Quando ingressamos na magistratura, pensamos sobre o dia em que teremos que encarar a aposentadoria, nos primeiros tempos – pouco, e, à medida que se sucedem os janeiros – muito.
O decurso do tempo é inevitável e irrefreável.
Queiramos ou não, chega a hora de dizer adeus às coisas boas e menos boas do exercício do cargo de juiz.
Uns se aposentam pesarosos, outros indiferentes e outros como quem se livra de fardo desagradável…
Não sei qual será minha reação na época da despedida, mas proponho-me a encarar com naturalidade a mudança.
A verdade é que procuro frear meu envelhecimento, sobretudo com a prática de atividades culturais e esportivas.
Envelhecer cheio de achaques, dificuldades e limitações físicas é renunciar ao direito que todos temos de viver plenamente até o último dia de vida.
Não se deve admitir como aceitável a desagregação do ser humano no físico e no psicológico além dos limites do inevitável.
Lembro-me, com grata satisfação, de dois companheiros na Volta Internacional da Pampulha de 2006, um com 81 anos e outro com 85. Que exemplos melhores do que esses do saber viver plenamente?
Outro exemplo que merece ser destacado é o do Desembargador JOSÉ FERNANDES FILHO, aposentado por idade há vários anos, mas que continua desenvolvendo um trabalho importantíssimo a favor da magistratura brasileira.
Uma coisa que não podemos admitir em nossa vida é a mediocridade no sentido da indigência em idealizar e persistir em novas metas; pusilanimidade em renunciarmos ao impulso de recomeçar; covardia em não participarmos da luta saudável pela renovação diária de nós próprios e do meio em que vivemos.
A vida é como a água: inodora, insípida e incolor. Tem o perfume que nela instilamos, o gosto que nosso paladar tem a virtude de sentir e a cor do nosso olhar.
Realmente, o trabalho na magistratura é uma importante missão, mas nossa vida não se resume em vivê-la, pois deve visar também nossa plenitude pessoal através da vivência conforme as regras bem interpretadas da Mãe Natureza.
Aí vem a reflexão sobre como viver o trabalho, qual a utilidade do trabalho quanto às pessoas a quem se destina…
O dinheiro é uma das conseqüências do trabalho, mas não representa tudo.
A plenificação interior só chega a quem realiza trabalho idealista.
Passar é inevitável, mas a plenitude deve ser procurada, durante e depois!
* Luiz Guilherme Marques, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG).
