No artigo anterior (Direita, volver!) o foco do meu argumento era o segmento político da direita, como o título bem exalta, e não o conservadorismo,
ali sublinhado apenas para diferenciá-lo da direita liberal. O liberalismo doutrinal é sempre problemático, pois ele é filho do Iluminismo e tem um
vocação revolucionária. O liberalismo tido por “clássico” acabou por ser o contrapeso da revolução, emblematicamente representada pela Revolução
Francesa, porque afinal a ordem precisa ser restabelecida para a vida prática possa continuar. O grande contributo teórico dos liberais está no âmbito
da ciência econômica, pois os economistas liberais demonstraram a racionalidade superior do Estado mínimo e das livres trocas. Esse ramo do liberalismo
constitui seu segmento à direita do espectro político.
Desde logo: entendo por direita o posicionamento político que propõe o Estado mínimo, em oposição aos movimentos políticos de esquerda, de natureza
coletivista. E também aquele que busca um marco jurídico em consonância com o Direito Natural. Há também a esquerda liberal, que põe foco na quebra
dos valores morais e no igualitarismo. Este ramo do liberalismo virou linha auxiliar dos movimentos coletivistas, atualmente mergulhados na revolução
cultural.
Digo isso porque quero comentar a réplica escrita por Joel Pinheiro, autor que conheço de suas atividades na editoria da revista Dicta&Contradicta
(Conservadorismo religioso não se salva – Uma resposta a Nivaldo Cordeiro). Até então eu não sabia que o autor do texto anteriormente comentado era o
Joel, pois o mesmo não estava assinado.
O fato é que fiz um comentário rápido, no contexto em que analisava o segmento da direita. Mas Joel puxou o argumento para discutir conservadorismo. Eu
sou conservador, embora no âmbito econômico endosse sem rodeios o programa liberal clássico. Chamo a atenção aqui para o excelente texto do lusitano
João Pereira Coutinho, publicado na própria revista Dicta&Contradicta (Em busca do equilíbrio) que fez excelente resumo das ideias conservadoras. O
Joel, na réplica, usou o termo como Coutinho lembrou que liberais e esquerdistas fazem ao se referir a alguém conservador, sempre com um tom acusatório
e censurante:
” Conservador é um bom termo de insulto. Vivemos num tempo progressista: um tempo que acredita na missão transformadora da política rumo a um fim
determinado. O conservador é a pedra na engrenagem. Ele levanta dúvidas. E, levantando dúvidas, ele coloca em causa a suprema vaidade do ser humano: a
vaidade na sua razão e na capacidade da razão para produzir resultados perfeitos.Este é o tom vulgar do insulto: o conservador como obscurantista,
retrógado, reacionário”.
Posso dizer que quase me senti insultado pelo Joel, nesses termos: “Olha o conservador!”, como se dissesse: “Olha o estúpido!”.
Joel se queixou que conservadores como eu não têm um programa de governo. Tem sim: evitar mudanças abruptas, em situação de normalidade. Isso é um
programa. Liberais e esquerdistas acham que podem aperfeiçoar o mundo e a alma humana. Conservadores sabem que essa tarefa é impossível e que todas as
revoluções levam a uma destruição insana, por conta dessa miragem perfectibilista. Ele escreveu: “E o conservadorismo é uma ideologia medrosa: subjuga
sua mente ao peso do passado, como forma de fugir da responsabilidade (em verdade inescapável) do pensamento individual”.
Essa é uma visão errada do conservadorismo, pois ele não é uma ideologia: o conservador está sempre de olho no real e desconfia daqueles que o querem
aperfeiçoar por força de lei. Tampouco está sob o jugo do passado, apenas sabe que o fatos sociais, como os naturais, não dão saltos. Sempre que se
tenta, o que se tem produzido são pilhas de cadáveres.
Joel chega ao cerne de seu argumento ao escrever: “O verdadeiro inimigo do conservadorismo não é o socialismo, ou a esquerda (que pode ser
conservadora, como são os nossos velhos conservadores – ACM, Sarney, etc. – e como era a elite do partido comunista na União Soviética), mas a razão”.
Antes: “Ao elogiar o surto de moralismo e escândalo que tomou conta das eleições presidenciais passadas, Nivaldo apenas ilustra a fraqueza de sua
própria posição: pois se aquela histeria é exemplo do que, na concepção dele, devemos almejar, se aquele é o tipo de debate político que ele espera do
Brasil, então estamos num dilema entre o estatismo amoral e o fundamentalismo furioso. O ideal do conservador religioso está mais para uma turba de
fanáticos do que para uma população educada e bem-intencionada”.
O que citei (não elogiei, não era o caso) é que José Serra foi para o segundo turno nas últimas eleições presidenciais porque houve uma mudança no voto
conservador, contra o PT, que está deformando o sistema jurídico nacional, penalizando as virtudes e obrigando a prática dos vícios. Em todo mundo está
havendo a reação à revolução cultural e aqui também. Aí que eu havia sublinhado o foco moral dos conservadores, que diverge assim dos liberais como o
Joel, e sua força político-eleitoral.
Joel não percebe que estamos em pleno processo revolucionário niilista, nos mesmos termos que viveu a Alemanha no anos Trinta. Thomas Mann deixou
registrado na sua obra que aquele movimento político foi possível porque, antes, na Alemanha, tivemos o esteticismo, tão “avançado” como o programa de
revolução cultural levado a cabo pelo PT, apoiado pelo liberais que se julgam senhores da razão. O custo para a Alemanha e todo o mundo daquela loucura
niilista não foi nada pequeno.
Joel, aliás, argumentou: “A origem e o fundamento da ética revelada por Deus na Bíblia é a natureza humana; e a natureza humana é cognoscível pela
razão; e quando derivada da razão, chamamo-la de lei natural”. Ele parece ser um bom herdeiro do estoicismo. Acontece que, superior à lei natural da
razão, está a lei divina, que se deu a conhecer pela Revelação. Por isso Cristo se fez necessário. É próprio da arrogância dos tempos modernos
confundir a razão com a fonte de tudo, até mesmo da própria divindade, uma besteira monumental, o erro mais colossal. Deus está acima da razão, essa é
a obviedade que os modernos, como Joel, não conseguem mais enxergar.
Mas importa o fato político fundado na moral: um número considerável de brasileiros agora se deu conta do malefício que os revolucionários do PT,
ajudados pelos liberais esclarecidos como Joel, estão fazendo em matéria de costumes e estão dispostos a dar um basta, a sair da passividade.
Candidatos que defendem o aborto, o gaysismo e coisas assemelhadas terão muitas dificuldades nas próximas eleições, porque essa gente conservadora não
apenas vota, mas faz campanha. A lei moral é inegociável.
* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias
coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor
da ANL – Associação Nacional de Livrarias.
