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Ethos cibernético

Há realmente novos costumes que surgiram na frenética cibercultura[1]. Apesar de que tal multiverso ainda é influenciado por uma sociedade conservadora e sob a ótica e leitura de valores oriundos da modernidade, com raízes e lógica analógica.

De fato, é um concreto desafio conciliar o contexto cibernético e o moderno sendo que naturalmente surgem conflitos bem como é intrigante a formação da sociedade harmônica sem que isso signifique erigir um óbice aos crescentes progressos registrados pela evolução científica.

A era contemporânea notabiliza-se por não oferecer rigores conceituais, o que oferecer rigores conceituais, o que nos força a refletir sobre um novo ethos que se amalgamou exatamente na sobreposição geracional.

A cibercultura não se libertou de seu legado analógico. O contexto contemporâneo é composto pelo entrelaçamento de diferentes ciências juntamente com as inovações tecnológicas anteriores e que francamente viabilizaram o surgimento da maioria das novas tecnologias.

Registram-se notáveis progressos nas áreas como o eletromagnetismo, metalurgia, química, genética e tantas outras áreas e, o smartphone tornou-se o novo ícone da nova cibernética que se encontra integrada em nosso cotidiano.

Uma das perguntas mais feitas e que insistimos em fazer é: Qual o sentido de tudo isso? Somos uma reles pequena faísca em meio de um planeta, que está nesse multiverso, infinitamente ainda maior.

Afinal, por que a investigação sobre qual deve ser a melhor forma de viver não pode prescindir da reflexão sobre qual a nossa razão de existir.

Qual é a causa primeira de todas as coisas? Quando se dá exatamente a chegada da alma ao corpo? Será que Espinosa tinha razão quando abriu sua Ética com as origens de Deus e da alma?

Obviamente todas as ponderações sobre nossa origem são especulativas até mesmo aquelas tomadas hoje pela ciência como as mais prováveis.

No fundo, todos os princípios morais caminham para o fim de tudo. Que pode ou não coincidir com a extinção da finitude, a depender do pensador invocado.

Platão, certa feita, disse e, suas palavras foram recuperadas por Montaigne, in litteris: “Filosofar é aprender a morrer”.

O homo ciberneticus[2] está ainda imerso em valores conservadores que foram pontuadas por uma sociedade analógica. As ferramentas tecnológicas tão úteis para executarmos as tarefas rotineiras passaram (in)conscientemente a ser autênticos apêndices de nossa existência. E os conflitos geracionais ao lado da velocidade das mudanças passam a ser generalizados e seletivos.

E os que são desafiados a se adaptar às essas inovações, passaram a sentir a necessidade de uma nova ética, um novo ethos capaz de ser conciliadora com os valores da cibercultura, calcados no nanossegundo e com a sociedade mesodigital ou meso-analógica posto que detenha poderes político-econômicos e militares e, que somente aparentemente opõe-se diametralmente aos valores da geração insurgente.

Algumas respostas voltadas a maioria dessas cruciais questões, só deverão se apresentar no futuro, através de olhar observador e reflexivo de historiadores.

Precisamos nos munir de repertório necessário para escolher a melhor forma de conciliação, ao invés de sermos apenas platéia ou meros cúmplices de conflitos tópicos.

Confirma a história que as inovações técnicas e tecnológicas tendem a promover substanciais transformações em quase todas as áreas da existência humana.

Desde a invenção da roda e do domínio do fogo por nossos ancestrais, até as mais recentes tecnologias de informação e comunicação passando pela invenção da roda e os onipresentes aparelhos eletrônicos, tais como smartphones (telefones celulares inteligentes), computadores, câmeras digitais e toda sorte de inteligência artificial[3] que nos atinge de forma indefectível.

A duração da vida agora dourada pelo domínio do fogo e acalentada por seu calor, embalada pela forte dinâmica da roda, ainda mais iluminada pelo conhecimento e a comunicação imediata e instantânea.

Assim aprendemos a defender territórios, a proteger propriedades, a cozinhar alimentos, a transformar as matérias, a inspirar confiança, a pleitear a justiça e providências junto às repartições públicas, senão a igualdade, ao menos existe a equidade.

Enquanto a igualdade se refere às situações idênticas e equivalentes para todas as pessoas e situações. Já a equidade tem sua origem o vocábulo latino aequitas e que se refere à capacidade de apreciar e julgar com retidão, com imparcialidade e principalmente e por atentos para as peculiaridades de cada caso concreto.

A equidade significa a justiça natural, a disposição para reconhecer imparcialmente o direito de cada um, considerando o relacionamento entre os indivíduos em seu meio.

As inovações mais recentes e nem tão antigas como o domínio do fogo ou a criação da roda tal qual a invenção do telégrafo no começo do século XIX e do rádio, já na virada do século XX, mudaram profundamente nossa concepção e percepção de espaço e de tempo ao permitir a comunicação instantânea.

Vale lembrar que o paradigma dos telégrafos ainda é útil e serve de paradigmas para redes físicas de dados, e mesmo as fibras ópticas e toda a atual estrutura de telefonia celular, a comunicação de satélites, o wi-fi[4], o bluetooth[5] e continuam a usar as ondas do rádio.

Afinal é a combinação de ciências entrelaçadas com diferentes inovações tecnológicas que viabilizam o surgimento de novas tecnologias revolucionárias.

Sem o progresso científico não teria sido possível criar o fio de cobre componente mais básico e fundamental para toda invenção elétrica e eletrônica e de toda tecnologia presente em nossa realidade contemporânea.



[1]Cibercultura é a cultura que surgiu e, ainda surge a partir do uso de rede de computadores, e de outros suportes tecnológicos (como, por exemplo, o smartphone e o tablet) através da comunicação virtual, a indústria de entretenimento e o comércio eletrônico, no qual se configura o presente, já que a cultura contemporânea é marcada principalmente tecnologias digitais, resultado da evolução da cultura moderna. Refere-se também ao estudo de vários fenômenos sociais associados à internet e ainda a outras novas formas de comunicação em rede, como as comunidades online, jogos de multi-usuários, jogos sociais, mídias sociais, realidade aumentada, mensagens de texto e inclui as questões relacionadas à identidade, privacidade e formação de rede. A cibercultura também se faz presente na educação por meio de múltiplas linguagens, múltiplos canais de comunicação e em temporalidades distintas.

[2] Para compreendermos essas metamorfoses que marcaram a trajetória do Homo Sapiens e principalmente as que marcam o século XXI e dão origem ao mais que pós-moderno Homo Cibernéticus, faz-se necessário que verifiquemos os caminhos que percorremos até o presente momento. Então poderemos observar que, diferente do que se costuma imaginar, a relação homem/tecnologia iniciou-se muito antes do momento em que James Watt, fabricante de instrumentos matemáticos da Universidade de Glasgow, deflagrou a revolução industrial aperfeiçoando um modelo da máquina a vapor criada por Newcomen em 1769. Uma possibilidade de mapeamento bastante plausível da relação homem-tecnologia, na concepção da s mioticista SANTAELLA (1997), é considerar essa dividida em três fases distintas: A "Muscular Motor", a "Sensório Motor" e a "Cerebral". (In: SANTAELA, L. O homem e as máquinas. In: DOMINGUES, D. (Org.). A arte no século XXI: humanização das tecnologias. São Paulo: FAPESP, 1997.)

[3] Inteligência artificial ou artificial intelligence ou simplesmente A.I em inglês é ramo de pesquisa da Ciência da Computação que se ocupa em desenvolver mecanismos e dispositivos tecnológicos que possam simular o raciocínio humano, isto é, a inteligência que ainda uma das características dos seres humanos. Do ponto de vista cognitivo, outra grande ambição das pesquisas envolvendo tecnologias de inteligência artificial é a possibilidade de fazer com que a criatividade, emoções e sentimentos humanos possam também ser reproduzidos pelas máquinas. A união de várias tecnologias é necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial, com destaque para três fatores importantes: máquinas com grande potência de processamento; modelos de dados otimizados (capazes de analisar e processar informações de modo inteligente); constante quantidade de informações para alimentar os modelos.

[4] A pronúncia é “uaifai” trata-se de marca registrada da Wi-Fi Alliance. É utilizada por produtos certificados que pertencem à classe de dispositivos de rede local sem fios (WLAN) baseados no padrão IEEE 802.11. O nome, para muitos, sugere que se deriva de uma abreviação de wireless fidelity, ou "fidelidade sem fio", mas não passa de uma brincadeira com o termo Hi-Fi (high fidelity), designado para qualificar aparelhos de som com áudio mais confiável, que é usado desde a década de 1950.

[5] Bluetooth é uma especificação de rede sem fio de âmbito pessoal, consideradas do tipo PAN ou mesmo WPAN. Provê uma maneira de conectar e trocar informações entre dispositivos tais como telefones celulares, notebooks, computadores, impressores, câmeras digitais e consoles de videogames digitais através de uma frequência de rádio de curto alcance globalmente licenciada e segura. Bluetooth é um protocolo padrão de comunicação primariamente projetado para baixo consumo de energia com baixo alcance, (dependendo da potência: 1 metro, 10 metros, 100 metros) baseado em microchips transmissores de baixo custo em cada dispositivo.


 

Como referenciar este conteúdo

LEITE, Gisele. Ethos cibernético. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 26 Set. 2019. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/sociedade/337555-ethos-cibernetico. Acesso em: 14 Out. 2019

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