História do Direito

Yvi marã ei

 

 

Olhados com desdém e porque da imagem de índios que muita gente ainda conserva na memória, os atuais, pouco ou nada têm, não será sem enfrentamento de um novo desafio, (ela já está acostumada), que na quaresma que se aproxima, a Igreja Católica desenvolverá a sua Campanha da Fraternidade. Com sabedoria, se vale da fertilidade do tempo e adota essa especial estratégia de evangelização.

 

Em cada ano, é escolhido um tema sobre o qual se desenvolvem as reflexões previamente e cuidadosamente elaboradas lançadas em todos os recantos do país. Neste, ao lado da FRATERNIDADE a todos comum, vêm os POVOS INDÍGENAS.

 

O Código Penal Brasileiro prevê sujeição à lei brasileira, mesmo sendo cometido no estrangeiro, do crime de genocídio. Tenho impressão que se trata de letra morta. Ninguém jamais foi punido. E há quinhentos e dois anos, em nossa pátria amada, foram encontrados compondo 970 povos, mais de 5 milhões de representantes desta gente. Estão reduzidos a 330 mil pessoas, que formam 215 nações e falam 180 línguas. Dessas, 1800 vivem em nosso Estado.

 

Refletir sobre os povos indígenas é pensar nos tantos que desapareceram em conseqüência das diversas formas de marginalização que as sociedades cruelmente se encarregam de promover, mediante opressão, violência e condições subumanas de vida.

 

A lembrança da história de luta e resistência por parte dos índios traz ainda, sem esforço, à nossa reflexão, a condição dos povos negros arrebatados do seu país nativo, além dos imigrantes pobres que de alma e coração abertos, atravessando não sem pena, nem dor, imensidão de mares, aportaram nesta que sonhavam vir a ser uma terra sem males.

 

Passeios turísticos às do sul do país, levam-nos a visitar, sem aprofundamento do que traduz, o semidestruído templo de São Miguel, “monumento-testemunha do massacre do povo Guarani, da resistência e da grandeza dos povos indígenas de toda a América. Suas pedras escurecidas pelo fogo e pelos séculos narram com seu terrível silêncio a passagem dos bandeirantes, a devastadora passagem dos exércitos de Portugal e da Espanha”. E fazendo iniciar a marcha dos povos indígenas do continente buscando seu próprio rosto, sua identidade, revela originalmente os massacres sepultados pela história oficial ao mesmo tempo em que demonstra toda a força de sua esperança num continente libertado”.

 

Mesmo que se tenha alguma dificuldade em aceitar o que vai ser lembrado a respeito dos males que foram causados ao índio, seria de bom alvitre aproveitar ao menos pela tangência, a oportunidade de selecionar verdadeiras convicções que ajudem a fortalecer os fios que tecem a rede da solidariedade cotidiana, que se manifesta na prática de todos e no apoio à causa dos oprimidos.

 

Se não por outro motivo, considerando que quando a opressão é tanta, pode gerar rebeldia e as vítimas podemos ser todos, cooperemos pelo advento o quanto antes desta terra sem males/ivy marã ei.

 

 

 

* Marlusse Pestana Daher, Promotora de Justiça, Ex-Dirigente do Centro de Apoio do Meio Ambiente do Ministério Público do ES; membro da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, Conselheira da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória – ES, Produtora e apresentadora do Programa “Cinco Minutos com Maria” na Rádio América de Vitória – ES; escritora e poetisa, Especialista em Direito Penal e Processual Penal, em Direito Civil e Processual Civil, Mestra em Direitos e Garantias Fundamentais.

Como citar e referenciar este artigo:
DAHER, Marlusse Pestana. Yvi marã ei. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2009. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/historia-do-direito/yvi-mara-ei/ Acesso em: 23 mai. 2024