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A modernização cultural: Mercadorização, filisteísmo e entretenimento

Ana Rosa Araújo Farias de Goes[1]

RESUMO

A cultura e a arte atravessam, desde a modernidade até nossos dias, várias formas de manifestação, porém todas fazendo parte de uma sociedade que, em contextos diferentes, sempre impôs o seu modo de produção, de consumo e de domínio. Referimo-nos à sociedade industrial e capitalista que impôs a sua própria cultura e sua própria arte, baseada nos seus critérios econômicos, sociais e políticos. O presente artigo tem por objetivo mostrar como essa sociedade coloca a serviço do homem sua produção de bens culturais, a maneira como os usuários utilizam tais bens, suas finalidades, a reação dos sujeitos dessa história, os artistas e intelectuais, em relação à forma como são utilizados esses bens. Mostra também que direcionamento dá essa sociedade ao controle dessa produção cultural, a que interesses deve servir. Se não aponta a saída para uma cultura emancipadora, pelo menos o artigo discute possibilidades para essa emancipação.

Palavras-chave: Arte. Cultura. Sociedade. Emancipação. Capitalismo.

1. INTRODUÇÃO

A cultura da modernidade, ou seja, a cultura da sociedade burguesa capitalista se apresenta sob diversos aspectos os quais serão aqui, no presente artigo, analisados.

A partir das formulações de Marx e Engels, em meados do século XIX, essa cultura nos é apresentada, como em todo o contexto de uma sociedade que emerge do feudalismo e se consolida na Revolução Industrial, como uma cultura criada e voltada para uma classe, que assim como se apropria dos meios de produção dos bens materiais e da riqueza também se apropria dos meios de produção dos bens intelectuais e culturais e que, no plano ideológico, relega às classes subalternas apenas um adestramento para agir como máquina.

Um dos efeitos dominantes na cultura moderna, pelo fato de ser capitalista, é a transformação de seus produtos em mera mercadoria, em objeto de consumismo e de satisfação pessoal.

Arendt (2005), comparando as sociedades, afirma que a sociedade sentia necessidades da cultura, valorizava e desvalorizava objetos culturais ao transformá-los em mercadoria, usava e abusava deles para fins mesquinhos, mas não os “consumia”. “Mesmo em suas formas mais gastas esses objetos permaneciam sendo objetos e tinham certo caráter objetivo” (Arendt, 2005, p. 257). Já a sociedade de massas, no entendimento dessa autora, não precisa de cultura, e sim de diversão, e os produtos oferecidos pela indústria de diversões são, por isso, consumidos pela sociedade de massas como quaisquer outros bens de consumo.

Lukács (2010) também denuncia o caráter mercantil da economia capitalista, que ai se generalizando, transformando também os bens da cultura em mercadorias e ao mesmo tempo tornando os produtores desses bens culturais em especialistas submetidos à divisão capitalista do trabalho. Afirma ainda que o capitalismo destrói cada vez mais a resistência dos autênticos paladinos da cultura.

A burocracia é outro tema trabalhado por Lukács (2010), a partir da concepção de Lenin, que contrapõe dois tipos de ideologias, para desmascarar a essência burguesa reformista: a do tribuno revolucionário e a do burocrata.

O caráter ideológico da burocracia denunciado por Lukács (2010) é pelo fato de ela se relacionar com a espontaneidade, entendendo essa espontaneidade onde o objeto do interesse e da atividade se limita apenas ao imediato, escamoteando qualquer forma de transcendê-lo, o que representaria a verdadeira teoria.

O filisteísmo é apresentado por Arendt (2005) como um dos “males” presentes na cultura. Ela apresenta esses filisteísmo como o libelo que o artista lançou à sociedade desde o final do século XVIII e que a origem desse termo indica uma mentalidade que julgava todas as coisas em termos de utilidade imediata, e que não tinha consideração alguma por objetos e ocupações inúteis tais como os implícitos na cultura e na arte.

A denúncia contra esse filisteísmo é quanto ao seu uso da cultura e da arte para fins de posição social e status. O filisteísmo bem educado, que ocupava seu tempo com fortuitas artimanhas educacionais e para melhorar sua posição social, preocupava mais Arendt (2005) que a indústria da diversão e do entretenimento.

A preocupação com uma cultura e uma arte que venha de fato contribuir para a emancipação da sociedade é tema dos marxistas revolucionários e, no presente artigo são colocados alguns elementos sobre esse tema, sua polêmica e a possível indicação de algum tipo de cultura que aponte para o caminho dessa emancipação.

2. TRAGÉDIA E TRAGICOMÉDIA DO ARTISTA NO CAPITALISMO

Tomei emprestado esse título da obra Marxismo e teoria da literatura, de György Lukács, no sentido de mostrar e enfatizar as influências do sistema capitalista e seus efeitos, como a mercadorização dos produtos e das relações sociais, sobretudo as de produção, a divisão do trabalho capitalista e o consumo na cultura e na arte. Lukács (2010) ainda ressalta, fazendo alusão a Engels, que este mostrou como a grandeza dos homens do Renascimento, como Leonardo ou Michelangelo, estava ligada precisamente ao fato de que eles ainda não estavam submetidos à divisão capitalista do trabalho. E, ainda, acerca das asserções sobre o capitalismo na arte, na literatura, enfim, na cultura temos a afirmação de que:

[...] “O capitalismo, vitorioso na economia, destrói cada vez mais a resistência dos autênticos paladinos da cultura. À medida que a economia mercantil vai se generalizando, todos os bens da cultura tornam-se também mercadorias, ao mesmo tempo em que seus produtores tornam-se especialistas submetidos à divisão capitalista do trabalho.

Este desenvolvimento no sentido da mercantilização, apesar dos traços comuns já observados até aqui, parece à primeira vista ser o oposto perfeito do caminho, anteriormente esboçado, que conduz ao burocratismo. E isto porque, neste último, observa-se uma abstração crescente da impressão imediata, uma tendência progressiva à aridez mediante esquemas de um pensamento formal (apesar, ou melhor, precisamente por causa da espontaneidade), ao passo que, naquele desenvolvimento, constata-se, ao contrário uma insistência cada vez mais exclusiva na impressão, uma recusa de tudo o que supera a impressão. O escritor se torna um especialista da impressão, um virtuoso da imediaticidade, um sismógrafo da alma.” (LUKÁCS, 2010, p.121).

Observa-se, na citação acima, que o autor diferencia os desenvolvimentos na literatura conduzidos pela via da mercantilização e pela via da burocratização. Lukács (2010) dá um tratamento especial à questão da burocracia na literatura e afirma ainda que a arte moderna comporta tendências que atenuam esta nítida contraposição. “A começar pelo naturalismo, assistimos a um constante florescimento de orientações que desejam transformar a literatura numa ‘ciência’, eliminando a subjetividade do escritor”. (Lukács, 2010, p.p. 121-122). Afirma ainda que:

“Por seu turno, a neue Sachlichkeit (“nova objetividade”), a literatura “da montagem” ou literatura “de fatos”, despreza ao máximo o subjetivismo impressionista dos naturalistas anteriores, que ainda permanecem muito atrasados no interior da tendência a fixar os fatos empíricos brutos e a comentá-los num árido tom protocolar. São assim exaltadas, como características distintivas do escritor moderno, as piores qualidades das “ciências particulares da decadência ideológica: um empirismo rasteiro, uma especialização burocrática, uma completa separação e alheamento do vivo tecido da totalidade.” (LUKÁCS, 2010, p. 122).

O tema da burocracia é trabalhado a partir da concepção de Lenin, que contrapõe dois tipos de ideológico, para desmascarar a essência burguesa da teoria reformista: o tribuno revolucionário e o burocrata. A análise leniniana relaciona o burocratismo com a espontaneidade, entendendo-se espontaneidade como os casos em que o objeto do interesse e da atividade for apenas o imediato. Para Lukács (2010), a peculiaridade desse fenômeno, do imediatismo, consiste em que a “teoria” da espontaneidade, que ele chama de exaltação ideológica do burocratismo, exige que os limitemos a este objeto imediato, impugnando assim, como falsa e espúria, toda tentativa de transcendê-lo, tentativa na qual se manifesta a verdadeira teoria (a teoria sem aspas). A burocracia, na análise lukacsiana, é uma ferramenta indispensável para o capitalismo e uma das primeiras armas que a burguesia utilizou-se na sua luta contra o sistema feudal e que a utiliza para manter a sua dominação perante as classes subalternas.

“Para o próprio capitalismo, ao contrário, a burocracia é um fenômeno indispensável, um resultado necessário da luta de classes. Ela é uma das primeiras armas da burguesia em luta contra o sistema feudal, e trona-se tão mais indispensável quanto mais a burguesia é obrigada a defender sua dominação contra o proletariado e quanto mais seus interesses entram em contradição aberta com aqueles das massas trabalhadoras. O burocratismo, portanto, é um fenômeno fundamental da sociedade capitalista.” (LUKÁCS, 2010, p. 107).

Mas o que a burocracia, ou melhor, o contraste entre o tribuno e o burocrata tem a ver com a literatura, com a arte, com a cultura? Lukács (2010) tenta explicar a partir da compreensão de que o contraste entre o tribuno e o burocrata derive da divisão social do trabalho e das lutas de classes no capitalismo e de que a submissão de todos os campos da ideologia à circulação de mercadorias e a transformação de todos os produtos ideológicos em mercadoria é, após o Manifesto do Partido Comunista, um fato conhecido por todos. Este filósofo húngaro ainda entende que, aparentemente, entre o burocrata criticado por Lenin e todo autêntico fenômeno literário, existe um abismo tão grande que um exclui o outro. Não há dúvidas, segundo Lukács (2010), de que existe uma literatura industrializada, reduzida a simples mercadoria, produzida de acordo com uma rotina burocrática e que, no que diz respeito à verdadeira literatura, parece que o tipo humano, social e artístico do autêntico escritor constitua o pólo oposto do burocrata. No burocrata, manifesta-se o objetivismo sem alma, a extinção da subjetividade humana, o reino das relações vazias e formais. Na verdadeira literatura, presencia-se o culto cada vez mais intenso do eu, da impressão fixada em estado puro, do objeto intuído através da imediaticidade subjetiva não alterada pela reflexão.

O efeito feitichizante da mercantilização universal da literatura se manifesta, de acordo com Lukács (2010), mesmo nos casos em que se acentua e engrandece a subjetividade. O autor ainda ressalta que, na autocrítica da decadência, aparece freqüentemente a comparação com a prostituição. Tal comparação, em que pese não entrar no mérito das origens sentimentais, que segundo esse autor, são estéreis porque praticamente são ineficazes ao espírito da autoflagelação que se manifesta nesse caso, pode-se afirmar que é economicamente correta, pois, em ambos os casos, trata-se do fato de que a mais cara subjetividade do homem é reduzida a uma mercadoria.

3. O FILISTEÍSMO CULTURAL

A partir de uma concepção de Nietzsche, por exemplo, o filisteísmo estaria presente no processo educacional. Seria o ensino geral e profissionalizante para todos, a cultura jornalística e a opinião pública, todo modo de vida que se coloca a serviço do Estado, em detrimento de uma plena formação pessoal. Estas posições, grosso modo, seriam dos capitalistas e socialistas, ou seja, dos modernos que defendem o progresso econômico ou social. A cultura filistéia para Nietzsche é chamada de “falsa cultura”, cujo fim é o Estado. Todo o empreendimento filosófico desse pensador tem por alvo reverter esse quadro cultural imperante na Alemanha. A partir de sua posição claramente aristocrática, visou atacar a cultura filistéia que dominara o seu País.

A cultura para Nietzsche seria a busca por uma fusão harmoniosa do físico, do psíquico e do intelectual no conjunto da vida, Seria ainda a busca da plenitude da elevação espiritual num mesmo homem, do refinamento emocional e da perfeição mental nesse homem. Considera que essa totalidade harmoniosa é para poucos, não podendo ser universalizada. Posição, sem sombra de dúvida, aristocrática. Outra posição de Nietzsche, com certeza criticada por muitos, era a de que somente o educador e não o “professor” ginasial, ou o “erudito da universidade”, poderia formar o homem pleno.

Para Arendt (2005), o filisteísmo foi o libelo que o artista lançou à sociedade desde o final do século XVIII, em contraposição ao revolucionário político. A autora lembra que a palavra tem origem antiga, desde os ensinamentos bíblicos, os quais indicavam um inimigo numericamente superior em cujas mãos não se pode cair, e também no jargão universitário alemão, para distinguir burgueses de togados. Porém, a sua identificação com a cultura está na utilização do termo, pela primeira vez, pelo escritor alemão Clemens Von Bretano, que escreveu uma sátira onde:

[...] “designava uma mentalidade que julgava todas as coisas em termos de utilidade imediata e de “valores” materiais, e que, por conseguinte, não tinha consideração alguma por objetos e ocupações inúteis tais como os implícitos na cultura e na arte.” (ARENDT, 2005, p. 253).

Entretanto, o âmago da questão para Arendt (2005) iria bem mais além do fato do filisteísmo de um ser “inculto” e vulgar. Outra situação segiu-se, ao contrário, em que a sociedade começou a se interessar também notoriamente por todos os pretensos valores culturais. A autora alerta também que “a sociedade começou a monopolizar a “cultura” em função de seus objetivos próprios, tais como posição social e status”. (Arendt, 2005, p. 254).

A manifestação desse tipo de cultura, que se transformou num balcão de negócios e de busca por posição e prestígio social, tem sua conexão com a posição socialmente inferior das classes médias européias que, tão logo adquiriram riqueza e lazer suficientes, entraram em conflito acirrado com a aristocracia, devido ao desprezo desta pela vulgaridade contida no mero afã de ganhar dinheiro.

O debate acerca do tema sociedade de massas versus cultura de massas levou, segundo Arendt (2005), estudiosos a defenderem a inclusão de uma dimensão intelectual ao kitsch.

[...] “eles se tornaram hoje em dia respeitáveis, o tema de inúmeros estudos e projetos de pesquisa cujo efeito principal, como salientou Harold Rosenberg, é “adicionar ao kitsch uma dimensão intelectual”. Essa “intelectualização do kitsch” é justificada com base em que a sociedade de massas, gostemos ou não, irá continuar conosco no futuro previsível; por conseguinte, sua “cultura”, a “cultura popular [não pode] ser relegada ao populacho." (ARENDT, 2005, p. 249).

E o que levou as massas a consumirem cultura? Para Arendt (2005) um novo estado de coisas toma conta da sociedade de massas, a partir do momento em que esta foi liberada do fardo do trabalho e passou a dispor de tempo de sobra para laser e para a “cultura”.

As aptidões descobertas no homem da massa, tais como adaptabilidade, excitabilidade, capacidade de consumo, seu egocentrismo e sua auto-alienação, todos esses traços surgiram, de acordo com Arendt (2005), naquilo que ela chama de “boa sociedade”.

Essa boa sociedade, que se manifesta desde os séculos XVIII e XIX, provavelmente tem origem nas cortes européias do período absolutista, dentre as quais se sobressai a corte de Luís XIV. É dessas festas das cortes, de entretenimentos, bisbilhotices e tagarelices que nasce o precursor do romance, do homem moderno da massa, do artista, que vai se encontrar em rebelião declarada com a sociedade.

Arendt (2005) alerta que a fuga da realidade por intermédio da arte e da cultura não fez somente aparecer a figura do filisteísmo bem educado ou cultivado, como provavelmente foi o fator decisivo da rebelião do artista contra seus novos protetores. Uma das diferenças entre sociedade e sociedade de massas, em termos de cultura pode-se perceber no destaque da autora:

“Talvez a principal diferença entre a sociedade e a sociedade de massas esteja em que a sociedade sentia necessidade de cultura, valorizava e desvalorizava objetos culturais ao transformá-los em mercadorias e usava e abusava deles em proveito de seus fins mesquinhos, porém não os “consumia”. Mesmo em suas formas mais gastas esses objetos permaneciam sendo objetos e tinham um certo caráter objetivo; desintegravam-se até se parecerem a um montão de pedregulhos, mas não desapareciam. A sociedade de massas, ao contrário, não precisa de cultura, mas de diversão, e os produtos oferecidos pela indústria de diversões são com efeito consumidos pela sociedade exatamente como quaisquer outros bens de consumo.” (ARENDT, 2005, p. 257).

Quanto à comparação entre cultura e entretenimento, deixaremos para detalhar melhor esse tema no próximo item.

4. PARA QUE SERVE A CULTURA? ENTRETENIMENTO, DIVERSÃO OU EMANCIPAÇÃO?

Torna-se necessário, antes de discorrermos sobre as diferenças entre a “verdadeira” cultura e os seus desdobramentos (entretenimento e diversão, por exemplo) falarmos sobre alguns entendimentos sobre os objetivos dessa verdadeira cultura.

Vejamos o que nos diz Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista, acerca das suas compreensões sobre a cultura moderna:

“Todas as objeções feitas ao modo comunista de produção e de apropriação dos produtos materiais têm sido feitas igualmente à produção e à apropriação dos produtos intelectuais (geistigen Produkte). Como para o burguês o fim da propriedade de classe equivale ao fim da própria produção, o fim da cultura de classe é para ele idêntico ao fim da cultura em geral.

A cultura (Bildung) cuja perda o burguês tanto lastima é para a imensa maioria apenas um adestramento para agir como máquina.” (MARX, ENGELS, 1998, p.p. 82-83).

Nessas afirmações, Marx e Engels apontam a cultura como um “adestramento” das massas. Isto significa que há um componente ideológico presente na cultura. Os pensadores do comunismo, assim como denunciam e fazem objeção ao modo de apropriação dos produtos materiais pela classe burguesa, também o fazem com relação aos produtos intelectuais. E, por fim, apontam também o temor da burguesia, não somente pela perda da propriedade de classe, ou seja, o fim da produção sob o seu domínio, mas também pelo fim da cultura de classe, que para essa burguesia representaria o fim da cultura em geral. Cabe destacar que Marx e Engels não propunham o fim da cultura, mas sim, o fim da cultura de classe.

Keach (2007), apresentando a obra Literatura e revolução de Trotski, comenta que:

“A arte como forma diferenciada de cultura – e entendida mais amplamente como “a soma orgânica de conhecimentos e informações que caracteriza toda sociedade” –, a um só tempo acompanha e completa a resposta de uma sociedade aos “problemas básicos” das necessidades vitais, da produção e distribuição.

É por meio dessa compreensão dinâmica acerca da relação social entre vida econômica e cultural que Trotski também sustenta o debate político a respeito do status da arte em voga na União Soviética em 1923-24.” (KEACH, 2007, p.p. 9-10)

Trotski (2007), em sua obra, falava que existiu à margem de Outubro um grupo de jovens literatos e poetas. Escreviam novelas, romances e poemas com mestria não muito individual e que utilizavam para obter reconhecimento. Afirma que, porém, a Revolução esmagou suas esperanças.

“Eles fazem crer, tanto quanto podem, que de fato nada se produziu, e nos seus versos e prosas despidos de originalidade exprimem uma arrogância ferida. Porém, de vez em quando, consolam suas almas fazendo secretamente gestos de descaso.

... Por que não floresceu, porém a poesia? Porque eles não criam a vida, não participam da construção de costumes e sentimentos, enfim, porque não passam de tardios imitadores, epígonos que se alimentam com o sangue de outras culturas. São plagiários de sons, cultos e talentos. Nada mais.” (TROTSKI, 2007, p.p. 47-48).

Trotski (2007) olhava o Futurismo com certo interesse, porque o considerava como um fenômeno europeu que, entre outras razões, não se fechou nos limites da arte, ao contrário do que afirmava a escola formal russa, mas desde o início se ligou aos acontecimentos políticos e sociais, sobretudo na Itália.

O aspecto da mercadorização da cultura e da sua desvalorização, enquanto essência e estética, da sua procura enquanto posição social também é lembrado, conforme se verifica nas afirmações que seguem:

“Em outras palavras, os objetos culturais foram de início desprezados como inúteis pelo filisteu até que o filisteu cultivado lançasse mão deles como meio circulante mediante o qual comprava uma posição mais elevada na sociedade ou adquiria um grau mais alto de auto-estima – quer dizer, mais alto do que, em sua própria opinião, ele merecia, quer por natureza ou merecimento. Nesse processo os valores culturais eram tratados como outros valores quaisquer, eram aquilo que os valores sempre foram, valores de troca, e, ao passar de mão em mão, se desgastaram como moedas velhas.” (ARENDT, 2005, p. 256).

Já falamos anteriormente que, na concepção de Arendt (2005), a sociedade de massas precisa mais de diversão do que de cultura, porque os produtos oferecidos pela indústria de diversões são oferecidos e consumidos pela sociedade exatamente como quaisquer outros bens de consumo. Comparando a indústria de divertimentos com os objetos culturais e tentando entender o problema da sociedade de massas sua relação com a cultura e com a indústria de divertimentos, a autora de Entre o passado e o futuro ainda se reporta ao fato de que:

“As mercadorias que a indústria de divertimentos proporciona não são “coisas”, objetos culturais cuja excelência é medida por sua capacidade de suportar o processo vital e de se tornarem pertences permanentes do mundo, e não deveriam ser julgadas em conformidade com tais padrões; elas tampouco são valores que existem para serem usados e trocados; são bens de consumo, destinados a se consumirem no uso, exatamente como quaisquer outros bens de consumo. ... Contudo, o problema não provém realmente da sociedade de massas ou da indústria de divertimentos que satisfaz suas necessidades. Ao contrário, visto não querer cultura, porém apenas divertimento, a sociedade de massas provavelmente é uma ameaça à cultura menor que o filisteísmo da boa sociedade; a despeito do mal-estar dos artistas e intelectuais, amiúde descrito – talvez devido em parte à sua incapacidade de penetrar na fastidiosa futilidade dos entretenimentos de massa – são precisamente as artes e as ciências, em contraposição todas as questões políticas, que continuam a florescer.” (ARENDT, 2005, p.p 258-259).

Percebe-se que o mais preocupante para a autora, não é tanto o consumismo pela sociedade de massas dos produtos da indústria do divertimento ou entretenimento, e sim o tratamento que é dado aos bens culturais e à própria cultura pelo filisteísmo da boa sociedade. A autora vê ainda o mal-estar dos artistas e intelectuais com relação a tal prática na cultura e talvez pela sua não penetração à futilidade dos entretenimentos de massa. Mas também ela vislumbra a continuidade do florescimento das artes e das ciências. Tal dilema continua, e cada vez mais a cultura toma formas diferentes, com todos os seus aparelhos ideológicos notoriamente e, em sua grande maioria, a serviço dos interesses de uma classe e, como dissemos no início deste item, servindo de adestramento para a maioria agir como máquina.

Com relação ao caráter emancipador ou não da cultura, lembramos que Trotski (2007) apresentou o Futurismo não como solução, mas como um elo indispensável para a solução dos problemas artísticos e literários. Contudo, ele entendia que essa época não viria de imediato, e que quando chegasse, a educação estética e cultural das massas trabalhadoras suprimiria o abismo entre a inteligência criadora e o povo, e a arte representaria um aspecto diferente daquele em que ele viveu.

Assim como a classe dominante criou sua própria cultura e sua própria arte, talvez fosse possível o proletariado criar a sua. Um dos grandes dilemas a ser enfrentado foi o referente ao tempo de duração da ditadura do proletariado e o seu período de transição enquanto classe.

5. CONCLUSÃO

Vimos quais as influências que o sistema capitalista e seus efeitos exercem também na cultura e na arte, tais como a mercadorização dos produtos e das relações sociais, a divisão do trabalho nesse sistema capitalista e as relações de consumo que se dão na esfera de produção e execução da literatura, da arte, enfim, de toda a cultura.

Vimos também as influências da burocracia na cultura, sobretudo na literatura, apresentada por Lukács (2010), e que essa tendência burocrática tende a eliminar a subjetividade do escritor; que essa burocracia é uma das ferramentais indispensáveis da sociedade capitalista; e ainda, que seu caráter ideológico leva ao imediatismo, à limitação do objeto, tentando impugná-lo, sob a falsa e espúria alegação, de que toda tentativa de transcendê-lo seria inviável.

Arendt (2005) apresenta uma concepção do filisteísmo cultural, do consumismo e da transformação da cultura e dos bens culturais em um balcão de negócios, de prestígio social, onde se verifica também um afastamento da essência, da estética, da áurea, e do “eu” do artista, o qual se revolta contra essa sociedade do consumo. Arendt (2005) chega a afirmar que a sobrevivência da cultura está menos ameaçada por aqueles que preenchem o tempo livre com entretenimento do que por aqueles que o ocupam com fortuitas artimanhas educacionais para melhorar sua posição social.

A busca do entretenimento e da indústria de diversões pela sociedade de massas é mais uma das ofertas que a sociedade burguesa lhes coloca à disposição.

Destaca-se ainda o papel da cultura na sociedade capitalista, nas visões de Marx e Engels, onde esses pensadores, em O Manifesto do Partido Comunista, denunciam o seu caráter ideológico, enquanto forma de adestramento das massas para agir como máquina.

Por fim, apresentamos o grande dilema existente nessa questão da cultura que, a partir da sociedade moderna, está sob o domínio e controle da classe burguesa, qual seja o de ser possível ou não uma cultura que emancipasse a humanidade.

Nesse sentido, o que pudemos apontar foi a tentativa dos pós-revolucionários de 1917, os quais conviveram com tal dilema, ou seja, o de encontrar uma cultura emancipadora, própria da classe proletária, uma cultura que servisse aos interesses da Revolução.

É sabido que os formuladores do socialismo científico não detiveram tanta atenção a essa questão pelo fato de se dedicarem às questões mais geais e profundas sobre a sociedade. Porém, nessas questões gerais formularam teorias que ajudaram a pensar a questão da arte e da cultura, como uma questão humana, como produto da vida social, que deve refletir, não só pelo conteúdo, como pela forma, as realidades de uma época e todas as suas contradições.

A grande questão enfrentada pelos revolucionários marxistas até os dias de hoje é saber se uma vez libertado das teias do capital o proletariado criaria sua própria cultura, se as condições econômicas, sociais e políticas o permitiriam e como construir uma cultura e uma arte proletárias num Estado em vias de dissolução, ou seja, num regime de transição e onde o próprio proletariado estaria em vias de desaparição como classe.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.

KEACH, William. Apresentação. In: TROTSKI, Leon. Literatura e revolução. Ed. 2007. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

LUKÁCS, György. Marxismo e teoria da literatura. 2ª ed. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2010.

ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 8ª ed. Petrópolis – RJ: Editora Vozes, 1998.



[1] Aluna do Curso de Direito da Unidade de Ensino Superior Dom Bosco - UNDB


 

Como referenciar este conteúdo

GóES, Ana Rosa Araújo Farias de. A modernização cultural: Mercadorização, filisteísmo e entretenimento. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 15 Jun. 2018. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/sociedade/336719-a-modernizacao-cultural-mercadorizacao-filisteismo-e-entretenimento. Acesso em: 20 Nov. 2018

 

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