Política

Serra e a Mídia

 

06 de março de 2010

 

O recente evento realizado em São Paulo pelo Instituto Millenium (Fórum Democracia e Liberdade de Expressão), que reuniu os grandes barões da mídia brasileira (Rede Globo, Grupo Abril, Grupo Folha e Estadão) mostrou uma forte mudança de seu posicionamento junto ao governo do PT. O evento deveria ser uma afirmação da liberdade de expressão, repelindo a ameaça explícita do governo Lula contra os meios de comunicação, conforme pudemos observar desde o acompanhamento da Confecom, mesmo de antes. A subserviência ao poder constituído pelos barões da mídia nacional ficou caracterizada pelo franqueamento do palanque para que Antonio Palocci, a pretexto de que encerrasse o evento, passasse sua mensagem aos formadores de opinião.

 

Essa modificação estratégica ficou explícita no editorial de ontem da Folha de São Paulo (Serra ou não Serra). A raiz dessa mudança é o descortino de que a candidatura de José Serra está fazendo água, em face dos titubeios, indecisões e divisões no arco político liderado pelo PSDB. Pragmaticamente os barões da mídia preferiram “apoiar” o poder a contestá-lo. Esse gesto é uma repetição do gesto muitas vezes praticado por aqueles que deveriam resistir ao assalto dos revolucionários e não o fazem, seja por interesses mesquinhos, seja por cálculo errado, seja por pura covardia e seja, ainda, por alinhamento ideológico com a causa revolucionária.

 

O que vimos no evento citado foi a mais abjeta rendição de quem ainda teria os meios para resistir. Até as pedras sabem que o eventual governo da Dilma será a radicalização do programa do PT, em busca do totalitarismo. A convenção do PT, que homologou a candidatura, e o programa de governo da candidata não esconderam as más intenções. O PT usará os últimos meses da administração de Lula para acumular forças sem espantar a lebre, embora muitas de suas medidas radicais já estejam em processo de implantação.

 

O pano de fundo desse processo é a agonia do PSDB, do projeto da social-democracia. Se Serra for candidato, hipótese mais provável, será traído em Minas, pois Aécio deverá ter dois palanques, como da outra vez, e no final somará com o candidato vencedor. Se for Aécio o candidato, hipótese improvável, em São Paulo, mesmo se os caciques apoiarem, terá votos insuficientes para vencer o pleito.

 

Com a grande mídia sob o cabresto do PT a coisa toda ficará ainda mais periclitante. A derrota do PSDB está traçada com muita antecipação. O pleito figurará assim como uma mera homologação da candidata oficial.

 

O desdobramento histórico desses acontecimentos será da maior gravidade. Tanto maior se o PT conseguir derrotar o PSDB na corrida pelo governo do Estado de São Paulo. A lição da história é que sempre a social-democracia serve de abre-alas para os socialistas radicais. Estamos a ver no Brasil o mesmo filme. A menos que tenhamos alguma reviravolta sensacional – e improvável – Dilma Rousseff receberá a faixa de primeira presidenta da República. O desastre para o Brasil está traçado como um encontro com o destino.

 

Quem viver verá.

 

 

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.

Como citar e referenciar este artigo:
CORDEIRO, José Nivaldo. Serra e a Mídia. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2010. Disponível em: https://investidura.com.br/artigos/politica/serra-e-a-midia/ Acesso em: 05 mai. 2026