Sociedade

Éti(ti)ca à brasileira!

Éti(ti)ca à brasileira!

 

Mario Guerreiro*

 

 

Recentemente, no interior da Bahia, foi descoberto que em cerca de vinte municípios suas excelências os prefeitos dos mesmos desviavam dinheiro da merenda escolar. Mata o velhote e ainda chora copiosamente no velório? Não, isto é coisa da Flora de A Preferida, novela da Globo, pura ficção. O Brasil real é um país cristão em que o povo é humano e solidário. Isto é que é ética. Ou é titica?

 

O referido episódio é episódico: não pense o amigo que se trata de uma prática comum na terra de Tuninho Malvadeza, Pópó e Pai Juca de Oxóssi: costuma ocorrer em todo o território nacional do Oiapoque ao Chuí, embora, a bem da verdade, seja evento assaz infreqüente.

 

Abro o Jornal do Commercio, em16/12/2008, e leio: “Soldados do exército designados para ajudar as vítimas da chuva em Santa Catarina foram flagrados ao desviar roupas doadas pela população de todo o país da central de distribuição em Blumenau.” [E os doadores devem ser considerados otários? Não, os surrupiadores é que devem ser considerados salafrários!]. “Voluntários também foram filmados ao selecionar e furtar objetos do local.” Como se pode depreender, é uma grande inverdade dizer que o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. O promulgador da Lei de Gerson – Gerson, o Canhotinha de Ouro – estava redondamente equivocado.

 

“Uma câmera escondida da RBS TV (afiliada à Rede Globo) gravou militares, alguns sem camisa, descarregando um caminhão com doações para Blumenau e cidades vizinhas. Enquanto uma parte jogava e chutava roupas para fora do veículo, outra abria caixas e sacolas. __ Que tu vai fazer com esse sutiã aí, velho?, perguntou um militar para um colega. __ Eu vou dar pra minha mãe, respondeu. Em seguida, outro comenta que levará um dos produtos da central para a namorada.” E ainda costumam dizer por aí: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Que expressão chula, maldosa e inteiramente despropositada!

 

 (…) “As gravações ocultas também flagraram um grupo de mulheres que carregava sacolas e recolhia produtos para levar para casa. __ Tem coisa boa. Esse aqui eu vou levar para meu guri”, disse uma mulher que segurava um par de tênis. [E ainda vimos e ouvimos no Jornal da Globo outra moçoila dizer: __ Bá! Esse não serve! Tá com  a sola descolada!]. O grupo chegou a ser repreendido por uma mulher, que presenciava indignada a rapina __ Aqui não é mais para mexer nas roupas, disse ela. __ Isso aqui é para quem não tem dinheiro para comprar. A gente tem que dar graças a Deus que tem saúde para trabalhar e comprar.” Como vemos, havia  uma, e somente uma nota em dissonância com o acorde formado por muitas. Mas uma andorinha só não faz verão!

 

“Outras imagens mostravam uma voluntária saindo do centro de distribuição com um carrinho de supermercado lotado de produtos, que foram levados até o carro. Um homem se aproximou dela em seguida com outros produtos. Eles encheram o porta-malas do veículo.” Será que era a primeira viagem ou já tinham feito meia dúzia de carregamentos?! Cesteiro que faz um cesto faz um cento.

 

Acrescenta ainda a referida matéria que, diante da bela demonstração de sólida eticidade em Blumenau, o comandante da 14.a Brigada de Infantaria Motorizada disse que afastou 13 militares da operação de auxílio às vítimas, que foram transferidos para funções administrativas. Se foi aplicada alguma forma de punição a esses soldados, violadores do código de conduta militar, a reportagem nada disse nem desdisse. Mas esclareceu que a polícia civil de Santa Catarina está investigando o envolvimento de voluntários no referido desvio de bens. [Voluntários, não por altruísmo, porém por frio oportunismo].

 

“Temendo que o flagrante desmotive futuras doações – inclusive de dinheiro – o secretário estadual de Justiça e Cidadania, responsável pela Defesa Civil, disse que haverá um controle sério e que as pessoas podem ficar tranqüilas.”

 

Disto se pode inferir – e com muito boa lógica – que o próprio secretário admite que, até então, não havia um “controle sério”. E você acredita que, após as supimpas demonstrações de sólidos princípios éticos, haverá de fato?

 

Certo estava o general De Gaulle: “Le Brésil n’est pas un pays sérieux” (tradução: “O Brasil não é um país sério”). E ainda há quem ache que o saudoso Nelson Rodrigues estava expressando uma hipérbole literária quando afirmou: “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”. “No Brasil, todo mundo é Peixoto”  (canalhão de Bonitinha Mas Ordinária).

 

 Enquanto isso, o índice de popularidade de Lulla cresce mais do que a prole de Aedes Aegypti – o popular Dengue – no Méier, a Rainha do Subúrbio. Brevemente, o temível inseto – cuja picadura faz qualquer um ficar dengoso – estará no Rei da Orla Marítima: o Leblon.

 

 

* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos]. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000) . Liberdade ou Igualdade? ( EDIPUCRS, Porto Alegre, 2002). Co-autor de Significado, Verdade e Ação (EDUF, Niterói, 1985); Paradigmas Filosóficos da Atualidade (Papirus, Campinas, 1989); O Século XX: O Nascimento da Ciência Contemporânea (Ed. CLE-UNICAMP, 1994); Saber, Verdade e Impasse (Nau, Rio de Janeiro, 1995; A Filosofia Analítica no Brasil (Papirus, 1995); Pré-Socráticos: A Invenção da Filosofia (Papirus, 2000) Já apresentou 71 comunicações em encontros acadêmicos e publicou 46 artigos. Atualmente tem escrito regularmente artigos para www.parlata.com.br, www.rplib.com.br , www.avozdocidadao.com.br e para www.cieep.org.br , do qual é membro do conselho editorial.

 

 

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Como citar e referenciar este artigo:
GUERREIRO, Mario. Éti(ti)ca à brasileira!. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2008. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/sociedade/etitica-a-brasileira/ Acesso em: 23 mai. 2024