Recentemente, os Sem Terra cometeram
mais crimes sempre gozando de impunidade. Desta vez, a vítima foi mais um
latifúndio produtivo: um grande laranjal,
suco de laranja cujo maior consumidor é o “detestável” Tio Sam, que continua
sendo o grande bode expiatório das esquerdas carcomidas e tresloucadas.
Não só passaram com um trator por
cima de boa parte do laranjal como também destruíram computadores e outros bens
daquela agroindústria altamente produtiva, o que já seria suficiente para o
Ministério Público sair de sua costumeira vista grossa e enquadrar aquele bando
de vândalos em invasão de propriedade privada, formação de quadrilha e
destruição de patrimônio alheio. Em casos passados, nem mesmo o patrimônio
público escapou da sanha destruidora dessa corja.
Porém, creio que o Ministério
Público, em sua visão de “direito alternativo” – esta excrescência jurídica – tem
encarado as ações criminosas do MST como justas reações de pobres camponeses
contra o explorador e vil sistema capitalista. Será que os bispos da CNBB e as Pastorais da Terra ainda pensam
também assim?
Indagada por um repórter do Jornal
da Globo, uma mulher dos Sem Terra disse que a fazenda devia plantar feijão e não
laranja, que não mata a fome de ninguém. Quando muito serve de sobremesa para “granfino”.
Mutatis mutandis, sua fala foi a mesma de seu grande líder, o famigerado João Pedro
Stédile quando da destruição, tempos atrás, da Fazenda da Aracruz Celulose (RS)
em que foram destruídas, entre outras coisas, muitas mudas de eucalipto. Seu
argumento era formalmente correto, porém substantivamente inválido e pífio,
beirando a fronteira da beocidade hilariante:
Só se devem plantar coisas que
servem para comer,
Não se come eucalipto,
Logo: Não se deve plantar eucalipto.
Se concordássemos com a primeira
premissa, teríamos necessariamente que aceitar a conclusão decorrente da mesma
e da segunda, por uma estrita questão de lógica formal.
Porém, não deveríamos mais plantar eucalipto
para a fabricação de papel e celulose, algodão para a fabricação de tecidos,
seringueiras para a fabricação de borracha, entre outras coisas que não
costumamos comer, porém são matérias primas essenciais para a indústria de bens
de primeira necessidade.
Na realidade, não houve nada de novo
nessa recente invasão e destruição dos Sem Terra. No Brasil do PT no governo,
isto já se tornou um costume tão corriqueiro quanto “atos secretos” no Senado e
desfiles anuais dos GLBTs no Rio e São Paulo.
Se há algo de realmente inusitado, foi
Lulinha-Paz-e-Amor abrir sua boca para reprovar severamente o ato desse
movimento – financiado, como se sabe, por seu próprio governo – qualificando o
mesmo precisamente como deve ser qualificado: um gesto de “injustificável
vandalismo”. Não é que desta vez o homem disse algo certo?! Bingo!
Até então, Lulinha-Paz-e-Amor sempre
foi omisso em relação a esse movimento criminoso ou mesmo o apoiou publicamente,
como naquele inolvidável episódio, visto por milhões de espectadores da TV,
quando colocou um bonezinho do MST – um gesto sem maiores conseqüências, como
diriam os muito ingênuos e os espertos demais, por diferentes motivos, é claro.
Mas a pergunta que não quer se calar
é: Qual o motivo dessa mudança súbita rompendo com uma longa praxe?
Pode-se aventar a hipótese de que
Lulinha-Paz-e-Amor reprovou a invasão e a depredação da boca para fora. Foi na
realidade, uma mensagem dirigida ao famigerado “movimento social” mais ou menos
nos seguintes termos:
“Neste momento, vocês devem se
fingir de mortos, pois já estamos em campanha eleitoral e coisas como essa
podem embananar a candidatura de minha predileta, a companheira Estella do
Var-Palmares também conhecida como Dilma Rousseff. Após a vitória da
companheira, vocês podem continuar invadindo e depredando latifúndios
produtivos.” [como após as Olim piadas no Rio de 2016, o crime semiorganizado
pode voltar atuar a todo vapor].
Outra hipótese um pouco diferente da
anterior é esta levantada por Alon Feuerwerker em sua coluna no Jornal do Commercio em 9/10/2009:
“O Movimento dos Trabalhadores Sem
Terra (MST) está na encruzilhada. Sua bandeira clássica de luta contra o latifúndio
improdutivo enfrenta as agruras da passagem do tempo. A grande propriedade
improdutiva no Brasil vem pouco a pouco deixando de existir como tal. De um
lado, ela sofre a ‘reforma agrária biológica’, e pulverização territorial por
herança. De outro lado, assiste ao avanço da produção intensiva em capital”.
Não tenho a menor dúvida de que o
latifúndio improdutivo está em vias de extinção, ao mesmo tempo que latifúndios
altamente produtivos têm liderado o agronegócio, o principal responsável por
sucessivos superávits na nossa balança comercial. A agroindústria brasileira é
como Pelé e Gisele Bündchen: o Brasil que deu certo!
Porém o que constitui uma forte
objeção ao argumento de Feuerwerker é que há muito que invasões a latifúndios
improdutivos – passíveis de reforma agrária feita dentro da lei – deixaram de
ser vítimas dos Sem Terra que, nos últimos tempos só têm invadido e depredado
latifúndios altamente produtivos, como é o caso do laranjal recentemente
atacado e como foi o caso da fazenda da Aracruz Celulose, entre tantos outros.
Além disso, Feuerwerker dá a
entender que Lulla-Deixa-Que-Eu-Chuto não teria encenado uma reação negativa em
relação aos MST por motivos meramente conjunturais, como a eleição da sua
favorita, mas sim porque os Sem Terra teriam se transformado num estorvo para
sua estratégia política de médio e longo prazo.
Apesar de Lulla já ter mostrado ser
um implacável maquiavélico, que não experimenta o menor mal-estar em se livrar
de antigos aliados como quem joga fora o bagaço de um laranja chupada, apesar
de ter sido eleito por milhões de beócios e capadócios da classe média e ter
trocado esse eleitorado por outro, não consigo enxergar o motivo pelo qual Lulla
estaria descontente com o MST, até agora financiado indiretamente por seu governo
e diretamente por certas ONGs.
Não chego ao ponto de afirmar que o
MST é o braço armado do PT, para futuras guerrilhas no campo, não chego ao
ponto de afirmar que está sendo treinado por guerrilheiros das FARC e/ou de
Hugorila Chávez y Chapolin, limito-me a constatar que se trata de um bando de
perigosos meliantes em que muitos incautos camponeses sem discernimento na
cabeça são liderados por poucos intelectuais sem vergonha na cara.
apêndice I: nova modalidade olímpica em 2016
Há muito que as Olimpíadas tem entre
suas modalidades de esporte o tiro ao alvo. Mas tanto no arco e flecha como no
tiro de pistola, trata-se de um alvo fixo. No Rio, em 2016, teremos uma nova
modalidade: o tiro ao alvo em alvo móvel, não necessariamente em helicópteros
da PM: em incautos turistas também, mas como conseqüência não-pretendida dos
meliantes, é claro.
Nem minimamente afetada pelo trágico
acontecimento inédito, a galera esportiva continua mais vibrante do que nunca.
apêndice II: entre el dicho y el hecho…
O Presidente do STF, ministro Gilmar
Mendes, deu a entender que tolerância tem limites. Lulla continua fazendo
comícios quando corta fitas inaugurais e em visitas a obras do PAC com sua
inseparável companheira Dilma, como recentemente ocorreu nas obras de
transposição do Velho Chico, que já está na UTI há muito tempo.
Tarso Genro e outros notáveis da
República de Garanhuns protestaram dizendo que Lulla não pode impedir os
efeitos gerados no público por suas aparições em obras públicas.
Mas daí a showmícios com Lulla com chapéu de vaqueiro nordestino, sanfonas
ensandecedoras tocando sem parar, animadíssimos forrós, distribuição de brindes
ao público presente, etc. o caminho é muito curto.
* Mário Antônio de Lacerda Guerreiro, Doutor em Filosofia
pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador
do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da
Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos]. Membro Fundador
da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Autor de Problemas de Filosofia
da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus,
Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de
Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL,
Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus
Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000) . Liberdade
ou Igualdade? ( EDIPUCRS, Porto Alegre, 2002). Co-autor de Significado, Verdade
e Ação (EDUF, Niterói, 1985); Paradigmas Filosóficos da Atualidade (Papirus,
Campinas, 1989); O Século XX: O Nascimento da Ciência Contemporânea (Ed.
CLE-UNICAMP, 1994); Saber, Verdade e Impasse (Nau, Rio de Janeiro, 1995; A
Filosofia Analítica no Brasil (Papirus, 1995); Pré-Socráticos: A Invenção da Filosofia
(Papirus, 2000) Já apresentou 71 comunicações em encontros acadêmicos e
publicou 46 artigos. Atualmente tem escrito regularmente artigos para
www.parlata.com.br,www.rplib.com.br , www.avozdocidadao.com.br e para
www.cieep.org.br , do qual é membro do conselho editorial.
