A influência do Google na busca pela informação jurídica.

Como funcionava a advocacia antes do Google? Esta pergunta pode soar estranha aos ouvidos daqueles formados antes da virada do milênio, mas não para os mais novos. Atualmente, e cada vez mais, os operadores do Direito, dentre os quais, talvez com mais assiduidade os advogados, sujeitam e organizam as suas atividades laborais dispondo dos serviços oferecidos pelo Google.

O domínio das ferramentas Google, sem exagero, representa o poderio de conferir o binômio utilidade-eficiência à rotina do escritório. Em variado grau, esta constatação vem sendo reconhecida pelos profissionais da advocacia. Veja-se, por exemplo, ainda sem tradução para a língua portuguesa, lançado nos Estados Unidos em agosto de 2010, o curioso best-seller “Google for Lawyers: Essential Search Tips and Productivity Tools”, autoria de Carole Levitt e Mark Rosch. Em tradução livre, o título significa “Google para Advogados: Dicas Essenciais para a Pesquisa e Ferramentas de Produtividade”. De mais a mais, fato indicador da importância prática que possui, nos Estados Unidos também é comum o oferecimento de cursos sobre a utilização do Google na advocacia.

Demais disso, diga-se também, muitos dos formados na era pós-Google não mais sabem como seria advogar sem a facilidade da internet. Digo apenas na era pós-Google porque a eficiência dos mecanismos de pesquisa revolveu a função da internet, acrescentou agilidade à busca de informação. Não se quer dizer que atualmente está encerrada a investigação dos temas jurídicos através da doutrina tradicional, clássica, impressa em livro físico. É claro que não, (ainda?) existe muito conteúdo de qualidade e inédito além da internet. Todavia, o fluxo, a tendência é contrária, há muito material de qualidade e inédito, quiçá em maior quantidade, espalhada na rede. O impulso inicial ao estudo, a basicidade sobre boa parte dos assuntos jurídicos, já tem a sua demanda suprida por conteúdo virtual.

A revolução na maneira de buscar e guardar informações jurídicas.

Economia de tempo. Ninguém em sã consciência e com habilidade para manusear um browser substituiria uma pesquisa digital genérica por uma busca em jurisprudência impressa genérica, por exemplo, em uma “compilação de todas as decisões do STF em 2011”, em formato livro físico. O advogado do século XXI, assim como os seus estagiários, reviram a internet em busca das decisões que fundamentam o seu argumentam. Mas por que isso acontece? Por que abandonados estão os compilados de jurisprudência?

O fluxo de informações aumenta continuamente com o surgimento de formas mais eficientes de comunicação. Isso é inegável, o conhecimento está em expansão, a população está em expansão, logo, é possível dizer e perceber que as informações também estão. O homem, ser vivo com ampla capacidade de adaptação, absorveu este novo panorama e transformou a maneira de satisfazer as suas necessidades.

É neste contexto em que, ao se deparar com uma maneira mais eficiente de se buscar informações escritas, sem a necessária e demorada aplicação e interpretação dos estímulos sensoriais ao objeto de leitura, a nova geração de advogados abandona as jurisprudências impressas pelos mecanismos de buscas virtuais.

Não se trata de uma informação já processada pelo homem, mas sim de uma nova informação, desconhecida, exterior. Não estamos diante de uma hipótese de interpretação dos dados, mas de mera busca de informações, um processo de baixa complexidade, até mesmo mecânico, desde que previamente determinados os termos a serem pesquisados.

Neste sentido, interessante estudo foi publicado pela renomada revista Science, autoria de  Betsy Sparrow, intitulado por “Buscando o efeito Google sobre a memória das pessoas”, livre tradução, em que se afirma, após os resultados de pesquisa realizada com estudantes de Harvard e de Columbia, que estamos mais dispostos a memorizar onde encontrar a informação do que a própria informação. O estudo conclui que a capacidade de busca do homem é atualmente maior, o que, em última análise, estimula a mente. A publicação sugere existir influência sobre Efeito Flynn, expressão dada à constatação de uma substancial e contínua melhoria nos resultados de testes de inteligências padronizados (QI) realizados ao longo das épocas. Adicione-se a isso o fato de que, em mutíssimos casos, é suficiente ter o domínio sobre como encontrar a informação e não o domínio da própria informação, a sugestão aventada é bastante crível.

A localização da informação jurídica é processada pela máquina, não pelo operador.

Trazendo para mais perto, por algumas vezes, em puro impulso, surpreendi-me pensando sobre como utilizar o atalho para a função “Localizar” em um livro. Geralmente executado pelo comando “CTRL+F” em um computador, não há como pesquisar um termo automaticamente em um livro, é preciso passar os olhos por uma porção de informações inúteis para o momento, o que diminui a eficiência da pesquisa.

A função “localizar” pode ser considerada uma das mais importantes ferramentas da computação, como afirma Alexis Madrigal, editor da revista The Atlantic . O mais impressionante é que, segundo o editor, em pesquisa de campo nos Estados Unidos, 90% das pessoas simplesmente não sabem como utilizar o “CTRL+F”, ou seja, desconhecem a ferramenta “Localizar”. E isso apesar de já estarmos na segunda década do século XXI, diga-se.

É um típico caso de desenvolvimento pela liberdade: ao transferir o exercício mecânico de buscar determinada informação jurídica para o processador do computador, do tablet, do celular, o advogado satisfaz a sua necessidade empreendendo um menor esforço, livrando-se para aplicar-se a necessidades mais complexas. Em vez de buscar e interpretar os precedentes jurisprudenciais, agora, por exemplo, pode ele se dedicar maior tempo à interpretação. O futuro é promissor, haja vista estarem os tribunais brasileiros se adaptando, investindo em ferramentas cada vez mais eficientes para a busca de precedentes jurisprudenciais, ou ainda, a proliferação de sites jurídicos que distribuem informação a “poucos segundos de distância”, como dizem por aí.

* Gustavo Henrique Carvalho Schiefler é sócio-mantenedor do Portal Jurídico Investidura – www.investidura.com.br e da rede social jurídica Social Jus – www.socialjus.com. Acadêmico do 10ª período do curso de graduação em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina. Possui formação em programação PHP (em andamento), presta assessoria nas áreas de Sistemas de Direito e Tecnologia e de Marketing Jurídico na Internet. É estagiário no escritório Menezes Niebuhr Advocacia.


Como referenciar este conteúdo

SCHIEFLER, Gustavo Henrique Carvalho. A influência do Google na busca pela informação jurídica.. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 01 Set. 2011. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/colunas/tecnologia-juridica/196723-a-influencia-do-google-na-busca-pela-informacao-juridica. Acesso em: 10 Dez. 2017

Comentários  

 
+3 #1 LexML X GoogleEdilenice Passos 02-09-2011 14:35
Sem discordar da utilidade do Google. O operador do direito tem que considerar outras fontes de informação, além do Google, como por exemplo, o Portal LexML, www,lexml.gov.br, que é um ponto unificado de acesso à informação jurídica brasileira. Onde a informação jurídica é organizada de forma de favorecer rapidamente seu acesso. Agora ainda melhor, com a integração da Doutrina. Pode-se navegar bidirecionalmen te da doutrina para legislação e vice-versa.
 
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