Visão Liberal

Veredas Vivas de Guimarães Rosa

Em longa carta escrita aos pais, desde Paris, datada de setembro de 1950, Guimarães Rosa escreveu: “A Itália é indescritível. Não é apenas o país mais
belo do mundo; é qualquer coisa fora e acima deste mundo, assim mais ou menos pendurada a meio do caminho entre o Céu e a Terra. E isso não decorre
somente das riquezas artísticas, de todas as épocas – que os etruscos, os gregos, os romanos, a Idade Média e a Renascença ali acumularam. Nem só da
natureza, estupenda: céu que a gente olha, espia, vê, e não acredita estar vendo; crepúsculos fabulosos, que parecem também de mentira; e um mar
lindamente impossível, que despende poesia como se despendem energias de um átomo desintegrado. Nem das reminiscências da História e da Legenda. Nem
apenas da luz, que nas outras terras significa apenas claridade, ao passo que, na Itália, quase de cidade para cidade”.

Dois anos depois Guimarães Rosa embrenhou-se no sertão mineiro, em busca de sua gente e na companhia de Manuelzão. Para escrever o grande épico do povo
brasileiro.

Guimarães Rosa, como embaixador de carreira que era e próximo aos homens de poder, poderia bem ter ido à Itália em funções oficiais, para ficar entre o
Céu e a Terra. Mas preferiu o contrário, dar as costas para a Europa e ir direto à fonte originária de sua gente. Brotou assim, dessa decisão, o Grande
Sertão, Veredas. Bendisse a terra o onde nasceu e isso o elevou à condição de herói nacional, à parte a sua genialidade de escritor. Genialidade que
deriva diretamente dessa escolha primeira e definitiva de cantar a sua terra: “Brasil, um sonho intenso, um raio vívido/De amor e de esperança à terra
desce”. Ou, como na bela Canção do Expedicionário: “Por mais terras que percorra/não permita Deus que eu morra/sem que volte para lá”.

Não havia outro homem capaz de executar a proeza, nem antes e nem depois dele. Foi preciso que um legítimo sertanejo, que muitas línguas aprendeu antes
de tirar os pés de sua terra, pudesse perceber a beleza máxima que o cercava e que o tornou seu cantor. O matuto que conquistou por primeiro a cidade
grande e, depois, o mundo, voltou triunfante tangendo a boiada ancestral.

Encanta no Grande Sertão, Veredas, essa confluência da gente com a sua história, a epopeia e as personalidades políticas do seu tempo com os elementos
arcaicos da formação, tudo costurado em admirável unidade. A terra, o homem, a luta: a mesma temática de Euclides da Cunha vertida em pura poesia e no
falar sertanejo, agora elevado, por sua maestria, à condição de língua literária. Euclides se espantou, homem do litoral que era, com o sertanejo.
Guimarães Rosa fez, do espanto, música.

A leitura da obra roseana abre as portas para a auto compreensão dos brasileiros. Todo tesouro da nacionalidade está ali, em cores vivas, em pura
poesia. No rosto de Manuelsão Guimarães Rosa enxergou-se a si mesmo. Por isso ele pode esquecer-se da bela Itália, situada entre o Céu e a Terra.
Porque o Céu e a Terra estavam unidos aqui. Como no Hino que faz vibrar as fibras mais essenciais dos brasileiros: “Do que a terra mais garrida/Teus
risonhos, lindos campos têm mais flores;/Nossos bosques têm mais vida,/Nossa vida no teu seio mais amores”.

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias
coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor
da ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. Veredas Vivas de Guimarães Rosa. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2012. Disponível em: https://investidura.com.br/colunas/visao-liberal/veredas-vivas-de-guimaraes-rosa/ Acesso em: 06 mar. 2026