AL/RS

Bela caminhada


“Trabalho como recepcionista em uma policlínica, no centro de Porto Alegre, das 18h às 23h. No dia 17 de junho tive que ir caminhando pra casa. Não havia transporte coletivo. Os ônibus foram retirados das ruas devido às depredações da manifestação popular que tomou conta do Brasil.


Dizem que o início dos protestos deu-se para que houvesse uma redução das tarifas, consideradas altas pelos usuários dos coletivos. E, a partir desta questão pontual, outras reivindicações foram ocupando espaço e engordando a procissão.


Acredito que a participação popular promove transformações sociais. Quando jovem, participei do Movimento Diretas Já, em 1984, e do Fora Collor, em 1992. Foram movimentos importantes para o momento e deram resultado, apesar de achar que, hoje, temos eleições demais, a cada dois anos, e de ver, com tristeza, que o ex-presidente, retirado do poder outrora, atualmente, esteja no Senado Federal.


Os protestos de agora têm vários objetivos. O mundo atual é permeado de vários objetivos, muitas vezes plurais e difusos. Mas, em nossa cultura, parece sempre estar presente a necessidade de se tornar o difuso, o confuso em uníssono e linear. Temo as iniciativas, por vezes impulsivas, de ‘vamos às ruas’, tanto quanto as tentativas simplistas em explicá-las, muito mais quando isso é feito supondo uma lógica unilateral e preestabelecida. Temo decisões rápidas e impermanentes, mas, também, a permanência eterna de alguns modos de ver, julgar e agir frente à realidade.


Caminhando sozinho pensava: Quem está, de fato, protestando? Como eles definiram as pautas? Por que elas são tão plurais? Poderiam não ser plurais? A quem interessam estas manifestações? Quando e porquê saíram da Rede para às ruas? Que fôlego têm? Quão revolucionárias são? Quão massificantes? Deveriam ser mais, menos violentas? Qual é o papel da política, da polícia e da mídia? Quais seriam as minhas radicais reivindicações, as da minha comunidade? Quantos irão persistir após estes momentos de maior acirramento?


Acredito no que se configura, autenticamente, como vontade popular e vejo que o pano de fundo destas manifestações é a certeza de que o País pode ser melhor, com mais recursos para a saúde e para a educação. Este pano de fundo é a certeza de que a participação de cada um e de cada uma fará a diferença; a convicção de que as coisas que precisam ser mudadas, não o seriam espontaneamente; o entendimento de que o País, a sua população, precisavam reagir ante ao aparente anestesiamento no qual vivemos durante tantos anos.


Passos foram dados, rumos e destinos tensionados – ‘a certeza à frente e a História na mão’!
Mesmo tendo caminhado sozinho, voltando para casa no dia do protesto, quase meia noite, me senti participante de uma bela caminhada que quer um Brasil melhor”.
Assinado: um trabalhador


*Deputado Estadual e Líder do Partido PSB na ALRS


Fonte: AL/RS

Como citar e referenciar este artigo:
NOTÍCIAS,. Bela caminhada. Florianópolis: Portal Jurídico Investidura, 2013. Disponível em: https://investidura.com.br/noticias/alrs/bela-caminhada/ Acesso em: 08 fev. 2026