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Saber o que falar, quando e onde falar

 

Quando eu era pequeno meu pai adorava dizer que eu deveria pensar antes de falar. De fato eu sou o clássico boca aberta, aquela pessoa que fala a barbaridade mais embaraçosa no meio de uma multidão quando todos, por algum aborto da natureza, decidem fazer silêncio ao mesmo tempo.

 

Recebi um comentário em um dos posts da coluna que deve ser analisado. Não me entendam mal, não sou como aqueles apresentadores de TV que quando recebem uma crítica voltam ao ar para descascar a pessoa – acho isso uma grosseria extrema. No entanto, penso que todas elas devem sempre ser construtivaspois falar mal só por falar mal não vale de nada.

 

O problema todo veio porque utilizei o termo “para com” na frase “um pedido de desculpas para com os leitores”. Segue o comentário:

 

olha só.... PARA COM... EM UMA FRASE NAO EXISTE É BALACA DE QUEM ACHA QUE SABE ESCREVER!!!! DA UMA PESQUISADA AI OU FAZ UM CURSINHO RÁPIDO DE PORTUGUÊS E APRENDA!”.

 

Primeiro de tudo e essa eu tenho certeza que a tia falou: toda oração começa com letra maiúscula. Sempre. E, nesse mesmo passo, só a primeira letra é maiúscula, não todas as outras!

 

Ponto de exclamação, use só um quando quiser passar uma sensação de ênfase, de espanto, entusiasmo ou mesmo cólera, mas perdemos o foco e o sentido quando começamos a usar vários juntos. Se acreditássemos na tia e usássemos vírgula para uma pausa na leitura certamente o Papa teria de usar três ou quatro vírgulas a cada parada. “Nessa páscoa,,,, padres não vão bulinar menininhos,,, ou...”.

 

Adiante, reticências são um sinal de interrupção de raciocínio. Elas servem pra dar uma sensação de que algo ficou no ar, por exemplo: “não acho ela muito bonita, mas se fosse ruiva...”. Deixei no ar a possibilidade de gostar da moça se a cor do cabelo fosse diferente. Nunca, nunca deve ser usada como vírgula ou como ponto final.

 

Outra coisa, não esqueçam a acentuação e o sinal de nasalisação (til – tio é o irmão do seu pai ou da sua mãe). Só pra esclarecer: til não é acento. Por isso que não há nada de errado em escrever “órfão”, pois não há dois deles na palavra – só um acento e o sinal, coisas totalmente diferentes.

 

O uso de gírias, por sua vez, não é de grande utilidade. Em um país enorme como o Brasil cada região tem as suas. Os cariocas se revoltam contra um “caô” enquanto manezinhos chamam os estranhos de “laranja” ou “haule”. O problema é que enquanto não há um dicionário englobando tantas novas utilizações ou neologismos; enquanto alguém não lhe explicar que não você não foi chamado de uma fruta, não adianta nada usar essas palavras, só faz com que não se entenda o que você está falando.

 

Mas de que adianta isso tudo se o leitor ainda estiver certo? Posso criticar o quanto quiser como ele escreve, mas se eu ainda estiver errado de que adianta?

 

Vamos dar uma olhada por aí. Evanildo Bechara, para quem não conhece, é um dos maiores gramáticos de nosso país; um cátedra cujo nome é uma unanimidade e – não que prove muita coisa – ocupa a cadeira de número 33 na Academia Brasileira de Letras.

 

Em sua obra “Moderna Gramática Portuguesa”, página 301, encontramos que para com é uma locução prepositiva, em geral formada de um advérbio ou locução adverbial + preposição de, a, com. Ou também pode se formar de duas preposições: até a, para com... Ex: Mostrava-se bom para com todos.

 

Antônio Houaiss... esse mesmo não precisa de introdução. No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, organizado pelo Instituto Antônio Houaiss, encontra-se exemplo: “Ele é bondoso para com os pobres”.

 

Não quero que esse post soe como arrogante ou petulante, não! Na realidade vi uma boa ideia para se revisar alguns pontos interessantes já comentados e outros novos.

 

De um jeito ou de outro, agradeço o comentário do nosso colega, mesmo que não tenha entendido muito bem o que ele quis dizer. Talvez porque eu seja um... “balaqueiro”?


 

Como referenciar este conteúdo

BELLI, Marcel. Saber o que falar, quando e onde falar. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 16 Set. 2010. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/colunas/diario-de-estagiario/169575-saber-o-que-falar-quando-e-onde-falar. Acesso em: 24 Abr. 2019

 

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