Política

Crise da democracia: Os Corruptos

Crise da democracia: Os Corruptos

 

 

Ives Gandra da Silva Martins*

 

 

A política leva muita gente à corrupção. O poder público também. Burocratas e políticos correm sérios riscos de resvalarem para a corrupção. Nela se inclui, também, a corrupção afetiva, o nepotismo, as concessões por vaidade humana, além do que é mais comum, a corrupção pura e simples por dinheiro.

 

Cristo teve 12 apóstolos. Um deles o traiu. Era exatamente o que cuidava da bolsa, manipulava o dinheiro. Pode ter sido uma coincidência, mas, em face do livre arbítrio que Deus outorga a todos os seus filhos, foi ele mal usado. E vendeu Cristo por dinheiro, tendo se arrependido –não como Pedro—e, no desespero, cometeu um segundo ato tresloucado, o suicídio. Poderia ter ainda sido um grande santo, como Agostinho, mas escolheu o modo errado para penitenciar-se.

 

Lord Acton ao dizer que o Poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente não fez senão afirmar o óbvio.

 

Um dos aspectos interessantes da corrupção reside na gradativa insensibidade que o corrupto vai adquirindo, como o drogado, nos seus desvios de conduta. E, mais do que isto, como se vai justificando.

 

O político, quantas vezes não amortece sua consciência dizendo: “Se graças a mim tanta gente ganha, por que não ficar com um pouco do que os outros ganham”?

 

Hitler, no dia 27 de abril de 1945 –isto é, 3 dias antes de seu suicídio– fez observação anotada por seus biógrafos, segundo relatos daqueles que ficaram no “bunker” com ele, que serve para mostrar a insensibilidade que o poder vai gerando. Disse: “Se de alguma coisa tenho que me arrepender é de ter sido tão generoso com as pessoas”.

 

Saddam Hussein não permitia a corrupção em seu governo. Clientes meus que trabalharam no Iraque, diziam-me que não havia o menor risco de corrupção. O corrupto era simplesmente eliminado. O grande problema é que ninguém discutia qualquer condição imposta pelo poder, pois o monopólio de tudo pertencia ao sanguinário ditador, o que vale dizer, não havia corrupção, mas o “preço” das contratações públicas era exclusivamente determinado pelo detentor do poder.

 

Todos os preços públicos são maiores do que os preços privados, no mundo inteiro, porque neles está incluído o preço da corrupção. Os corruptos recebem uma porcentagem paga por fora, quase sempre em contas bancárias nos paraísos fiscais, para permitirem a vitória nas licitações, o mais das vezes, dirigida pelas administrações públicas.

 

Campos Salles foi um presidente brasileiro que entrou rico na política e saiu pobre. A grande maioria dos políticos –que só vivem de política e com subsídios e vencimentos parcos, se comparados aos padrões internacionais– entram pobres na política e dela saem ricos. A corrupção é difícil de se combater, pois a manipulação de seu patrimônio –o declarado— cabe aos mestres da contabilidade e das operações forjadas, quando não de lavagem de dinheiro.

 

Nunca se falou tanto em ética no mundo inteiro e nunca se viu tantos problemas espoucarem nesse campo, diariamente, desvendando corruptos, na burocracia e na política.

 

Muitos entendem que o surgimento de escândalos e a descoberta da corrupção demonstram uma evolução na humanidade, visto que, à época das monarquias absolutas, a divulgação desses acontecimentos seria impossível e, quando desvendados, objetivavam eliminar os indesejáveis para o Poder.

 

O fato é uma realidade que decorre, de certa forma, da democracia. Quem luta pelo poder, deseja-o a qualquer custo, tentando obtê-lo pela desmoralização do adversário, colocando uma lupa sobre suas ações para detectar qualquer gestão indigna, e desmascará-la, com o que, nesse tipo de democracia, que é a arte de se conquistar o poder pela desqualificação do inimigo, consegue-se reduzir –nunca eliminar— o nível da corrupção.

 

É bem verdade que há uma conotação ideológica. Quando os órgãos responsáveis pelo combate à corrupção têm preferências ideológicas, passam a ser seletivos. Lutam para descobrir a podridão dos que tenham ideologia diferente e escondem a podridão dos que pensam como eles, tornando-se –mesmo que não recebendo dinheiro do poder– corruptos de outra espécie, ou seja, “corruptos ideológicos”.

 

São os “corruptos ideológicos” os mais perigosos. Simone de Beauvior, em seu livro “Os Mandarins” mostra como a esquerda francesa procurava esconder as atrocidades de Stálin, apesar de ser “idealista”,em matéria de dinheiro.

 

Política e corrupção. Poder e corrupção. Burocracia e corrupção. São características permanentes dos homens que dominam os povos, considerando-se mais dotados que a plebe para subir na vida, à custa dela.

 

SP., 21/01/2005.

 

* Advogado tributarista, professor emérito das Universidades Mackenzie e UniFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, é presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, do Centro de Extensão Universitária e da Academia Paulista de Letras.

 

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Como citar e referenciar este artigo:
MARTINS, Ives Gandra da Silva. Crise da democracia: Os Corruptos. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2008. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/crise-da-democracia-os-corruptos/ Acesso em: 16 jul. 2024