Política

Diálogo e Terrorismo

Diálogo e Terrorismo

 

Francisco César Pinheiro Rodrigues*

 

Lendo, hoje, no site www.opendemocracy.net a entrevista dada por Moazzam Begg a Jane Kinninmont, sinto-me tentado a retomar um tema já abordado nos meus modestos artigos publicados no vibrante “Mundo das Relações Internacionais” ( www.mundori.com ).

 

Moazzam Begg é um muçulmano inglês, detido no Paquistão, que ficou três anos preso em Guantánamo sob a vaga suspeita de ser membro da al-Qaida, mas contra o qual nada ficou provado. O governo britânico insistiu e conseguiu sua libertação. Após liberado, escreveu um livro contando sua experiência e dando sua visão pessoal sobre a luta contra o terrorismo. Daí o interesse da jornalista em entrevistá-lo.

 

Um ponto de sua entrevista que me chamou a atenção foi sua opinião de que mesmo com os terroristas deve haver diálogo. Essa opinião tem sido rechaçada pelas autoridades americanas e inglesas, que consideram uma espécie de rebaixamento trocar idéias com “torpes e impiedosos assassinos”, ou adjetivação assemelhada.

 

Moazzam Begg, no entanto, está com razão, não obstante seja necessário um bom estômago para dialogar com um sujeito que mandou matar dezenas de pessoas inocentes, pois o terrorismo se caracteriza pelo fato de exercer violência indiscriminada, vitimando soldados, mulheres, velhos e crianças.

 

Por que dialogar com terroristas fanáticos? Porque pelo menos ficamos conhecendo — “na fonte”, sem as eventuais distorções pessoais do serviço de inteligência — qual a raiz do ódio. Conhecida, alguma coisa pode-se talvez fazer para erradicá-la. E sem raiz a árvore morre. Um método mais direto de conhecer a motivação profunda, que aciona o arsenal de dinamite. É possível que, ouvindo as queixas, possamos concordar com algumas reivindicações, embora repudiemos os métodos empregados. E ouvindo, sem interrupções, as queixas dos terroristas fica-lhes difícil não ouvir, também, o que temos a dizer.

 

Quando o terrorismo é estritamente criminoso, interessado em dinheiro, ainda pode-se compreender a recusa total ao diálogo. Mas não é o gangsterismo, puro e simples, que tem mantido o mundo em suspense. Gangster não se auto-explodem. “Trata-se apenas de “business”, não vamos exagerar…”

 

Dirão os mais céticos que grande parte do ódio terrorista deriva de uma profunda ignorância e fanatismo, contra os quais pouco se pode fazer, exceto a repressão. Mas há um engano nisso, porque a ignorância — qualquer tipo de ignorância —, pode ser abalada, diminuída com determinados informes e argumentos — quando impossíveis de negar — e apresentados de forma que não ofenda a sensibilidade do ouvinte nem — convém esse cuidado… — ponha em risco total a subsistência pessoal dos chefes religiosos (espero estar equivocadamente cínico ao dizer isso). Ponderações, de nossa parte, lógicas e compreensivas da posição contrária podem ter influência na faceta mais radical da “doutrina”, abrandando sua agressividade. Se a ignorância é sempre invencível seria o caso de se fecharem, por inúteis, todas as escolas freqüentadas por adultos. Não esquecer que há enormes diferenças, sobre a compreensão da mesma religião, entre um camponês semi-analfabeto e um teólogo. Convencido este, seu rebanho o acompanhará.

 

Tendo as religiões a influência política que têm no planeta, para o bem ou para o mal, não vejo porque o assunto, na imprensa, seja mantido como um quase “tabu”. Uma coisa é o respeito aos cultos e as relações pessoais, íntimas, do crente com seu Deus — área merecidamente intocável. Outra, a agressividade assumindo feições concretas, e portanto do interesse da humanidade como um todo. Se todas as formas de “energia” — e a religião é uma das mais potentes — podem ser examinados sem receio da bomba explodir nas mãos do examinador, por que estariam afastadas de exame as mais influentes crenças que podem empurrar o mundo para a guerra ou para a paz?

 

Diz a imprensa recente que um muçulmano afegão foi condenado à morte, em tribunal mulçumano, porque se convertera ao cristianismo. Freqüentando um grupo de ocidentais, em missão de benemerência, acabou convencido da superioridade — a seu ver — da religião cristã, e mudou de religião, o que seria crime, segundo a legislação do Taleban. Recusando-se a renunciar à sua nova fé, teria que morrer. Só escapou da morte porque a pressão internacional, principalmente dos EUA, foi imensa. A conversão desse afegão é uma prova de que todas as convicções religiosas podem se abaladas ou modificadas pelas conversas, leituras e, principalmente, pelo exemplo.

 

Nada tenho contra qualquer religião. Nem mesmo contra certos fanatismos, desde que se limitem ao foro íntimo, à sua relação pessoal com seu Deus. Se o crente realiza-se fustigando-se até sangrar, ninguém tem nada com isso. Mas, quando começa a chicotear os vizinhos aí a comunidade internacional pode e deve intervir porque sua missão é zelar por todos e não pelo dono chicote. Mas intervir com a inteligência e mediante representante especializado na religião em exame, não burocratas nem militares. Tais especialistas tentarão mostrar aos radicais que a interpretação deles talvez não seja coincidente com a intenção dos fundadores de suas crenças.

 

* Advogado, desembargador aposentado e escritor. É membro do IASP Instituto dos Advogados de São Paulo. Website do autor: http://www.franciscopinheirorodrigues.com.br

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Como citar e referenciar este artigo:
RODRIGUES, Francisco César Pinheiro. Diálogo e Terrorismo. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2008. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/dialogo-terrorismo/ Acesso em: 16 jul. 2024