27 de junho de 2010
Quando foi anunciada a escolha do senador paranaense Álvaro Dias para compor a chapa presidencial de José Serra, na condição de vice, eu quedei pensativo. Que haveria de motivação racional em tal escolha? Qual o cálculo político pode detrás da decisão? Ela é tão obviamente estúpida que passei a me perguntar se limitada era a minha própria capacidade de análise. Profissionais da política não poderiam ser dados a esses erros grosseiros.
O que ela nos informa? Que o PSDB parece ser composto por um amontoado de caciques que não se entendem, que se traem reciprocamente e que têm a desconfiança como marca de suas relações políticas internas. Em suma, o veneno da traição e da vaidade é o móvel oculto de onde brotam as energias para a tomada decisão, mormente as mais estúpidas. A relação de José Serra e de Geraldo Alckmin tem sido o exemplo desse fato.
O mais óbvio da escolha de Álvaro Dias é que o PSDB rifou sua aliança com o DEM. Certo, este partido vem de um processo de enfraquecimento acelerado, especialmente depois do melancólico ocaso de José Roberto Arruda, em Brasília. Mas Arruda não é o DEM ou, a melhor dizer, ele é apenas um pequeno pedaço do DEM. A agremiação continua lá como sempre foi, congregando nos seus quadros o que restou de políticos conservadores. É ainda a agremiação maior a mais confiável para compor a aliança político-eleitoral. Ela tem os imprescindíveis cabos eleitorais capazes de puxar votos nos rincões.
José Serra e o PSDB, no gesto tresloucado, enterraram uma relação política de anos, quebrando a confiança no aliado confiável de todas as horas. A forma como foi feita a escolha de Álvaro Dias e do seu anúncio foi a mais grosseira e desrespeitosa, sem qualquer costura ou consulta prévia. Não ao acaso a rebelião se instalou no meio dos antigos aliados.
Comparemos como o PT tem tratado o PMDB. Respeito, palavra empenhada palavra cumprida. O partido de Lula jamais subordinou o maior ao menor. Até Sarney está sendo apoiado no Maranhão. Até o odiado (pela base petista, que o associa à Rede Globo) Hélio Costa está sendo apoiado em Minas Gerais. Assim alianças se solidificam, assim as eleições são vencidas.
As eleições presidenciais são ganhas com o carisma dos candidatos e a quantidade de cabos eleitorais que puxam votos nos rincões. O PT sabe disso. O PSDB esqueceu-se da lição elementar em política: a regra é agregar, não desunir. Sempre disseram que José Serra é um desagregador. De novo a escrita se confirma.
Caro leitor, revelo-lhe meu grande temor. Não é ele a eventual eleição da Dilma, agora possível no primeiro turno. Sei o quanto esse fato político é deletério para o Brasil, mas ele está colocado meio que de forma inevitável, um encontro com o destino. Meu grande medo é que as burradas nacionais do PSDB contaminem a quase certa eleição de Geraldo Alckmin e Guilherme Afif Domingos para o governo do Estado de São Paulo. Seria o desastre mais completo.
Se a ditadura do proletariado ainda não está vingando entre nós, isso se dá por dois motivos: o PT não governa São Paulo e não detém o controle das Forças Armadas. Mas estas já estão em acelerado processo de cooptação. Resta tão somente São Paulo, a única garantia que temos para que o Estado de Direito seja mantido, que a própria democracia seja mantida.
* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.
