MONTAIGNE, que viveu de
Numa época em que a imensa maioria dos europeus era analfabeta e em que o único mérito das pessoas eram seus títulos de nobreza, aquele homem dado às reflexões filosóficas fez uma afirmação valorizando a Cultura, que, na verdade, não interessava a nobres nem a plebeus, e, chegou ao desplante de dizer que ela tem de ser direcionada pela Bondade. No mínimo, deve ter sido taxado de tolo, ainda mais que era membro da nobreza, portanto, um privilegiado…
Atualmente, uma vez que não existe mais nobreza de sangue, a imensa maioria das pessoas considera o Dinheiro como “a mais nobre e poderosa aquisição dos homens”, entendendo que o Saber é o caminho das pessoas que não nasceram ricas para adquirirem Riqueza.
Para quem tem Riqueza, o Saber seria mero ornamento para completar o “status” que o Dinheiro, por si próprio, lhe confere. Afinal, sempre se pode acrescentar mais uma “virtude” aos que já brilham através da força do Dinheiro… Ser rico e inteligente dá mais realce do que ser meramente rico…
Como a Riqueza está concentrada nas mãos de poucos, a maioria das pessoas se propõe a estudar nos primeiros anos de vida para, na idade adulta, dedicar-se a um trabalho.
O estudo representa uma ferramenta para posteriormente se desempenhar um trabalho menos penoso e mais bem remunerado.
Todavia, as pessoas que trabalham, ricas ou pobres, geralmente visam mais sua própria segurança financeira e de sua família do que o bem comum. A Bondade ainda não tem sido levada em tanta conta como direcionadora da Cultura nos moldes em que a idealizou o sábio francês. A idéia de coletivo ainda não entrou muito na nossa cabeça. Pensamos mesmo em nós próprios e na nossa pequena célula familiar.
De tempos em tempos, a maioria das populações resolve tomar atitudes mais drásticas contra a frieza das elites e então ocorrem revoluções, sendo exemplos a Revolução Francesa, a Revolução Russa etc. Nessas ocasiões, as classes privilegiadas acabam sendo espoliadas de algumas de suas mordomias e têm de conceder aos descamisados aquilo que deveriam ter-lhes dado espontaneamente, por Bondade.
Assim a humanidade caminha, através de uma evolução forçada normalmente de baixo para cima, para um futuro de cada vez mais democracia, mais igualdade de oportunidades para todas as pessoas.
Por enquanto, com as gritantes desigualdades existentes e o egoísmo das elites, poucas pessoas têm um futuro garantido. A maioria vive dentro de uma instabilidade muito grande, vivendo períodos de desemprego, poucas chances na vida empresarial etc..
Somos uma sociedade muito imperfeita, pois a insegurança prepondera. Somente estaremos mais próximos do ideal quando as pessoas que trabalham honestamente tiverem certeza de nunca lhes faltar o necessário para seu sustento e de sua família e todos visarmos o bem-estar de todos.
* Luiz Guilherme Marques, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG).
