(Luiz Guilherme Marques – Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora – MG)Principalmente as pessoas que se julgam muito acima da maioria falam em meritocracia.
É uma forma de afirmarem que merecem o destaque que têm. Dizem que a meritocracia é uma das manifestações mais importantes da democracia.
Entendo, todavia, que, a pretexto de querermos sempre privilegiar os melhores, não devemos atropelar os que detêm, aparentemente, menos talento…
Se partirmos para extremos, poderemos fazer como o coelho da fábula, que, depois de desprezar a tartaruga na corrida em torno do parque, acabou perdendo a corrida…
Mas, analisemos a questão por partes.
A ENCICLOPÉDIA JURÍDICA LEIB SOIBELMAN informa sobre a expressão meritocracia:
Aristocracia do mérito pessoal. Democracia em que se dá valor, ou maiores chances de vencer na vida, a quem tem mérito pessoal.
Aristocracia, segundo o mini Aurélio, é a forma de governo em que o poder é exercido apenas por pessoas privilegiadas.
Mérito pessoal é o merecimento que cada um tem. Mas, esse merecimento significa os dotes intelectuais, os morais, a riqueza etc.? Os ricos muitas vezes entendem merecer destaque mais do que as demais pessoas: se não, por que a riqueza os teria contemplado dentre muitas outras pessoas pobres que vivem à sua volta? Os mais moralizados acreditam-se superiores porque administrariam a coisa pública de forma honesta. Os intelectuais entendem-se mais merecedores de destaque por deterem maior número de informações científicas, filosóficas etc.
Como vimos, a meritocracia é uma forma de democracia em que se dá valor, ou maiores chances de vencer na vida, a quem tem mérito pessoal. é alcançar estabilidade financeira e profissional.
Vencer na vida
É importante analisarmos o que é o mérito pessoal. Muita gente entenderá, na certa, que é ter mais dinheiro, pois o dinheiro compra tudo. Outros entenderão que é ter prestígio político. Outros que será deter maior número de títulos acadêmicos. E assim por diante.
Penso que a idéia de mérito pessoal não pode ser considerada levando-se em conta somente a pessoa avaliada, sem tomá-la como elemento integrante da coletividade onde vive. Se considerarmos a pessoa <i<em si, fora do contexto social, daremos o prêmio, muitas vezes, a verdadeiros crápulas ou egoístas que não trazem benefícios para a sociedade.
Vejamos um exemplo ilustrativo.
Sabe-se que nosso grande inventor ALBERTO SANTOS DUMONT criou vários inventos para voar, sem nunca ter tido a preocupação de patenteá-los ou ganhar dinheiro com eles. Inventava-os e permitia que qualquer empresário passasse a fabricá-los livremente. Era, em suma, um idealista que queria que todas as pessoas usufruíssem dos seus inventos.
Já os irmãos WRIGHT, tão logo consegruiram construir um avião, preocuparam-se em patenteá-lo e o esconderam esperando auferir, em época mais favorável, lucros exorbitantes com o invento. Somente mostraram à comunidade mundial seu invento depois que as pessoas passaram a dizer que SANTOS DUMONT era o inventor o avião… Não tinham idealismo algum: queriam apenas se enriquecer. Se não tivessem manifestado sua inconformação quanto à opinião favorável a SANTOS DUMONT, mostrando a data do registro de sua patente, a humanidade e a aeronáutica nenhum prejuízo teriam. Mas, a verdade é que inventaram o avião cronologicamente pouco antes do brasileiro voador…
Se formos levar em conta os critérios um tanto matemáticos da meritocracia, os irmãos WRIGHT têm mais mérito pessoal que SANTOS DUMONT, pois, na verdade, se anteciparam ao brasileiro na invenção do avião…
Penso que, na avaliação do mérito pessoal, além da inteligência da cada um, devemos verificar a utilidade que cada inteligência tem para a coletividade. De que adianta um invento escondido a sete chaves? De que adianta uma inteligência que só serve para si mesma, sem nenhum benefício para as demais pessoas? Essa inteligência tem de ser recompensada, se não serve à coletividade? O egoísta tem de ser entronizado, mesmo sendo inútil para as demais pessoas?
O exagero daqueles que defendem a meritocracia é um erro grave que se traduz em desprezo pela maioria das pessoas, que, por vários motivos, não tiveram tantas oportunidades de galgar elevados patamares da riqueza, da Cultura etc.
Em tempos de democracia, como cada vez mais acontece (graças a Deus!) não se deve destacar demais a quem quer que seja.
Por mais que alguém se eleve acima da média das pessoas, nunca deixa de ser mais um no meio de todos…
Deve haver sempre um contrapeso em favor das pessoas aparentemente medianas. Pois todas as pessoas detêm um mérito pessoal importantíssimo que é o da cidadania, ou seja, são pessoas dotadas de direitos sagrados e deveres impostergáveis no meio social que nunca lhes permite ficar tão acima nem tão abaixo de todas.
Se ficarmos atrelados demais à idéia de distinção entre pessoas, classificando-as com excessivo rigor com o fim de endeusar a uns e desprezar a maioria, estaremos reeditando os absurdos tempos antigos da aristocracia dos monarcas, mantendo os atuais despautérios do endeusamento de milionários, reativando a falsa superioridade dos nazistas etc.
* Luiz Guilherme Marques, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG).
