Conta-se que havia um homem que levava uma vida desorganizada em vários pontos, e até viciosa, e havia um homem extremamente metódico, e até puritano. Seus caminhos cruzaram-se a partir de determinada época e, no final das contas, o primeiro desempenhou um papel importante na História como benfeitor de todo um povo e o segundo ficou consagrado como o protótipo do vilão e carrasco de milhões de vítimas indefesas. O primeiro foi WINSTON CHURCHILL e o segundo foi ADOLF HITLER.
Nem sempre os puritanos são bons e nem sempre os viciosos são ruins, como também nem sempre os desorganizados deixam de alcançar bons resultados e os metódicos chegam a bons resultados.
O que importa realmente em tudo é o substrato interior que impulsiona cada ser humano nas suas atitudes cotidianas.
Quanto aos operadores do Direito importa seu maior ou menor idealismo no trato com os problemas das pessoas a serem solucionados.
Vemos, muitas vezes, profissionais dessa área que são modelos de comedimento e serenidade nas suas exposições verbais e escritas, mas que pecam pela absoluta frieza e indiferença pelos dramas humanos que se escondem por detrás das folhas de um processo.
Vemos grandes inteligências voltadas para as questões meramente técnicas, como se o Direito fosse uma catedral gótica plena de detalhes e filigranas de alto valor artístico, estético, mas distante dos sofrimentos humanos, vazia, verdadeira mortalha consagrada aos deuses falsos do Olimpo elitista.
Vemos questões jurídicas inúteis serem debatidas com ardor e até rudeza por luminares da ciência jurídica e também por inteligências medianas, para nenhum resultado prático em favor das coletividades.
Assistimos, por outro lado, as realizações cotidianas de profissionais de grande ou de mediana capacidade voltadas para a solução dos problemas das pessoas, quer no trato com a Teoria quer lidando com a Prática.
Não importa o campo em que militamos: o que interessa são nossas intenções, o móvel interno que nos impulsiona a agir.
Tanto faz termos a inteligência de um MARCO TÚLIO CÍCERO ou um RUI BARBOSA ou não passarmos de um modesto serventuário da Justiça diligente e bem intencionado. O que importa para os jurisdicionados é o que fazemos em seu benefício e não nosso nível intelectual e os diplomas e títulos que conseguimos conquistar.
O serviço da Justiça tem tudo a ver com o idealismo verdadeiro. Quem o exerce não pode ter mentalidade mercenária. Quem o exerce não pode ser egocêntrico, frio, desumano. Quem o exerce não pode ser enganador. O profissional dessa área tem de ser solidário, humano e sensível aos dramas das pessoas, quer na defesa das vítimas, quer na punição dos infratores, sem deixar de atender as primeiras e sem ser cruel com os últimos.
Se assim não acontecer, não adiantam reformas legislativas, métodos rigorosos de seleção de candidatos, regras jurídicas cada vez mais complexas etc. etc.
Para ser operador do Direito não precisamos ser pessoas excepcionais no intelecto nem na moralidade: basta entendermos o que significa o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
* Luiz Guilherme Marques, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG).
