Resenha da obra - A questão do petróleo e suas implicações na Guerra do Iraque – Claudia M. A. FAY | Portal Jurídico Inv

Resenha da obra - A questão do petróleo e suas implicações na Guerra do Iraque – Claudia M. A. FAY

FAY, Claudia M. A questão do petróleo e suas implicações na Guerra do Iraque. Rio Grande do Sul, 2003.

 

A doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul Claudia Musa Fay disserta, em seu artigo, sobre a questão centenária que já se tornou o petróleo e todas as etapas envolvidas no consumo do mesmo. O artigo, que é dividido em subtítulos, toma, conforme ocorre o aprofundamento da análise, uma conotação inegavelmente crítica, principalmente no que correspondente às ações empreendidas pelos governos norte-americanos, sejam eles republicanos ou democratas, para submeter os países do Golfo Pérsico à sua autoridade econômica, política e ideológica. A intenção de tal artigo é criar um paralelo entre as oscilações de poder no sistema internacional e os conflitos ocorridos no Golfo Pérsico, além de compreender o petróleo como um fator que acirra as disputas, independente da natureza que estas possam ter.

 

Para iniciar o artigo a autora indicou que os Estados Unidos da América não possuem, na atualidade, nenhum adversário que possa os retirar da sua posição hegemônica. A Guerra do Iraque, iniciada em março de 2003, seria mais uma demonstração da sua superioridade militar e estratégica, e que teria sido determinada para assegurar seu controle sobre a região.

 

No século XIX foi o petróleo que aumentou os interesses das nações pela região do Oriente Médio e do Golfo Pérsico, ou seja, os conflitos por energia já tem, ao menos, um século de existência. Depois da Primeira Guerra Mundial, vários foram os países que acordaram em que maneira dividiriam o controle na região, como Inglaterra, França e Turquia. Já na Segunda Guerra Mundial, houve uma alteração no contexto mundial, sendo URSS e EUA as potências que assumiram o poder em um novo sistema bipolar.

 

Se expandiram, então, nas regiões do Golfo Pérsico e do Oriente Médio, os movimentos de descolonização, o que, para o mercado de petróleo, acarretou uma nacionalização das empresas. Contudo, durante as décadas de 1950 e 1960 os preços do petróleo se mantiveram estáveis e baixos, controlados por um oligopólio privado formado por empresas que mantinham estreitos laços de interesse com os governos consumidores. Essas empresas, chamadas de as “sete irmãs”, que determinavam a quantidade de petróleo que seria produzida.

 

Durante as duas Guerras do Oriente Médio, em 1956 e 1967, os países da região até fizeram tentativas de impor certos embargos que acometessem a economia das outras nações do globo, mas o consumo mundial era suprido pela produção estadunidense. Foi apenas quando os próprios EUA começaram a importar, em 1971, que estes perderam o poder de equilibrar o mercado, dotando os países do Oriente Médio de maior autonomia nas decisões. Foi a partir dessa conjuntura que alguns países se uniram e fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, mesmo que ainda possuíssem algumas ligações de referência com os colonizadores europeus. Então, em, ocorreu a primeira grande mudança no que diz respeito ao comércio do combustível: os países da OPEP, que respondiam por 80 % da exportação mundial, começaram a ditar o ritmo da produção, arquitetando uma estratégia que alterasse o cartel vigente, de privado para governamental. Foi o primeiro “choque do petróleo”.

 

Ao contrário do que seria natural essa crise trouxe aos EUA mais vantagens, haja vista serem menos dependentes do petróleo do Oriente médio do que outros países, como Japão, e também porque os países desta região investiram os lucros obtidos na maximização das próprias rendas não nos mercados financeiros locais, mas na economia norte-americana, gerando uma imediata valorização do dólar. Os reais prejudicados foram os países subdesenvolvidos, por serem excessivamente dependentes do petróleo árabe. Todavia, os países adquiriram maior autonomia, e se tornou, para os EUA, cada vez mais dispendioso iniciar uma intervenção militar. Foi então que o presidente Nixon resolveu atribuir maior autoridade ao Irã, que no papel de governo mais forte, poderia substituir na região o papel antes desempenhado por Inglaterra ou URSS.

 

É nítido que depois das crises da década de 1970 o esforço norte-americano é de reduzir a dependência em relação ao petróleo da região, buscando a máxima diversificação de fornecedores. Mas é relevante analisar que, aos olhos dos fornecedores, o mercado estadunidense é gigantesco, ou seja, uma alternativa constante de vendas lucrativas. Ainda sobre a demanda dos EUA, é fato que esta é, mais do que energética também geopolítica e estratégica, e para as iniciativas estatais, a partir do momento que o país passou o consumir mais do que produz, tornou-se essencial garantir o fluxo de petróleo do Golfo Pérsico. A tendência é esse desequilíbrio de oferta aumentar ainda mais nos próximos anos, o que freia a intenção de manter-se na condição de potência única. Para tanto, o país busca fugir do controle financeiro da OPEP e aumentar a presença militar na região.

 

A política externa para a manutenção de hegemonia que vem sendo aplicada, desde o governo Reagan, é de melhorar o acesso mundial de capitais privados, ou seja, diminuir o poder da OPEP. O presidente George W. Bush, ainda na sua campanha presidencial, era um dos mais ferozes defensores de que os EUA deveriam se manter fortes, para que nada pudesse afetar a estabilidade adquirida. Essas medidas foram chamadas, por Klaire, de ‘o americanocentrismo’, o qual constituiria uma política baseada em três pilares: conquistar uma supremacia perpétua, possibilitar a realização dos interesses nacionais e projetar as forças armadas do país em todas as regiões do globo que oferecerem perigo.

 

E depois de realizar uma sucinta retrospectiva histórica, a conclusão da autora é de que, partindo dos colapsos da década de 1970, e passando pela intervenção norte-americana no Iraque durante a Guerra do Kuait (fato esse contemporâneo ao esfacelamento da URSS), o governo de Washington nunca se desligou da sua preocupação em manter o controle e a ordem que o interessa, na região do Golfo Pérsico.

 

Quanto ao Iraque, que no ano de 1982 deixou de pertencer à lista dos países terroristas elaboradas pelos EUA, foi um constante debate para os governos estadunidenses. Na década de 1980, tanto Reagan quanto Bush (pai), apoiaram as iniciativas de Saddam Hussein para tentar conter a influencia do nacionalismo iraniano em toda a região. No entanto, quando o Iraque, por razões ideológicas e, principalmente, econômicas, invadiu o Kwait, EUA liderou uma insurreição mundial contra Bagdá, e desde então as nações voltaram a posicionar-se em pólos antagônicos dos debates mundiais. As obrigações atribuídas pela ONU à população e ao governo iraquiano parecem encobrir um confronto particular entre as duas nações. Desde os bombardeios de 1991, o país não conseguiu se reconstruir, independente do que seja analisado: desde o bem-estar social até a infra-estrutura civil. É paradoxal pensar que um país com tantas riquezas esteja tão constantemente envolvido em conflitos gerados pelas próprias benesses.

 

Para o sistema internacional, no entanto, a Guerra do Iraque significou a diminuição da produção petrolífera do Iraque, o que gerou um grande problema, por ser esse país o segundo maior exportador e produtor do mundo. Para o equilíbrio das economias o melhor seria, nesse caso, uma vitória rápida dos EUA. Além disso, o controle norte-americano, com a retirada de Saddam do poder, poderia significar um melhor aparelhamento das reservas, sendo as do interior do Iraque as mais competitivas e de mais fácil extração no mundo inteiro.

 

Mesmo que a administração de George W. Bush tenha buscado inúmeras razões para justificar a guerra, fato é que, por trás de um regime ditatorial e de um embargo de 12 anos, estava o destino da segunda maior reserva do mundo, como dito anteriormente. Por ter escrito o artigo em 2003 a autora não pode exprimir suas opiniões sobre o destino que a guerra tomou. No entanto, reforça sua opinião de maneira incontestável quando diz esperar que outras regiões também consideradas estratégicas, como a Venezuela, o Mar Cáspio e o Golfo da Guiné na África, não enfrentem situações de caráter similar.

 


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ANôNIMO,. Resenha da obra - A questão do petróleo e suas implicações na Guerra do Iraque – Claudia M. A. FAY. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 17 Jun. 2010. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/resumos/economia-internacional/163928-resenha-da-obra-a-questao-do-petroleo-e-suas-implicacoes-na-guerra-do-iraque--claudia-m-a-fay. Acesso em: 23 Set. 2020

 

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