Padrão de consumo das famílias urbanas de Bambuí-MG | Portal Jurídico Investidura - Direito

Padrão de consumo das famílias urbanas de Bambuí-MG

Francine Milla Bernardes Silva[1]

Karoline Miranda de Oliveira Ferreira1

Laryssa Gabriela Campos Anésio1

Natália de Oliveira Lopes1

Taynara Taís Oliveira1

Érik Campos Dominik[2]

RESUMO

Boa parte das famílias possuem dificuldade de elaborar um orçamento familiar e evitar gastos desnecessários. Conhecer a estrutura de consumo das famílias de diferentes níveis de renda é importante para construir ferramentas precisas de planejamento financeiro. Foi realizada uma pesquisa descritiva, do tipo estudo de caso, com o objetivo de descrever o padrão de consumo das famílias urbanas do município de Bambuí-MG e analisar como estas ajustam as despesas à renda familiar. Os resultados mostraram que, na maior parte dos grupos de despesas, as diferenças percentuais entre as famílias de renda média e baixa não foram significativas. Entretanto, as despesas mais básicas, como alimentação e habitação, tiveram maior percentual entre as famílias de baixa renda, enquanto os percentuais de despesas consideradas supérfluas, como recreação e cultura e outras despesas, foram maiores nas famílias de renda média. As famílias de renda média também pouparam mais que as famílias de baixa renda.

Palavras Chaves: Orçamento familiar, comportamento do consumidor, níveis de renda.

INTRODUÇÃO

A crise econômica brasileira vivenciada nos tempos atuais afeta diretamente o comportamento do consumidor, uma vez que, com tendência a uma renda real menor, necessita de maiores esforços para manter a vida financeira familiar organizada. É nesse contexto que muitas famílias se endividam ou tentam eliminar gastos desnecessários para fugirem de possíveis dívidas.

O descontrole das finanças e o desequilíbrio do orçamento familiar justificam a importância de se elaborar um planejamento financeiro, permitindo que os membros da família consigam administrar com antecedência os gastos a serem realizados e facilitando a decisão de quais bens e serviços são possíveis de serem adquiridos, de acordo com a renda líquida, sem afetar negativamente o orçamento familiar.

O presente trabalho pretende contribuir para engrandecer os estudos sobre como os consumidores de todas as classes sociais lidam com o orçamento familiar. Portanto, o objetivo deste trabalho é descrever o padrão de consumo das famílias urbanas do município de Bambuí- MG, conforme os níveis de renda.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

O consumo é a prática que busca a satisfação dos indivíduos, por meio do gasto com produtos e serviços, com a finalidade de suprir as suas necessidades e desejos. Há vários fatores que influenciam o comportamento do consumidor, como cultura, motivação e grupos de referência, mas serão destacados a classe social e a renda.

Quando um indivíduo pertence a determinada classe, ele passa a consumir de acordo com seus pares. Se a classe for mais alta, há preferência para produtos de boas marcas e qualidade melhor: gasta-se em viagens e artigos de maior luxo. Por outro lado, se o indivíduo pertence a alguma classe social mais baixa, certamente consumirá produtos de menor valor (LAS CASAS, 2012, p. 195).

A renda é um dos principais fatores que influenciam o consumo. Para Solomon (2008), os consumidores de níveis mais baixos de renda avaliam os produtos que lhes são mais úteis, muitas vezes preferindo o conforto ao estilo. Em contrapartida, os consumidores de níveis de renda mais altos buscam produtos que lhe conferem mais status. Por outro lado, muitas famílias de baixa renda adquirem produtos que são consumidos pelas famílias com níveis maiores de renda, comprometendo o seu orçamento, por isso lhes trazer maior satisfação.

METODOLOGIA

O presente estudo foi realizado com o objetivo de verificar como se dá o consumo das famílias bambuienses, em diferentes níveis de renda, caracterizando-se como um estudo de caso, que, nas palavras de Cervo e Bervian (2002, p.67), “é a pesquisa sobre um determinado indivíduo, família, grupo ou comunidade que seja representativo do seu universo, para examinar aspectos variados de sua vida”, e como uma pesquisa descritiva.

Bambuí possuía uma população de 22.734 habitantes em 2010 (IBGE, 2011), e se localiza no Centro-Oeste de MG. A população do estudo são os 6.761 domicílios permanentes urbanos, da qual foi tirada uma amostra de 118 domicílios, com nível de significância de 92%. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica para a construção do referencial teórico e uma pesquisa de campo em abril e maio de 2017, por meio de um questionário semiestruturado, aplicado por entrevista com a pessoa de referência da família, que, segundo o IBGE (1997, apud DOMINIK 2010, p. 68), é a responsável “pelas despesas de habitação (…) ou aquela indicada pelos membros da família”.

Os níveis de renda familiar foram estipulados com base na adaptação feita por Dominik (2010), atualizados para 2017, obtendo: renda baixa (C; até R$ 2.811,00); renda média (B; R$ 2.811,01 a 11.244,00); e renda alta (A; R$ 11.244,01 ou mais). A estrutura de consumo familiar foi adaptada da Pesquisas de Orçamentos Familiares de 2008-2009 (IBGE, 2010) (Quadro 1).

Quadro 1- Estrutura do consumo familiar

IBGE

Adaptação

Principais itens analisados pela pesquisa

Alimentação

Alimentação

Dentro e fora do domicílio.

Vestuário

Vestuário

Roupas, calçados, joias, acessórios e tecidos.

Habitação e outros

Habitação

Aluguel, prestação, serviços, limpeza, manutenção, aquisição etc.

Transporte

Transporte

Coletivo, combustível, manutenção, viagens, aquisição de veículos.

Higiene / Serv. pess.

Higiene

Produtos de uso pessoal, cabeleireiro, consertos de artigos pessoais.

Educação

Educação

Cursos, artigos escolares, livros didáticos, revistas técnicas etc.

Assistência à saúde

Saúde

Remédios, planos, consultas médicas e dentárias, exames etc.

Recreação e cultura

Rec. cultura

Brinquedos, jogos, celular, recreações, esportes etc.

Fumo e outras desp.

Outras desp.

Apostas, festas, serv. profissionais e bancários, pensões etc.

Outros empréstimos

Poupança

Total destinado à poupança (média mensal).

Fonte: Adaptado da POF2008/2009 (IBGE, 2010).

Utilizou-se o software Microsoft Office Excel 2010 para tratamento dos dados e posterior geração de resultados.

RESULTADOS

Com este estudo, foi possível analisar o quanto a família bambuiense gasta com diversos itens de despesas, de acordo com os níveis de renda. Para melhor análise dos dados, dividiu-se a renda em três níveis: C (baixa renda), com uma frequência de 64 famílias; B (renda média), com 54 famílias; e A (renda alta), com nenhuma família pesquisada. O perfil de consumo das famílias bambuienses conforme os níveis de renda média (B) e baixa (C) está na Tabela 1.

TABELA 1 – Perfil do Consumidor

Variáveis

Níveis de renda

Variáveis

Níveis de renda

C

B

C

B

Sexo PR (%)

Feminino

39,06

55,56

Pessoas que vivem da renda

2,78

3,42

Masculino

60,94

44,44

Nº filhos coabitantes

1,00

1,50

Escolaridade PR (%)

Situação domiciliar (%)

Própria Quitada

75,00

72,22

Não cursou escola

6,25

0,00

Alugada

10,94

11,11

Fundamental incompleto

39,06

35,19

Financiada

9,38

9,26

Fundamental completo

28,13

11,11

Cedida

4,69

7,41

Médio completo

20,31

27,78

Religião PR (%)

Católica

71,88

85,19

Superior incompleto

1,56

5,56

Evangélica

15,63

11,11

Superior completo

3,13

12,96

Espírita

12,50

1,85

Pós-graduação

1,56

7,41

Outras

0,00

1,85

Estado Civil PR (%)

Solteiro (a)

7,81

22,22

Faixa etária PR (%)

Até 29 anos

4,69

14,81

Casado (a)

68,75

59,26

30 a 42 anos

17,19

18,52

Viúvo (a)

7,81

9,26

43 a 54 anos

45,31

38,89

Sep/Div (a)

15,63

9,26

55 a 64 anos

18,75

14,81

Renda líquida (R$)

1.888,62

3.937,39

65 anos ou +

14,06

12,96

                 

PR = Pessoa de referência

Fonte: Dados da pesquisa (2017).

De acordo com os dados da Tabela 1, o rendimento médio das famílias de nível B (R$ 3.937,39) é mais que o dobro do rendimento das famílias de nível C (R$ 1.888,62). Nas famílias de baixa renda, a predominância da pessoa de referência é do sexo masculino (60,94%), enquanto nas famílias de renda média é do sexo feminino (55,56%). A maior parte delas está entre os 43 e 54 anos, tanto nas famílias de nível C (45,31%) quanto de nível B (38,89%). Nas famílias de nível C, a maioria das pessoas de referência são casadas (68,75%), percentual maior que nas famílias de nível B (59,26%). O maior percentual de escolaridade coube ao Ensino Fundamental incompleto, sendo 39,06% das famílias de nível C e 35,19% de nível B.

No nível C, em média, 2,78 pessoas vivem da renda, enquanto, no nível B, este número é 3,42. Já os filhos residentes no domicílio é de 1,5 em média nas famílias de nível B e de 1 no nível C. 75% dos domicílios das famílias de nível C e 72,22% de nível B (72,22%) são próprios quitados. A religião católica é predominante (88% e 85,19%), respectivamente.

A estrutura de consumo das famílias bambuienses consta da Tabela 2.

TABELA 2 – Estrutura de consumo das famílias de Bambuí-MG, 2017, conforme os níveis de renda, em %

Grupos de despesas

IBGE

Brasil

Dados de pesquisa

Grupos de despesas

IBGE

Brasil

Dados de pesquisa

Níveis de renda

Níveis de renda

Total

Total

C

B

Total

Total

Total

C

B

Alimentação

16,10

30,18

34,44

25,13

Educação

2,50

4,91

3,46

6,36

Vestuário

4,50

7,35

6,74

8,08

Saúde

5,90

7,67

7,81

7,25

Habitação

35,60

15,10

16,70

13,20

Recreação e Cultura

1,60

6,09

5,44

6,87

Transporte

16,00

6,72

6,54

6,49

Outras despesas

15,10

7,52

6,25

9,03

Higiene

2,80

5,06

5,05

5,08

Poupança

0,00

9,39

7,58

11,53

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: Adaptada do IBGE (2010) e Dados da pesquisa (2017).

O maior gasto das famílias bambuienses coube à alimentação, diferentemente das famílias brasileiras, que tiveram maiores despesas com habitação, o que pode ser explicado pelo fato da maioria dos domicílios serem próprios quitados. As famílias de renda baixa destinam um maior percentual para a alimentação (34,44%) e habitação (16,7%) do que as famílias de renda média (25,13%) e (13,2%), por serem categorias essenciais de despesa, como se referiu Las Casas (2012). O percentual de recreação, embora tenha sido ligeiramente maior nas famílias de nível B, foi superior aos da média brasileira, enquanto as “outras despesas” (muitas consideradas supérfluas) foram maiores que as de Bambuí. Destacam-se também os gastos com transporte, maior nos dados do IBGE (16%) do que em Bambuí (7,52%), pois o município é de pequeno porte e o acesso ao centro comercial é relativamente fácil. A metodologia do IBGE não inclui o que é poupado, enquanto as famílias bambuienses de nível C poupam 7,58% da renda líquida e as de nível B, 11,53%. Os demais gastos não obtiveram diferenças significativas entre os níveis de renda nem em relação aos dados do IBGE.

CONCLUSÃO

O presente estudo teve como objetivo descrever o padrão de consumo das famílias urbanas do município de Bambuí/MG, conforme os níveis de renda. Com base nos dados apresentados nos resultados, pôde-se traçar o perfil típico da pessoa de referência de Bambuí e de seus domicílios, considerando apenas os maiores percentuais.

A pessoa de referência típica de Bambuí é do sexo masculino, tem apenas o Ensino Fundamental incompleto, é casado, possui entre 43 e 54 anos, é católico e sua renda sustenta 3 pessoas, dentre elas 1 filho, e seu domicílio é próprio quitado. As pessoas de referência de nível C e de nível B possuem a mesma tipicidade, com exceção do sexo, cujo maior percentual é de 60,94% para o sexo masculino e de 55,56% para o sexo feminino, respectivamente.

Na maioria das despesas, as diferenças percentuais entre as famílias de nível B e C não foram significativas. O que tornou o percentual das despesas básicas maior foi a renda média superior das famílias de nível B (R$ 3.937,39) em relação às de nível C (R$ 1.888,62), por manterem relativamente os gastos em valores monetários com alimentação e habitação, porém, gastando mais com itens supérfluos, como recreação e outras despesas, além de pouparem mais. Ressalta-se a importância de realizar mais pesquisas que aprofundem este tema, tomando por base a estrutura de consumo pesquisada, como, por exemplo, a análise dos grupos de despesas considerados mais excessivos pelas famílias, do comportamento e planejamento financeiro, dos meios de pagamento utilizados pelos indivíduos que compõem estas famílias.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CERVO, Amado; BERVIAN, Pedro. Metodologia científica. São Paulo: Prentice Hall Editora, 2002.

DOMINIK, Érik Campos. Padrão de consumo familiar em diferentes estágios do ciclo de vida e níveis de renda. Dissertação apresentada à Universidade Federal de Viçosa para obtenção do título de mestre em Economia Doméstica. Viçosa: UFV, 2010.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: PNAD 2007. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.

__________. Censo Demográfico de 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2011.

LAS CASAS, Alexandre Luzzi. Administração de Marketing: conceitos, planejamento e aplicações à realidade brasileira. São Paulo: Atlas, 1996.

SOLOMON, Michael R. O Comportamento do Consumidor: comprando, possuindo e sendo. Porto Alegre: Bookman, 2008.



[1] Estudante do Curso Superior de Bacharelado em Administração no IFMG – Campus Bambuí

[2] Bacharel em Ciências Econômicas pela UFMG, Mestre em Economia Doméstica pela UFV e Doutorando em Economia Doméstica pela UFV. Professor do IFMG – Campus Bambuí.


Como referenciar este conteúdo

SILVA, Francine Milla Bernardes; FERREIRA, Karoline Miranda de Oliveira; ANéSIO, Laryssa Gabriela Campos; LOPES, Natália de Oliveira; OLIVEIRA, Taynara Taís; DOMINIK, Érik Campos. Padrão de consumo das famílias urbanas de Bambuí-MG. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 17 Jul. 2018. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/economia/336792-padrao-de-consumo-das-familias-urbanas-de-bambui-mg. Acesso em: 19 Nov. 2019

 

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