Gosto
de reuniões de família, no Dia de Natal. Essas reuniões, a meu ver, são profundamente condizentes com o sentido
da Festa. Não é fraterno que se reúnam,
em torno de uma mesa, aqueles que se amam?
Mas
penso nos milhões de irmãos que não podem desfrutar desse encontro. Penso nos
que estão presos, nos que padecem em hospitais, nos que não têm nem teto, nem
terra, nem pão, nem abrigo. Penso nos que estão excluídos do modelo social e
econômico vigente, tão distante da mensagem evangélica.
Jesus
Cristo foi um radical, um sublime radical. Para atender mesmo seu chamado temos de ser como São Francisco de
Assis. Se nos falta coragem para tanto,
paciência. Compreendamos, pelo menos, que o rumo é esse, e recusemos com
energia as mistificações.
Obviamente,
a chamada “civilização ocidental e cristã” é uma impostura. Ocidental, sim, mas
cristã, de forma alguma. Como pode pretender a adjetivação de “cristã” uma
civilização que marginaliza, que discrimina, que rejeita. Só poderia chamar-se
cristã uma civilização que não excluísse ninguém. Trabalho para todos, bens distribuídos, tudo
partilhado. Uma pseudocivilização que cria fossos entre países, regiões e
pessoas, que faz da guerra instrumento de dominação econômica, que manipula a
consciência coletiva através da falsificação da informação não tem, a meu ver,
qualquer traço de Cristianismo.
Quero
comungar este Natal com todos os oprimidos do mundo, nas suas lutas de dor, de
sangue e de vida.
Quero
celebrar o nascimento de Cristo com companheiros dos mais diversos grupos e
organizações que se esforçam para transformar radicalmente este país:
militantes de centros de direitos humanos, de comissões de “Justiça e Paz”, de
grupos de defesa de minorias ou segmentos sociais marginalizados, de partidos
políticos comprometidos com propostas de transformação social, de comunidades
eclesiais de base, de grupos cristãos não católicos.
Quero
comungar o Natal com todos que me ajudaram no itinerário da vida, arrancando-me
da acomodação para o compromisso, da neutralidade morna para as opções
ideológicas definidas e incômodas. Se não fui adiante, alcançando a
radicalidade cristã, é porque me faltou generosidade para a entrega absoluta.
Eu me
lembro, neste Natal, de todos os que me revelaram a face de Jesus, no decurso
desta vida. Eu me lembro dos presos e, especialmente, de Sebastião, o preso de
minha infância, que rachava lenha na casa de meus pais e que me contava
histórias bonitas.
Eu me
lembro dos sem-terra, dos chamados “invasores”, melhor denominados “ocupantes”
porque quem “ocupa” uma terra para lhe dar finalidade social não invade.
Invasor é quem açambarca terras, um patrimônio comum, como a água e o ar, e faz
da terra objeto de especulação.
Eu
comungo este Natal com os que, junto comigo, batalharam pela dignidade humana,
proclamando o nome de Deus, e os que batalharam por essa mesma dignidade
humana, recusando nos lábios o nome de Deus. Mas Deus não é um nome, nem é uma
proclamação verbal. Sempre eu me senti irmão de ateus, ou supostos ateus, que
acreditavam na dignidade da pessoa humana. Sempre eu me senti um estranho entre
supostos crentes, que proclamavam o nome de Deus, mas entendiam que a miséria e
a injustiça eram fatos naturais e se acomodavam numa fé vazia. Esses supostos
ateus, a meu ver, afirmavam e afirmam, sem o saber, a substância e a essência
da Divindade, a Divindade Viva presente no rosto nos perseguidos e dos
sofredores.
Espero
ter vida para comungar muitos Natais com os que sofrem e com os que se
solidarizam com os sofredores e injustiçados. Quero comungar com todos estes
não apenas o Dia de Natal, mas o cotidiano da existência. Comungar lutas e
esperanças, projetos de sociedade, utopias. Comungar a construção de um mundo
que seja digna morada para todos os seres humanos.
João
Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, 74 anos, é professor pesquisador da
Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES). Autor do livro Mulheres no banco
dos réus – o universo feminino sob o olhar de um juiz (Editora Forense, Rio,
2009).
E-mail:
jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage:
www.jbherkenhoff.com.br
