Política

A Carta da Telebrasil a Lula

 

05 de fevereiro de 2010

 

Hoje recebi o “Informativo Telebrasil”, órgão oficial da entidade, e nele está contido o inteiro teor da Carta Aberta enviada ao presidente Lula, assinada pelo seu principal executivo, Antonio Carlos Valente. É um documento de redobrada importância, que precisa ser analisado dentro do contexto das relações institucionais das lideranças empresariais com o governo petista. O caro leitor deve se recordar do artigo anterior que publiquei (“A maldição da conivência”), no qual procurei mostrar que me pareceu um grande equívoco o setor de Telecom ter apoiado e participado da Confecom.

 

O conflito do PT não é tático nem episódio com o setor de Telecom, ele é estratégico e conceitual. Esse partido abomina a economia de mercado e se depender dele, especialmente naqueles chamados setores de ponta, “estratégicos”, será tudo estatizado. A prova mais cabal está dada agora, com a possível decisão de recriar a Telebrás para fornecer serviços de banda larga, inclusive no varejo. As pessoas bem informadas sabem que isso é uma exorbitância, não havendo nenhuma necessidade de o Estado ingerir nessa atividade enquanto produtor. Mas o PT o fará por razões filosóficas.

 

Os jornais de hoje trouxeram a notícia de que o programa de governo da candidata Dilma, ora em elaboração, será acentuadamente mais à esquerda do que foi o governo Lula e nele será contemplada a expansão do braço produtor estatal, mediante estatização. A recriação da Telebrás, portanto, não é acidental, é fruto das crenças mais profundas dos atores políticos integrados no PT.

 

Na Carta, depois de recordar de que a idéia de elaborar um Plano Nacional de Banda Larga nasceu do próprio setor, Antonio Carlos Valente escreveu: “Entretanto, notícias publicadas nos últimos dias nos principais jornais do país, acenam com a possibilidade da divulgação de decisões por parte do governo brasileiro sem que o diálogo, prova de maturidade das sociedades democráticas, tivesse ocorrido em sua plenitude. As notícias avançam ainda mais e especulam sobre a possível recriação da Telebrás, empresa em processo de extinção desde 1998. Estas notícias produziram uma enorme preocupação em segmentos representativos da sociedade, dentre eles a própria TELEBRASIL”.

 

O presidente da Telebrasil já deveria ter descoberto que não é possível diálogo algum com os militantes revolucionários abrigados no governo Lula, empenhados em destruir a economia de mercado. Discutir, para eles, é mera tática protelatória, a fim de acumular forças suficientes para pôr em ação suas preciosas idéias estatistas. Deu-se o caso aqui. Eu mesmo escrevi, em dezembro último, artigo abordando especificamente o Plano Nacional de Banda Larga. Quem acompanha o que eu escrevo não pode alegar nenhuma surpresa com o que está acontecendo.

 

O PT, na sua trajetória no rumo do socialismo, é impermeável a qualquer tipo de argumento e lobby. Aliás, se ações de bastidores resolvessem tal carta não teria sido escrita. A sua materialização é a confissão acabada de que tais esforços fracassaram em todas as instâncias. O último ano do governo Lula tem servido para que todas as decisões represadas nos últimos sete anos sejam agora tomadas, concretizando sua vontade política socialista. Nada mudará essa trajetória, nem mesmo a forte Carta da Telebrasil.

 

 

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. A Carta da Telebrasil a Lula. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2010. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/a-carta-da-telebrasil-a-lula/ Acesso em: 22 jun. 2024