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Goethe e o Estado

05/06/2011

 

Quem tem acompanhado as minhas notas sobre o FAUSTO, de Goethe, sabe que vejo na obra do grande poeta alemão um compêndio filosófico e, enquanto tal, ele contém também uma filosofia política. Goethe, ainda que moderno, foi suficientemente inteligente para não sacralizar o Estado. Antes, Goethe o vê como mero instrumento de ordem, administrado por pessoas crédulas e frívolas. O Estado moderno perdeu a conexão que tinham os antigos governantes com as virtudes. Os “novos príncipes” relatados no poema limitam-se aos aspectos superficiais e asquerosos do poder. Os cortesãos são apenas parasitas. O carnaval é a sua grande festa, o que denota suaretrogradação aos tempos pré-cristãos.

 

O Imperador feito personagem, de tão crédulo e tolo, é vítima dos logros quase infantis que lhe aplica Mefistófeles. Um deles, o truque da emissão da moeda sem lastro, foi profético, como tudo no poema: anteviu o século XX e a emergência de economistas mefistofélicos, como Keynes e Milton Friedman, verdadeiros sacerdotes da emissão de moeda sem lastro. Devemos ter em conta que até a II Guerra ainda vigorava o padrão-ouro e que o Acordo de Bretton Woods, que determinou o sistema monetário internacional do Pós-guerra, ainda se referia ao ouro monetário como âncora do dólar. Foi Richard Nixon quem rompeu a conversibilidade do dólar, em 1971. Não faz muito tempo. Deu-se o triunfo final de Mefisto na condução da moeda.

 

O ouro como moeda é o elo que une o processo produtivo com a economia dita “real”. A magia da emissão de moeda sem lastro tornará o Estado monstruosa máquina de intervenção econômica. Note-se que núcleos de pesquisas universitárias inteiros estão dedicados a estudar e a prover políticas públicas “respeitáveis” a partir da hipótese mefistofélica de que emissão de moeda sem lastro é a normalidade. Assim, o Estado moderno tornou-se o novo Baal, o Mamon bíblico. O gigantismo estatal que se nota em toda parte hoje em dia deriva diretamente desse truque. Sem moeda estatal não há como alguém se integrar no sistema econômico. Todos agora dependem diretamente do Estado para a sobrevivência. O sistema de emissão de moeda sem lastro é a grande fonte de corrupção dos governantes modernos.

 

A coisa evoluiu de forma tão fulminante que no espaço de poucas gerações esqueceu-se qual é a verdadeira normalidade e que essa magia do Estado traz embutida em si os perigos de crises catastróficas. A de 1930 já havia derivado da magia mefistofélica. Como remédio surgiram as receitas falsas de Keynes e Friedman e sua laia. São os patronos dos moedeiros falsos. A crise que vivemos desde 2008 (para não falar daquelas da segunda metade do século XX) é produto direto dessa loucura diabólica na condução do Estado.

 

Outro ponto que se nota é que o marxismo é também produto do delírio mefistofélico contido no poema. Marx sabia o FAUSTO de cor. Fez citações longas dele nos Manuscritos Econômico-filosóficos. E o que é o marxismo? A elevação do Estado à condição do salvador do homem, aquele que traz a igualdade e a riqueza abundante; aquele que suprime as crises e que garante a felicidade ainda nesse mundo [Nossa Constituição garante que a Saúde é um dever do Estado, estrondoso ridículo delirante dos seguidores de Mefistófeles]. Os seguidores de Marx, nos diferentes graus, acreditam piamente nisso. Praticamente todos os governos hoje em dia se comportam e agem como se fossem responsáveis pela felicidade geral e pela prosperidade econômica, a grande ilusão mefistofélica que foi adotada desde o Iluminismo.

 

O Estado não passa de violência organizada. Com essas ilusões o potencial de violência contra as pessoas cresceu enormemente. Tanto que as guerras tornaram-se instrumento de matanças colossais, sem iguais na história. Uma das maiores alavancas dessa violência institucional do poder de Estado, capaz de esmagar os indivíduos, é precisamente a miragem criada pela emissão de moeda sem lastro e o ímpeto salvíficodado a si mesmo pelo Estado. Tem-se o propósito de tornar perfeitos os homens, a natureza, o clima, o mundo. Essa loucura está em marcha e pode ser lida nas manchetes do dia de todos os jornais. Leis são fabricadas aos montes no suposto de que a mão estatal pode perfectibilizar tudo.

 

A profecia de Goethe em sua obra maior cumpriu-se à risca. Mefistófeles criou uma Segunda Realidade na qual a humanidade mergulhou. A Primeira Realidade, o real, é Deus e suas ordenações, que foram abandonados. A Segunda é essa loucura que acaba sempre em tragédia, com crises alucinantes, guerras genocidas, desespero e luta fratricida e incessante pelo poder de Estado. O estado de guerra civil parecer ser agora o tempo normal. A armadilha foi tão perfeita que não vislumbro meios de se escapar dessa Segunda Realidade. A única maneira de se manter a sanidade e viver o real é dentro de si mesmo, restabelecendo a relação com Deus e a tradição. Para isso o esforço não é pequeno e é tarefa para muito poucos. Uma minoria seleta é que pode escapar do canto de sereia de Mefisto e seus áulicos. Voltamos aos tempos das catacumbas para fugir dos Neros de hoje. Temos que nos isolar dentro de nós mesmos para não sermos dissolvidos na loucura coletiva e armada, que a tudo destrói.

 

 

* José Nivaldo Cordeiro, Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias.


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CORDEIRO, José Nivaldo. Goethe e o Estado. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 08 Jun. 2011. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/filosofia-do-direito/186238-goethe-e-o-estado. Acesso em: 29 Out. 2020

 

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