01/12/2012
Por razões profissionais eu tive que conviver por longo período com um intelectual militante formado na USP, sociólogo já passado dos cinquenta, convicto
eleitor de Lula e defensor acrítico e amoral do petismo e de tudo que é agente político e ação política de esquerda. No começo sofri um choque, pois
estávamos no auge do julgamento do Mensalão e a imprensa só falava do assunto. Eu me perguntava como é possível a impermeabilidade moral de tal sujeito,
como é que o senso moral pode desaparecer diante do malfeito dos ‘companheiros’.
Eu pude observar bem de perto essa forma moral esquizoide de se comportar, pois diante dos fatos da vida o aparelho psíquico da pessoa funciona
normalmente, escandalizando-se diante de aberrações morais do cotidiano, desde que não se referisse ao partido preferido e sua plataforma política.
Acompanhar sua paixão pela eleição de Fernando Haddad com o mesmo vigor com que repudiava as falas condenatórias dos ministros do STF foi um espetáculo
digno de um psiquiatra. Eu precisava entender o que se passava naquele vivente.
Concluí: a formação revolucionária vedou seu senso crítico e a dupla personalidade – vale dizer, o duplo julgamento, portanto a loucura – foi o único
caminho para que ele se mantivesse no meio dos sãos. A dupla personalidade, tão bem retratada na literatura na figura do médico e do monstro. E aí eu
observei que os sãos é que se tornaram minoria. Foi a maioria composta por esquizofrênicos, desprovida de discernimento moral, que elegeu Lula, Dilma e
Fernando Haddad. O caso é de loucura coletiva e eu tinha à mão um espécime acabado, bastante representativo do conjunto dos apoiadores do PT (e do PSDB, e
do PSB e de todo arco partidário socialista, que é não apenas a força política dominante, é a única força existente entre nós). Partidos funcionam aqui
como sublegendas do antigo Partido Comunista. O triunfo das ideias revolucionárias é completo entre nós.
Essas reflexões me vieram a propósito da leitura que acabei de terminar de um estupendo ensaio de George Steiner (“O sacerdócio da traição”), publicado
originalmente na revista The New Yorker e que acabou de chegar traduzido entre nós na coletânea publicada pela Editora Globo, sob o título “Tigres no
Espelho”. Nesse texto, o ensaísta comenta, tentando entender a motivação, a traição de Anthony Blunt ao Reino Unido e ao Ocidente. O caso escandalizou a
Inglaterra, pois o sujeito se vendeu à KGB e, durante anos, entregou segredos de Estado que podem ter custado a vida de muita gente e que muito custaram em
termos políticos. O caso foi publicamente confirmado por Margareth Thatcher no Parlamento, em 1979. Blunt faleceu em 1983.
Um espanto adicional de Steiner é que a ação de Blunt parece ter tido, desde o início, o apoio decidido de gente de cima. Não teria feito o que fez sem que
um ou mais ‘chefes’ não tivessem dado cobertura. Na verdade, todo o chamado grupo de Cambridge, alta elite da sociedade britânica, participou dessa traição
à pátria. Blunt tinha acesso pessoal à rainha. Como entender?
Steiner tenta dar resposta por duas linhas de argumentação. A primeira é que Anthony Blunt tinha tamanho amor às artes e estava contaminado com as ideias
marxistas, que não hesitou, em nome da defesa da grande arte acessível ao público, fazer a traição. Como grande e sofisticado erudito, Blunt não gostava
que grandes obras de arte ficassem restritas a coleções particulares. Supunha que a grande arte em território soviético teria um trato diferente, em
galerias públicas, se esquecendo de que, sob o regime soviético, a criatividade desaparecera a ponto de não se ter grande arte alguma, exceto a produzida
por aqueles que perceberam o abismo moral do regime e passaram a lhe fazer oposição, como Boris Pasternak e Anna Akhmátova. O desastre nas artes plásticas
foi devastador, com o tal realismo socialista. Especialista em pinturas e esculturas renascentistas, um esteta de grande valor, Blunt não via o óbvio. Ou
não queria ver.
Note-se que Blunt se manteve espião ativo mesmo depois das denúncias de Khruschov sobre os crimes de Stalin, que na verdade eram crimes do modo de ser
socialista. Era Blunt uma alma gêmea do meu companheiro de trabalho, alma deformada moralmente, impermeável a qualquer argumento que pudesse condenar as
ideais do partido e os camaradas nele engajados.
Não escapou a Steiner que a elite intelectual inglesa calou-se diante do grande escândalo e até mesmo procurou justificar o traidor caído em desgraça.
Argumentavam em três frentes: 1- que Blunt já fora castigado suficientemente pelo escândalo; 2- que a conversão de Blunt ao socialismo tinha sido parte de
um movimento mais amplo e que “apoiar Moscou nos anos 1930, fugir do capitalismo decadente e da ameaça de Mussolini, Franco e Hitler, era, na época, fazer
a coisa certa, a coisa decente”. E 3- tudo não passava de conspiração de agentes da CIA, a menos implausível.
[Steiner não notou que é preciso repudiar com vigor essa mentira da propaganda soviética, de que o comunismo se opunha ao fascismo, quando na verdade são
ambos formas derivadas da mesma fonte. Blunt fez a guerra contra o Ocidente democrático, a sociedade aberta, e não contra o fascismo. Ele era inglês e a
Inglaterra comungava dos mesmo valores que vigoravam nos EUA, ambos os países nada tendo de fascistas. A ausência de uma palavra de Steiner sobre essa
mentira tira um pouco do brilho do seu ensaio.]
A segunda linha de investigação para determinar a traição de Blunt, feita por Steiner, foi a condição de ser ele um notório homossexual. Steiner disserta
longamente sobre o tema, argumentado que talvez essa condição homossexual o tivesse levado a pensar nos termos da propaganda soviética, de que seu regime
era uma ilha de tolerância. Depois veio a público que os homossexuais foram duramente reprimidos pelo regime soviético, sendo o suposto libertarianismo
comunista uma quimera.
Na verdade, nenhuma das linhas de argumentação é conclusiva, embora cada uma delas possa contribuir para elucidar a personalidade doentia de Blunt. Em
certa altura do ensaio, Steiner fez alusão a Fausto e a Mefistófeles, e bem o fez. É nesse mito que podemos encontrar respostas, sobretudo as respostas
contidas no poema monumental de Goethe. O marxismo é filho direto do esteticismo alemão, fundado pelo poeta. Nele, o que temos é a ânsia da criatura de
tentar negar o criador e, ao fazê-lo, inapelavelmente se depara com a figura de Satã, o Negador. Não se pode servir simultaneamente a dois senhores, alerta
Cristo nos Evangelhos. O homem moderno abraçou o mito fáustico e é no marxismo que esse mito alcançou sua dimensão política acabada. É preciso lembrar que
o marxismo, pela escola de Frankfurt, se embrenha no tema da contracultura, da negação dos valores judaico-cristãos e, por essa via, faz a apologia aberta
ao homossexualismo como forma de vida.
Nesse momento, o Ocidente, e não apenas o Brasil, está vivendo o apogeu desse processo, vindo o homossexualismo a ser a pedra angular pela qual os
revolucionários pretendem a destruição da família e do casamento monogâmico. Nas eleições aqui em São Paulo tivemos esse duelo e aqueles que se indignaram
com o famigerado “kit gay” foram derrotados. O homossexualismo virou movimento de massa com grande poder político e as gigantescas passeatas gays são
apenas o lado plástico – e lúdico – desse tremendo poder político.
Arrisco dizer que o problema mental óbvio da cisão psíquica é um fenômeno espiritual. O buraco é mais em cima, poderíamos dizer jocosamente, usando o
bordão popular. A loucura de Blunt é a loucura do meu amigo e de todo o eleitorado que elegeu as forças esquerdistas. É um dar as costas para Deus e se
ajoelhar diante de Mefistófeles. O “saco de Valpúrgis” de Goethe não nos deixa esquecer que a suprema adoração demoníaca é o beijo no ânus de Satã.
* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias
coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da
ANL – Associação Nacional de Livrarias.
