriores, consumismo de cosméticos,
acompanhamento de novelas e outros lixos mostrados na maioria dos programas
televisivos. Variava de namorados a fim de exibir o seu poder de sedução.
Carros e motos barulhentos e exibicionistas era a sua rotina, em passeios,
churrascos, festinhas, barzinhos, botecos, baladas e outros “programas” com os
seus amigos e admiradores antropófagos. Aos 18 anos já tinha “passado pelas
mãos” de vários desses “divertidos”, “despreocupados” e “festivos” “caras
legais”, como costumava chamá-los. O último desses “gatos”, após abandoná-la,
saciado, deixou-lhe muitos “arranhões” e um filho indesejado. A família,
temendo as conseqüências de um provável aborto, aceitou o fato, com muitas
brigas e críticas constantes por seu comportamento. Continuou com a mesma forma
de vida, se divertindo como antes, deixando o filho entregue aos cuidados e
despesas dos pais. Tempos depois, começou a ser rejeitada pelos homens, porque
o seu corpo já dava sinais de decadência na epiderme, nas suas “curvas”, no seu
exterior e no organismo. A família continuava a reclamar-lhe os encargos da
criação do filho. Ela, improdutiva e incompetente para prover a sua própria
subsistência; sentindo-se não mais atraente e desejada pelos “homens” do seu
meio e percebendo a perspectiva da solidão que se avizinhava, aceitou a
companhia e a coabitação de um homem de nível mental e social inferior ao seu,
para dar satisfação à família e aos outros, bem como lhe proporcionar
companhia, apoio afetivo e estabilidade emocional.

Pouco tempo durou o seu sonho de ter uma companhia e
não se sentir solitária. O companheiro passou a ter ciúme exagerado e a
rejeitar o filho que não era seu, lembrando-lhe, constantemente, que ela já
tinha sido “muito usada” por outros; que ela já havia “andado” com homens ricos
e que não quiseram “nada” com ela, etc. Agredia-lhe com freqüência e não
admitia qualquer interferência ou ajuda da família dela, apesar das
dificuldades financeiras e emocionais que atravessavam. Ele se sentia
inferiorizado diante da boa situação financeira da sua família, principalmente
com relação a um irmão dela que era engenheiro. Este casal permanece com intensos
sofrimentos físicos e mentais que desestruturam as suas pobres existências.
Mesmo assim, ela continua com o companheiro, acreditando que não encontrará
outro homem que a queira, no estado de decadência estética, física e mental em
que se encontra.

Neste exemplo, que se equipara a milhares de outros
semelhantes que sabemos e outros tantos que desconhecemos. Nele, podemos tirar
duas importantes lições de vida. Uma delas é a pobreza cultural que levou à
decadência mental e física dessa mulher, impossibilitando-a de fazer escolhas
positivas e úteis para alcançar a verdadeira Homeostase; ou seja, o equilíbrio
básico,natural e necessário a uma vida digna e edificante para si e para os
demais. Assim, desequilibrada, sente-se incapaz de atitudes positivas e de novas
procuras, com receio de novos fracassos. Desta forma se submete ao sofrimento,
à desestruturação física e mental (e de seus familiares), permanecendo
condicionada a uma parceria negativa e perigosa. Outro ensinamento que este
caso nos mostra é que seu parceiro, apesar das diferenças sociais e financeiras
entre eles, suas mentes têm algo em comum: a falta de conhecimento, cultura e
saber. Se ele tivesse cultivado a sua mente, embelezando o seu interior com o
conhecimento, instrução e cultura; estaria em melhores condições para conseguir
outra profissão que fosse mais segura, gratificante e lucrativa; possibilitando
uma vida mais agradável e segura para si, para ela e para os filhos. Segundo
informações prestadas pela família do seu companheiro, ele havia recebido
incentivo e razoável condição financeira para estudar e progredir
intelectualmente. Mas, ele nunca demonstrou interesse em aprimorar o seu
intelecto, preferindo (assim como ela) os programas onde a rotina e tema eram
sexo, bebida, farra e outras ilusões frustrantes e passageiras. A necessidade
de aprimoramento mental, através do estudo, do saber e do conhecimento é de
importância vital para a sobrevivência em uma sociedade onde a hipocrisia é
generalizada, embora todos neguem isso.

Perguntem aos que exercem profissões ou trabalhos
que exigem mais os músculos e a destreza física, como pedreiros e ajudantes,
garis, motoristas, lixeiros e limpadores de esgotos e muitos outros que mal
recebem cumprimentos daqueles que eles servem em serviços essenciais à saúde, à
segurança e ao nosso bem-estar. Quanta solidão não deve sentir esses
importantes agentes do bem-estar social, cumprindo as suas missões sem o devido
reconhecimento e acolhimento popular. Agora os comparem com o respeito,
subserviência e admiração que a maioria tem para com médicos, juízes,
engenheiros, deputados, etc. É fácil avaliar-se o grau de hipocrisia, injustiça
e desumanidade de muitos que se dizem humanistas, democratas, bondosos e
defensores dos direitos humanos. Vê-se, pois, o grande valor do conhecimento,
da cultura, do saber e do enriquecimento mental. Exemplo notório disso é o que
se passa com os policiais que, apesar de a eles recorrermos nos nossos momentos
de insegurança e perigo; nem sequer são cumprimentados quando os encontramos
nas ruas, expondo as suas próprias vidas por nós e recebendo ínfimos salários.
Esta é a nossa invertida e hipócrita sociedade que admira,bajula e idolatra o
inútil e negativo e rejeita,desconhece e desvaloriza o positivo e útil. Vamos
dar outro exemplo que demonstra os transtornos causados por uniões motivadas
pelo medo da solidão.

-Um homem de 50 anos, que apesar de gozar de uma boa
situação financeira, era pobre de informações culturais. Tal pessoa “comprou”
uma esposa a fim de não mais ficar sozinho e “cansado” de aventuras sexuais
passageiras. O casamento foi efêmero porque as personalidades do casal eram
diversas, principalmente porque a mulher, sendo bem mais nova, ainda queria
“aproveitar” a vida; conforme afirmara. Enquanto ele estava “cansado” de
aventuras; ela queria mais “aventuras”. Da mesma forma que o primeiro exemplo
acima, este homem sofre ( e faz sofrer) no seu relacionamento conjugal, mas
teme “partir para outra”, receando não dispor mais de tempo para uma nova busca
e, assim, acomoda-se a uma situação negativa e maléfica, com medo de vir a
ficar só. Por certo as suas condições mentais não lhe asseguram a tranqüilidade
para enfrentar o seu vazio existencial, caso venha a ficar sem uma companhia
física. É preciso lembrar que nunca se está sozinho quando se tem um “EU”
estruturado, rico de conhecimento e criativo. Não é necessário que se “seja um
Einstein”; todos têm essa capacidade lactente, basta que cultivemos mais o
nosso “interior” (Consciente + Inconsciente), valorizando-o tanto quanto o
fazemos com o nosso “exterior”. As pessoas que são esteticamente “bonitas”
(fachada exterior) têm muita dificuldade para cuidarem de seus conteúdos
mentais (interior); pois, elogiadas e bajuladas pelos outros, não tem tempo
para o aprimoramento intelectual, já que este demanda cuidados e despesas com a
manutenção dessa “beleza” externa, antes que ela se acabe com a idade,
acidentes,doenças etc. Destituídas dessa “beleza” exterior, a tendência é de
que essas “beldades” se deprimam e se perturbem de forma psicobiológica, na
ausência de admiradores, bajuladores e outros oportunistas sexuais.

São muitos os exemplos de desestruturação mental e
física frente à solidão ou da expectativa de se vir a ficar só. Escreveríamos
muitas páginas se fôssemos citar os casos clínicos que ouvimos e lidamos
relativos ao medo de encarar o afastamento das pessoas; ou seja, o receio de se
sentir rejeitado, em qualquer idade. Ironicamente, esse temor é muito
encontrado naqueles que têm “muito tempo pela frente”, como as pessoas novas em idade. Há pouco tempo,
dizia-me uma dessas de 18 anos, que estava cansada desta vida e que vivia
solitária, apesar dos muitos encontros com os amigos e colegas de turma. Mesmo
entre os mais idosos, ainda que não tenham tido tempo; não foram motivados ou
não tiveram interesse para enriquecerem o interior psicológico, encontram
condições mentais para lidarem com a solidão natural dessa fase. A não ser que
suas vidas tenham sido bastante inúteis ou negativas. Como já citamos antes, os
caminhos reais e seguros para proporcionarem uma estrutura mental capaz de
saber enfrentar co naturalidade e vigor a solidão presente ou futura (esta, é
inevitável a todos humanos); são os caminhos do Saber, da Cultura e do
Conhecimento. As vias do conhecimento, da aprendizagem e da sabedoria são as
que nos levam à maturidade mental e à inteligência, que todas as pessoas
normais têm, mas poucas a aprimoram e a cultivam. Esses caminhos que nos dão a
estabilidade emocional, a paz e a felicidade, são os mais negligenciados em nossos
dias.

Atualmente, cada vez mais se mostra e se valoriza a
aparência física e a superficialidade das coisas; ao mesmo tempo em que se
demonstra, negligencia-se e se desvaloriza os atributos essenciais da
existência, que são a inteligência, a riqueza espiritual, mental e psicológica.
Se observarmos analiticamente os milhares de rostos que cruzam, por nós,
diariamente, nas ruas,praças, avenidas, nas salas de aula,nos locais de
trabalho,etc., percebe-se o vazio existencial; a preferência e a atração pelas
coisas tolas,efêmeras,volúveis,materiais e superficiais. A essência da vida,
que são a Mente e o Espírito, foram há muito, rejeitados, escorraçados e até
odiado por quase todos. A riqueza e beleza do conteúdo mental e da maturidade
espiritual foram e são alcançadas por uma minoria de Homens como o já citado
Einstein, Ghandi, Madre Tereza, Irmã Dulce, Freud, Sabin, Fleming e outros
poucos da atualidade, que, embora humildes e esquecidos souberam e sabem
dignificar a nossa Espécie, com o gênio,trabalho,dedicação e modéstia. Todos
eles tiveram ou têm um cérebro anatomicamente igual ao de todos nós. Possuíram
ou possuem uma mente rica de conhecimentos, humanismo e saber, que tanto bem
nos fizeram e fazem. Mesmo sem o gigantismo intelectual, algumas desses citados
acima, se tornaram ricos, interiormente, graças ao dever cumprido como pais,
cidadãos e como Pessoa.

Quando o indivíduo não aprimora o seu intelecto por
meio do conhecimento, do estudo, da observação da natureza e da pesquisa;
permanece bruto, incompetente, imaturo e inseguro; o que é um risco para ele e
para todos que com ele convive. A dependência, a alienação e a insegurança, tão
comuns nos dias atuais; são os sintomas principais que atormentam a existência
de bilhões de pessoas no mundo. Nelas se estabelece o vazio existencial, por
pressentirem a própria nulidade de suas vidas, causando frustração que é a
causa da agressividade e violência constantes e crescentes em todas as
sociedades atuais. Vale relembrar que a frustração é causada pelo desejo de ter
o que não tenho e, pelo o que eu gostaria de ser e não sou. Quando pobre,
interiormente, o indivíduo não tem criatividade, necessitando ou dependente da
ajuda dos outros para se conduzirem pela vida. Nessas circunstâncias a pessoa
foge do encontro consigo mesmo, evitando ao máximo os momentos de solidão. São
estes momentos que induzem a pessoa à meditação, que é o voltar-se para dentro
de si. Alguns, por sua nulidade, temem tanto o futuro que chegam a negar ou
diminuir a sua idade, tentando enganar a si mesmos. Ora, se a pessoa se
encontra vazia, sem conteúdo e alienada ( o que acontece com a grande maioria
hoje), cedo ou tarde perceberá a inutilidade e banalidade de sua existência, o
que é uma verdadeira “traição” à essência da vida, cuja criação lhe dotou de um
órgão maravilhoso,supremo,ímpar,único e transcendente que é o cérebro. Com uma
capacidade quase infinita de gravar acontecimentos, de estocar e manipular
dados suficientes para capacitar qualquer pessoa a ter uma vida plena, feliz em
comunhão com os outros e com o planeta. A capacidade do cérebro é tão grande
que já se postulou ser ele capaz de reter mais informações que todas as
bibliotecas do mundo. Como o órgão gerador da mente, ele controla todas as
atividades vitais, dentro e fora do organismo.

De fato, todos os acontecimentos do mundo estão sob
o controle do cérebro, com exceção dos eventos da natureza. Quando ele está
carente de informações a sua produção mental se torna pobre e deficiente,
tornando o seu portador vazio, existencialmente, independente de ele ter
riqueza material, poder ou beleza física. Daí, o grande receio da solidão, do
isolamento e da rejeição, sentidos pela maioria das pessoas, principalmente
entre os mais novos e mais velhos em idade, quando se encontram mental e espiritualmente
vazias. Qualquer perda de amizade ou de rejeição amorosa, logo é sentida como
uma catástrofe que os leva ao sofrimento, ansiedade e à depressão. A pessoa
sente angústia, ansiedade, somatização e grande desejo de logo procurar outra
amizade, companhia e parceiro, a fim de não pensar no próprio “Eu”; isto é,
foge de si mesmo com receio de “encarar” a própria nulidade existencial. Essa
pressa de sair da solidão é devida, também, à necessidade de dar satisfação aos
outros, de mostrar ao mundo que é capaz de atrair outro; mesmo que esse outro
não possua nenhum atributo positivo interior; pode ser até uma “mula quadrada”;
desde que tenha dinheiro ou boniteza externa. Há algum tempo, nos foi mostrado
um caso clínico que relaciona o temor da solidão com o sofrimento e a
desestruturação.

Uma moça nova em idade e considerada bonita, vinda
do Interior, não via problema em ficar sozinha, sem namorado ou isolado dos
demais. Ela não se preocupava em buscar, ansiosamente, amizades masculinas a
fim de se exibir perante os outros. Como disse, gostava de ficar sozinha em sua
casa, lendo,estudando e cuidando da casa. Com pouco tempo de permanência na
Capital, passou a ser criticada e pressionada por seus colegas de trabalho, de
estudo e por alguns parentes; para arranjar um namorado, companhia,
principalmente masculina. A pressão foi aumentando e as críticas se avolumando
ao ponto de insinuarem que ela “não gostava de homem”. Passou a mentir e fingir
que tinha um namorado somente para dar satisfação aos outros. Com o tempo e
para fugir da grande pressão e das críticas dos conhecidos, parentes e
“amigos”, não resistiu e se entregou às barulhentas, ensurdecedoras e
esfumaçadas “baladas” das noites moykanas. Hoje, aquela moça “bonita” que veio
do interior para estudar e melhorar de vida, está casada com um dependente de
drogas, que de vez em quando e de quando em vez lhe agride, vivendo,
basicamente do parco salário dela. Deprimida, psicossomatizada e bastante
debilitada, sem a mesma boniteza física de antes, não sente ânimo para
empreender nova caminhada em busca da felicidade. O estranho é que todos
aqueles que a pressionaram para as “boas” companhias nas “baladas” noturnas;
sumiram, deixando-a na pior: a solidão conjugal. Seria oportuno lembrar outro
problema que comumente surge com as pessoas que se deprimem vivenciando a
solidão; ou, na perspectiva de virem a ficar desacompanhadas. Pessoas que ficam
na “fossa” com facilidade, que precisam sempre estar em companhia de outrem,
enfrentam um grave problema que é o da psicossomatização.

A atuação da mente, principalmente através do
Inconsciente cerebral, se efetua pelo sistema nervoso “autônomo”,
proporcionando o aparecimento de inúmeras enfermidades mentais e físicas. O
sistema endócrino atua com muita rapidez por todo o organismo sob os impulsos
da mente. Raramente encontramos uma pessoa com um histórico de depressão ou
qualquer outro distúrbio mental severo ou crônico, que não apresente também um
“leque” de queixas somáticas e hipocondríacas. Uma existência saudável, tranqüila
e feliz, tem como pré-requisito uma vida interior rica e sábia. Uma mente
madura, capaz de adequar-se às vicissitudes que inexoravelmente nos virão, no
decorrer da existência de cada um. É bom lembrarmos que nos dias atuais os
fatores negativos e nocivos tendem a se acentuarem; enquanto que os
acontecimentos positivos ficam mais escassos. A tendência é cada vez mais nos
defrontarmos com obstáculos que…com facilidades. Ninguém pode garantir que o
nosso viver seja mais feliz no futuro; aliás, nem sabemos que teremos algum
futuro. A extrema competição que os homens conhecem e pior verão em futuro
próximo, gerará feroz e animalesca agressividade que não conhecerá limites. Não
estamos afirmando, neste Trabalho, que somente as pessoas cultas, sábias ou “doutas”,
têm chances de melhor se adequarem à vida; embora, de fato, estas tenham mais
facilidades para tal. São sábias e cultas, também, aquelas pessoas que embora
não tenham ou tiveram vida acadêmica e literária, possuem a sabedoria da
observação, simplicidade, humanismo, criatividade e trabalho profícuo e
honesto. São algumas daquelas que habitam os lugarejos distantes do Interior;
os da “roça”, que na singeleza de suas aparências, representam uma força
autêntica, viva e produtiva da Nação.

Elas são exemplos do “encontro” salutar e corajoso
com a “velhice” e a solidão. Essas pessoas não temem o isolamento, mesmo na
idade avançada e nem tampouco necessitam de drogas alucinógenas para fugir dos
“fantasmas” que assombram as mentes dos vazios, nulos e imaturos de qualquer
idade. Eles criam e produzem, por isso não se atormentam diante do inevitável
encontro consigo mesmo. De fato, conhecemos muitos homens (quando falo “homem”,
me refiro aos dois sexos) da “roça”, trabalhadores rurais que se encontram
sozinhos devido à separação, viuvez ou pela saída dos filhos de casa.
Observando e conversando com eles, verificamos que não temem o encontro com a
solidão, mesmo em idade avançada. Não se vê entre pessoas simples a negação ou
simulação da idade; eles têm até orgulho de suas existências. Esta tentativa de
enganar o tempo é muito comum entre pessoas frívolas e imaturas que estremecem
de pavor ao perceberem a própria decadência física e mental. O motivo de as
pessoas maduras e sábias não temerem a passagem do tempo e a solidão é o de ter
consciência de terem cumprido o seu dever para com Deus e com os homens; sabem
que fizeram o melhor para si, para os seus e para os seus semelhantes. Essas
pessoas simples possuem a sabedoria da vivência, da natureza e a retidão de caráter.
Mas, infelizmente, a maior parte dos seus descendentes não terá a mesma sorte
de seus pais, que souberam “amadurecer” com sabedoria e tranqüilidade. A
televisão, também, já entrou em todos os lares da “roça”, desestruturando a
família rural, com os inúmeros exemplos negativos de sexo irresponsável e
promiscuo, consumismo, adultério, corrupção, exibicionismo desenfreado, desvios
sexuais, drogas e muitos outros modelos da deterioração humana. É,
principalmente, através das novelas, onde os heróis são corruptos e
degenerados, quando o Mal prevalece sobre o Bem; levando-os a crerem que o
crime compensa e o trabalho e honestidade são desonra e atributos do passado.

Para finalizar, não poderíamos deixar de citar e
homenagear um grande exemplo de vida que condiz com a essência deste Trabalho:
Helen Keller. Esta mulher, de personalidade ímpar, nos mostrou com o seu modelo
vivencial, como está nula e vazia a maioria das pessoas de hoje. Esta grande
figura humana, cega, surda e muda desde os seus primeiros anos de vida, veio a
se tornar uma das maiores personalidades do mundo. Ficou célebre por seus
livros e conferências por quase todos os países. Viveu sozinha com a sua fiel
amiga Anne Sullivan (outra grande mulher), até aos 88 anos de idade. Quando
esta sua amiga morreu, em 1953, Helen Keller ainda viveu por muitos anos,
inteiramente sozinha! Aliás, sozinha não! Teve a melhor das companhias: ela
mesma. Já em idade muito avançada, costumava dizer: “espero feliz a chegada do
outro mundo, onde todas as minhas limitações cairão”.

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Este Trabalho foi escrito e publicado em Belo Horizonte, em
fevereiro de 1986. Posteriormente veio a ser atualizado, em parte, para melhor
condizer com a presente realidade. O autor muito deve e agradece o trabalho e
colaboração da
Srta. REJANE FURTADO, de São Sebastião do Paraíso-MG. REJANE, cujo lema de vida é “Tornando seu sonho realidade”, nos ouviu com
paciência e atenção, ajudando-nos em nossas pesquisas e contribuindo com
importantes sugestões na atualização deste escrito, além de nos ter prestado
valiosa assistência técnica na digitação do mesmo.

Belo Horizonte, 14 de fevereiro de 1986;

São Sebastião do Paraíso, outono de 2011.

Carleial. Bernardino Mendonça.

Psicólogo-Clínico pela Universidade Católica de
Minas Gerais;

Estudante de Direito da Universidade Estácio de Sá;

Escritor e Pesquisador nas áreas da Psicobiologia e
do Direito.

Como citar e referenciar este artigo:
MENDONÇA, Carleial Bernardino. O medo da solidão. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2011. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/sociedade/o-medo-da-solidao/ Acesso em: 07 jul. 2026