Política

A Insuficiência de Ortega y Gasset

 

31 de março de 2010

 

Venho de reler vários dos ensaios de Ortega y Gasset, em especial aqueles que tratam da formação da modernidade. Sublinho o “Ideas y creencias” e o saboroso “Em torno a Galileu – (Esquema de las crisis)”. Este último escrito em 1933, em comemoração aos trezentos anos da condenação de Galileu.

 

Se tem um ponto que o filósofo espanhol se empenhou foi na tentativa de compreender o homem novo moderno. E aqui vemos o esplendor do escritor às voltas com um tempo desafiante perder-se por causa de sua herança iluminista, que lhe tolheu a visão dos fatos. A própria teoria da história em que se apóia é frágil por conta desses mesmos preconceitos iluministas. A limitação de Ortega se prende a dois pontos fundamentais: o menosprezo do Advento cristão e a proposição de que a herança da filosofia grega que chegou ao Renascimento era uma unidade, representada pela visão estóica.

 

Ortega vê a emergência do cristianismo na Europa menos por seus méritos e mais pela decadência romana, descartando a força espiritual que representou a religião de Cristo. O cristianismo no seu modo de ver terá sempre esse elemento negativo. Ele manifestou mesmo desprezo pela religião cristã, escrevendo que a herança européia é a síntese greco-romana, com instituições herdadas dos germânicos, ignorando que os chamados bárbaros foram moldados pela força civilizadora do cristianismo, de quem receberam inclusive a linguagem escrita. Para Ortega, o papel do cristianismo na formação da Europa foi marginal, um evidente erro de perspectiva.

 

Com relação à herança grega surpreende que o sofisticado filósofo tenha cometido a simplificação de identificar a filosofia grega com seu ramo estóico, ignorando que o triunfo deste último, a partir do século XIII, deu-se após renhida batalha contra Aristóteles e Platão. De forma alguma a filosofia grega pode ser tomada como uma unidade. O Renascimento é uma derrota espiritual do cristianismo, mas é também a derrota do ramo filosófico até então consagrado, fundado em Aristóteles e Platão, por força de suas afinidades com a verdade cristã.

 

Não por acaso os dois maiores filósofos cristãos distinguiram-se por incorporar à Igreja o pensamento de Platão e Aristóteles, respectivamente Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

 

Podemos ler no ensaio “Em torno a Galelo”: La vieja cultura revive durante cuatro o cinco generaciones al calor de un nuevo estoicismo. Luego, de pronto, como para demostrar que esa etapa de felicidad fue, en efecto, maravillosa, es decir, un mucho irreal, equilibrio inestable, sin raíces ni cimientos hondos, vino, sin más y ya sin respiro ni pausa, el diluvio, la ruina del mundo antiguo. Fue, pues, el último intento de restaurar la confianza del hombre en la naturaleza -en definitiva, esto es lo que significa el estoicismo. Por eso, cuando al fin del Renacimiento comienzan a aclararse las cosas y a manar la nueva fe del hombre en sus dotes naturales, veremos que indefectiblemente retoña el estoicismo. Montaigne, Bruno son estóicos”.

 

Aqui de novo temos um olhar torto sobre a realidade, a partir do próprio conceito do que venha a ser natureza. A grande tarefa de Tomás de Aquino, a partir da recuperação da obra de Aristóteles, foi precisamente restaurar esse conceito, que se materializou no âmbito do Direito, resgatando o direito natural clássico. O que o estoicismo vai fazer no âmbito das ciências jurídicas é justamente dar as costas ao direito natural clássico, pondo em seu lugar o sistema arbitrário de direitos humanos, fundado no idealismo, que desaguará nos direitos subjetivos e no nefando positivismo jurídico. Este último é a negação cabal do direito visto a partir de uma perspectiva natural.

 

Tivemos também o abandono da metafísica aristotélica, pondo-se em seu lugar aquela de origem estóico-epicuréia: a eternidade da matéria, com os átomos arranjados ao acaso, cuja origem está nas idéias de Demócrito. Está aqui todo o materialismo moderno, que vai influenciar a Física fortemente. É preciso que se diga que mesmo o experimentalismo, que será a marca registrada da Física moderna, deve mais às especulações delirantes dos nominalistas do que propriamente ao estoicismo enquanto tal. Em suma, as ciências experimentais modernas são filhas diletas do cristianismo e não do estoicismo.

 

O mérito do filósofo espanhol foi o de enfrentar o tema da modernidade, assaz espinhoso. Ortega viu que o mundo caminhava para o desastre e para evitá-lo clamou até mesmo por uma nova revelação, que para ele seria a razão histórica. Seu esforço teórico foi debalde porque não se libertou das idéias iluministas. Ortega jamais aceitou que corrigir os males do mundo passa por corrigir a própria percepção do homem. Passa por restaurar a fonte transcendente da ordem. Em última análise, passa por denunciar o estoicismo como fraude metafísica. Ortega nunca aceitou que é uma necessidade teórica rejeitar o materialismo ateu, sem o que não se restabelece a verdade.

 

 

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. A Insuficiência de Ortega y Gasset. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2010. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/a-insuficiencia-de-ortega-y-gasset/ Acesso em: 11 mar. 2026