Aquele risquinho que ninguém sabe usar direito

 

No meio de todas as coisas que fingimos que aprendemos no colégio, principalmente em português, está o uso da vírgula. Ela é um instrumento de importantíssima aplicação mas, como diriam os Mamonas Assassinas, é uma “faca de dois legumes”. Ao passo que sua escrita pode ficar bonita e fluida, há a possibilidade de se tornar atravancada, barrada e, principalmente, errada!

 

Lembram o que a tia nos disse? Que a vírgula era uma pausa na leitura, que ela servia para se interromper a leitura por um segundo, esse tipo de coisa? Pois é. A tia mentiu. Ok, essa função até existe, mas a principal, de longe, é a separação dos principais membros que constituem a oração ou o período. E você não pode ficar fracionando ao meio uma mesma parte, ok?

 

Dito isso, vamos ver o excerto de hoje. Este veio de um caso de estupro, no qual o advogado defende o rapaz de 19 anos que manteve relações não forçadas com uma menina de 13:

 

"[...] afirmou também que procurou os pais de Fulana para que ambos apoiassem o relacionamento o que, foi aceito pela mãe, mas não pelo pai, principal peça, de toda esta investigação."

 

Fiquei até agoniado. Não só pelos erros, mas quando começava a engrenar na leitura uma vírgula aparecia no meio do caminho. Entenderam o que eu disse por atravancado?

 

Bom, primeira coisa. Vejam a parte do “[...] para que ambos apoiassem o relacionamento o que, foi aceito pela mãe [...]”.

 

Regra superimportante: não separar sujeito do verbo. O que é sujeito? É quem pratica a ação. O que é o verbo? A ação praticada (via de regra). Então nessa oração o sujeito é o relacionamento e o verbo é aceitar.

 

Perguntas que podem surgir: 1) o sujeito não é a mãe, já que ela aceita o relaciomento? Seria se a oração estivesse escrita assim. Mas veja lá, ela está em forma passiva, portanto ocorre o sujeito é quem sofre a ação; 2) mas o sujeito não seria os pais, já que eles apoiam o relacionamento? Cada oração tem um verbo e um sujeito. Aí nós temos duas orações – “os pais de fulana apoiam o relacionamento” e “o relacionamento foi aceito pela mãe”. Ok? Cada uma com seu sujeito, seu verbo, suas partes.

 

Então como deveria ficar? “[...] para que ambos apoiassem o relacionamento, o que foi aceito pela mãe [...]”.Mas ainda estamos separando o “relacionamento” do “aceito” com uma vírgula! Sim, estamos, porque essa vírgula não só está entre duas orações, mas também está suprimindo um segundo “relacionamento”. Cruamente deveria ser escrito “para quem ambos apoiassem o relacionamento. O relacionamento foi aceito pela mãe”, mas fica repetitivo (como esse parágrafo já está), então nós tiramos o segundo substantivo e o substituímos por uma vírgula, que vai ter a dupla utilidade, já que vai separar também as orações. Ou seja, haverá a elipse da palavra “relacionamento” pela vírgula. Entendido?

 

Adiante, a segunda parte: “[...] mas não pelo pai, principal peça, de toda esta investigação”. Novamente estamos separando coisas que deveriam ficar juntas. Nesse caso, estamos dando uma de açougueiros e cortando ao meio uma coisa que, na realidade, é uma só! Quem é a “principal peça de toda esta investigação”? O pai. Tudo isso que foi escrito é uma coisa só, não devendo, portanto, ser separado.

 

Essas duas regras expostas são importantíssimas, verdadeiras bases para uma boa escrita. Mantenham-nas em mente.A vírgula deve ser usada, mas com parcimônia, em baixa quantidade, sob pena de se ter um texto com ataque de bronquite. Você já viu uma pessoa com ataque de bronquite? Não consegue falar uma palavra sem parar pra respirar.

 

Na verdade quando eu li essa passagem me lembrei do Stevie, personagem do seriado Malcom in The Middle, o irritante garoto que não consegue, exatamente como eu disse, falar uma palavra sem parar pra respirar porque tem alguma deficiência respiratória.

 

 

 

Vontade dar uma bifa nas costas do garoto “FALA LOGO, PÔ!”.


 

Como referenciar este conteúdo

BELLI, Marcel. Aquele risquinho que ninguém sabe usar direito. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 07 Jul. 2010. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/colunas/diario-de-estagiario/165203-aquele-risquinho-que-ninguem-sabe-usar-direito. Acesso em: 23 Abr. 2019

 

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