Religião: Salvação ou sustentáculo do capitalismo?

Jorge de Jesus Ferreira de Souza Filho[1]

RESUMO

As concepções e entendimentos sobre a religião são as mais diversas desde a antiguidade até os nossos dias. Uma de suas conceituações filosóficas afirma que ela surge a partir do entendimento do homem sobre sua consciência, e, portanto, do medo da morte, e a esperança da preservação dos prazeres, nesta ou em outra vida. É nesse bojo que vão surgir entendimentos do papel da religião na vida dos indivíduos e na sociedade. O presente artigo se propõe a descrever vários aspectos do fenômeno religioso, tentando contemplar algumas das correntes filosóficas e sociológicas que tratam do tema, levando em consideração seu olhar crítico, e tendo como foco o aspecto da relação entre alguns sistemas religiosos e o contexto social, histórico, político e, sobretudo econômico, onde se inserem. A ética, a ordem econômica e social e a ideologia estarão presentes nas abordagens que serão tratadas nesse artigo. Ressalta-se a importância do posicionamento de alguns teóricos sobre o tema, com o fim de verificarmos sua aproximação ou distanciamento das suas considerações epistemológicas.

Palavras-chave: Religião. Ética. Ideologia. Capitalismo. Ascetismo.

1. INTRODUÇÃO

A religião, uma das instituições mais antiga das sociedades, foi concebida para uns como um elo de ligação entre o natural e o sobrenatural, como a esperança de um mundo melhor, em alguns casos no mundo terreno, e em outros no mundo do divino.

Há o entendimento sobre o nascimento da religião a partir do ato da consciência humana e, conseqüentemente, do medo da morte ou a preservação dos prazeres da vida.

Filósofos gregos, filósofos clássicos como Feuerbach, Hegel, Marx, pensadores economistas e sociólogos como Engels, Weber e tantos outros se debruçaram em estudar detalhadamente o fenômeno religioso, suas característica, sua ideologia e sua relação com os indivíduos isoladamente e com a sociedade.

O Sociólogo e economista Max Weber, por exemplo, deu um tratamento investigativo e crítico a esse fenômeno, em uma de suas obras talvez a mais complexa e profunda. Trata-se de um ensaio intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, no qual ele aborda elementos históricos, estatísticos, de composição ética e moral de determinados indivíduos da sociedade em que analisa, observando sobretudo a relação do modo econômico de viver desses indivíduos com o que ele chama de “espírito do capitalismo”.

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é, para alguns autores, uma das tentativas mais importantes, em toda a história das ciências sociais e históricas, de chegar-se a uma teoria crítica da mudança e do desenvolvimento.

Por outro lado, Marx e Engels também observam e estudam o fenômeno religioso a partir da sua relação com as lutas de classe existentes na sociedade. Analisam o aspecto entorpecedor, conservador e conciliador que a instituição religiosa assumiu nas diversas sociedades objeto dos seus estudos. Porém, alguns marxistas contemporâneos, como por exemplo, Michael Löwy, entendem que a emergência do cristianismo revolucionário e da Teologia da Libertação na América Latina, a partir do século XX, abrem um novo capítulo histórico que remete a novas e excitantes questões, para as quais uma renovação da análise marxista sobre a religião deve se fazer presente.

2. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE RELIGIÃO

Das atividades culturais ligadas ao ser humano, excetuando-se aquelas relacionadas diretamente à sobrevivência do indivíduo e da espécie, tais como a coleta, o preparo de alimentos, a proteção e segurança contra ataques de animais selvagens e fenômenos da natureza, dentre outras, podemos afirmar que a religião é a mais antiga e existente em todas as culturas.

Para Chaui (2005) tal afirmação se justifica a partir do entendimento de que os homens, ao descobrirem que são humanos portadores de experiência e conscientes das coisas, dos outros e de si mesmos, passa a diferenciar-se dos outros seres da natureza, graças à linguagem e ao trabalho. Essa tal característica da consciência seria, para essa autora, a condição e causa primordial da religiosidade.

A palavra religião vem do latim religio, composta do prefixo re, que quer dizer “outra vez”, e do verbo ligare, que quer dizer “ligar, unir, vincular”. Portanto a religião é vínculo, e as partes vinculadas são o mundo profano e o mundo sagrado, respectivamente sendo a natureza e as divindades que a habitam ou se encontram em um lugar separado desta.

Entretanto, Durkheim (1996) contesta esta visão da separação entre o sagrado e o profano e, manifestando-se acerca da idéia de divindade na religião, assim se pronuncia:

Contudo, por mais evidente que possa parecer essa definição, em conseqüência de hábitos de espírito que devemos à nossa educação religiosa, há muitos fatos aos quais ela não é aplicável e que, no entanto, dizem respeito ao domínio da religião. Em primeiro lugar, existem grandes religiões em que a idéia de deuses e espíritos está ausente, nas quais, pelo menos, ela desempenha tão-só um papel secundário e apagado. É o caso do budismo. (DURKHEIM, 1966, p. 12).

Nas mais diversas culturas o sagrado representou e ainda representa uma qualidade excepcional, boa ou má, benéfica ou maléfica, protetora ou ameaçadora, que um ser possui e que o separa e distingue dos outros, embora em muitas culturas todos os seres possuam algo sagrado, pelo que se diferenciam uns dos outros. O sagrado pode suscitar devoção e amor, repulsa e ódio e ainda o respeito feito de temor. Para Marilena Chaui, nascem assim o sentimento religioso e a experiência da religião e ainda, “A religião pressupõe que, além do sentimento da diferença entre natural e sobrenatural, haja o sentimento da separação entre os humanos e o sagrado, mesmo que este habite nos humanos e na natureza” (Chaui, 2005, p. 253).

Um dos assuntos bastante mencionado nos temas religiosos é o que trata das leis divinas. Segundo Chaui (2005), para se falar de lei divina é preciso falar em deuses, que são forças com poderes misteriosos, personificadas e por isso são vontades. Misteriosos, porque suas decisões são imprevisíveis e, muitas vezes, incompreensíveis para os critérios humanos de avaliação. Vontades, porque o que acontece no mundo manifesta um querer pessoal, supremo e inquestionável. A religião, ao estabelecer o laço entre o humano e o divino, procura um caminho pelo qual a vontade dos deuses seja benéfica e propícia aos seus adoradores.

A vontade divina pode tornar-se parcialmente conhecida dos humanos na forma de leis, isto é, decretos, mandamentos, ordenamentos, comandos emanados da divindade. Assim como a ordem do mundo decorre dos decretos divinos, ou seja, da lei ordenadora à qual nenhum ser escapa, também o mundo humano está submetido a mandamentos divinos, dos quais os mais conhecidos na cultura ocidental, são os Dez Mandamentos, entregues por Jeová a Moisés, as Doze Tábuas da Lei que fundaram a república romana, bem como as leis gregas explicitadas na Ilíada e na Odisséia, de Homero, bem como nas tragédias.

Cabe destacar ainda em Chaui (2005), que o conhecimento da lei e da vontade divinas são essenciais para a narrativa da história sagrada e para a realização correta e eficaz dos ritos. Em conseqüência, as religiões tendem a instituir um grupo de indivíduos, separados do restante da comunidade, encarregados de transmitir a história sagrada, interpretar a lei e os sinais divinos, realizar os ritos e marcar o espaço-tempo sagrados.

Tornam-se os portadores simbólicos do sagrado e seus mediadores indispensáveis. Aí se destacam magos, astrólogos, profetas, xamãs, sacerdotes, os quais possuem poderes especiais. Deve-se alertar, porém, que tais personagens pouco a pouco formam um grupo separado, uma classe social com exigências e poderes próprios, que privam a comunidade da presença direta do sagrado, e com isso distorcem a função originária que possuíam, transformando-a em domínio e poder sobre a comunidade.

3. A RELIGIÃO SOB O OLHAR CRÍTICO

Chaui (2005) também faz referência às primeiras críticas à religião, provenientes do pensamento ocidental, dos filósofos pré-socráticos, que criticaram o politeísmo e o antropomorfismo dos deuses. Afirmavam que, do ponto de vista da razão, a pluralidade dos deuses é absurda, pois a essência da divindade é a plenitude infinita, não podendo haver senão uma potência divina. A crítica desses pré-socráticos também se voltava contra o antropomorfismo, pelo fato de atribuir qualidades e propriedades aos humanos num grau superlativo, isto é, como se os deuses não fossem senão super-homens. Achavam, de acordo com a razão, que a qualidade de supra-humanos estava reservada aos seres divinos. Posteriormente, essas críticas foram retomadas e sistematizadas por Platão, Aristóteles e pelos estóicos. Marilena Chaui ressalta ainda que o grego Epicuro e o latino Lucrécio, também criticando a religião, disseram que ela é fabulação ilusória, nascida do medo da morte e da natureza, é pura superstição. Outros seguidores dessa crítica religiosa foram os libertinos no século XVI e o filósofo Espinosa, no século XVII. Para esses pensadores, os homens têm medo de que males lhes aconteçam e esperança de que bens lhes advenham. Movidos por essas duas paixões, não confiam em si mesmos nem nos conhecimentos racionais para evitar males e atrair bens. Chaui (2005) conclui que, passional ou irracionalmente, os homens julgam que a origem dos males e bens encontra-se em forças caprichosas, como a sorte e a fortuna, e passam a acreditar nelas como poderes que os governam arbitrariamente. Essa crença é a superstição.

No século XIX, o filósofo Feuerbach criticou a religião como alienação. Nessa concepção, de acordo com Chaui (2005), os seres humanos vivem, desde sempre, numa relação com a natureza e desde muito cedo sentem necessidade de explicá-la e o fazem analisando a origem das coisas e os diversos acontecimentos da vida. “Para isso, criam os deuses. Dão-lhes forças e poderes que exprimem desejos humanos” (Chaui, 2005, p. 264). Fazem-nos criadores da realidade e pouco a pouco passam a concebê-los como governantes dessa realidade, dotados de forças e poderes maiores que o dos humanos.

Nesse movimento, de geração a geração, os seres humanos esquecem que foram os criadores da divindade, invertem as posições e julgam-se criados pelos deuses. A alienação religiosa é esse longo processo pelo qual os homens não se reconhecem no produto de sua própria criação, transformando-o num outro, chamado alienus, estranho, distante, poderoso e dominador. O domínio da criatura, deuses, sobre os criadores, homens, é a alienação.

A análise de Feuerbach foi retomada, de forma mais contundente, por Karl Marx, onde é conhecida a sua célebre expressão: “A religião é o ópio do povo” (Marx, 1969a, p. 304). Com tal afirmação, Marx pretendeu mostrar que as religiões, sobretudo as religiões da salvação, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, amortecem a combatividade dos oprimidos e explorados, porque lhes promete uma vida feliz num futuro incerto, num outro mundo. Na esperança de uma felicidade e justiça no outro mundo, os despossuídos, explorados e humilhados deixam de combater as causas de suas misérias neste mundo.

Entretanto, segundo Löwy (2007), vemos em Marx outra afirmação que, em geral, não é lembrada. Segundo esse autor, embora Marx tenha sido um duro crítico da religião, mostra o lado dual da mesma, presente na expressão “A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão da dor real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração do mundo sem coração, tal como o é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo” (Marx, 1969a, p. 304). Aqui ele procura mostrar que a religião é uma forma de conhecimento e explicação da realidade, usada pelas classes populares. Quando se refere à religião como dor real e o protesto contra ela, suspiro da criatura oprimida, deixa margem para interpretações acerca de um papel da religião como contestadora dos poderes tirânicos. Daí pode-se concluir que, se por um lado, na religião há a face do ópio, do entorpecimento e insensibilidade com relação aos males que oprimem os homens, e que leva ao conformismo, há, por outro lado, a face combativa dos que usam o saber religioso para combater as instituições legitimadas pelo poder teológico-político.

4. O CARÁTER ÉTICO E IDEOLÓGICO DA RELIGIÃO

Começamos aqui por destacar uma das obras mais importantes em toda a história das ciências sociais, com uma teoria crítica que aborda, sobretudo, a ética de uma religião, e seu envolvimento com a mudança e com o desenvolvimento do sistema capitalista. Trata-se da obra de Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, uma obra complexa e profunda, a qual constitui um marco da compreensão dos fenômenos históricos e sócias, na qual o indivíduo, religioso, ético e capitalista, bem como suas ações sociais são bastante analisados e interpretados de forma histórico-social-econômica por Max Weber.

Weber (2001) compara várias religiões no tocante, principalmente a sua conduta ética, destacando o calvinismo como a religião que contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento do capitalismo moderno. O fundamento da sua tese está no fato de o calvinismo defender a doutrina da predestinação, o que significava que o indivíduo já nascia eleito, e conseqüentemente salvo, por Deus, ou condenado ao inferno. Isso se tornava um grande tormento psicológico para um calvinista da época, em virtude da indagação: salvação ou condenação? O modo de vista do homem calvinista era racionalizado e sistemático, de tal forma que qualquer atividade realizada era para aumentar a glória do Senhor. Em outras palavras, praticava-se um ascetismo racional, o qual significava que tudo deveria ter um propósito lógico, que justificasse sua execução. Como por exemplo, assim como o sexo seria para procriação, o esporte
seria para manutenção da saúde. Imbuídos desse pensamento, qualquer atividade
com finalidade lúdica ou obtenção de prazer carnal seria condenado por Deus. A solução técnica encontrada pelos calvinistas para se ter certeza da salvação foi através do trabalho. Seu sucesso material, oriundo do trabalho, seria traduzido como uma bênção de Deus. Quanto mais riquezas alcançadas, e com isso maior acúmulo de capital, maior seria a certeza de ser um homem escolhido por Deus. Antagonicamente, um homem pobre seria, na visão calvinista, um predestinado ao inferno.

O homem calvinista dedicava seu tempo a trabalhar como meio de se certificar da salvação e não como meio de obtê-la, já que segundo o calvinismo o homem já nasce predestinado. Isso levou a formação de um grande número de postos de trabalho e de mão-de-obra especializada. Porém, a riqueza alcançada não seria utilizada de forma egocêntrica ou para satisfação de vaidades pessoais, e sim somente poderia ser usufruída como meio de subsistência e que servisse ao aumento da glória do Senhor. Esse comportamento levou os calvinistas ao acúmulo de riquezas e a eliminação de gastos desnecessários, o que, conseqüentemente, levou a um aumento de poupança, que por sua vez levou ao aumento de capital através dos juros, fornecendo dessa forma a base necessária ao desenvolvimento capitalista moderno.

Segundo Weber, o luteranismo não contribuiu para o desenvolvimento do espírito do capitalismo devido a sua ética se apoiar na doutrina pela fé. Portanto um luterano não precisaria de um sinal material para ter a certeza da salvação. Bastaria unicamente a fé em Deus. Vejamos o que nos diz Weber acerca desse assunto:

“Em primeiro lugar, quase não é preciso apontar para o fato de Lutero não poder ser identificado ao “espírito do capitalismo”, pelo menos no sentido em que temos usado esse termo, nem, aliás, em qualquer outro sentido. Mesmo aqueles círculos religiosos, que mais fervorosamente costumam cultivar o feito da reforma, não são em seu conjunto amigos de qualquer forma de capitalismo, e o próprio Lutero teria sem dúvida repudiado violentamente qualquer parentesco com uma mentalidade como a de Franklin.” (WEBER, 2001, p. 65).

O repúdio de Lutero a Franklin, a que se refere Weber, é quanto ao utilitarismo e ethos particular do americano, os quais são recomendados por Benjamin Franklin na forma de “ser bom pagador”, “crédito é dinheiro”, “tempo é dinheiro”, “dinheiro é de natureza prolífica”, o que assume um caráter ético de máxima orientadora da vida e o que contribui substancialmente para o “espírito do capitalismo”.

Weber (2008) ainda nos diz que a empresa dos dias atuais é um imenso cosmos, no qual o indivíduo nasce, e que se apresenta a ele, pelo menos como indivíduo, como uma ordem social inalterada, na qual ele deve viver. Para esse pensador, a empresa moderna obriga o indivíduo, tendo em conta que ele é envolvido no sistema de relações de mercado, a se conformar às regras de ação capitalistas. Conclui Weber: “O fabricante que permanentemente se opuser a estas normas será economicamente eliminado, tão inevitavelmente quanto ao trabalhador que não puder ou não quiser adaptar-se a elas será lançado à rua sem trabalho”. (Weber, 2001, p. 43).

Assim como a fé luterana, o catolicismo para Weber também não poderia ter contribuído para fins do espírito do capitalismo, já que nessa corrente religiosa os pecados são perdoados por absolvição, o que faz com que seus membros se sintam confortáveis em relação à vida eterna, pois basta a confissão para serem perdoados.

Agora passaremos a verificar o que pensam Marx, Engels e os teóricos do marxismo sobre a religião e sua relação com a ordem econômica vigente em sua época. Já nos referimos anteriormente com relação a essa questão quando tratamos de algumas críticas à religião. Entretanto, torna-se importante trazermos, nesse item, as idéias de outros autores, com o fim de tentarmos verificar se há uma aproximação, distanciamento ou antítese com relação ao pensamento de Weber.

Marx e Engels entendiam a religião, no século XIX, como um baluarte de reação, obscurantismo e conservadorismo. Esse ponto de vista ainda se aplica a muitas instituições católicas – a Opus Dei é o exemplo mais claro -, ao uso fundamentalista das principais confissões (cristã, judia, muçulmana), à maioria dos grupos evangélicos e à maioria das novas seitas religiosas, algumas das quais como a Igreja do reverendo Moon, que são nada mais do que uma hábil combinação de manipulações financeiras, lavagem cerebral e anticomunismo fanático. Imaginemos onde se enquadraria a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo.

Porém, como já foi mostrado anteriormente, a partir de Michael Löwy, a emergência do “cristianismo revolucionário” trouxe novas interpretações acerca do papel da religião. Löwy (2007) entende que apesar de alguns marxistas terem interpretado como equívoco a relação de alguns trabalhadores cristãos e camponeses com uma Igreja considerada como corpo reacionário, bem como o envolvimento do Padre Camilo Torres, em 1966 com a guerrilha colombiana, como um caso excepcional, o crescente compromisso de cristão, muitos deles religiosos e padres, com as lutas populares, e aí temos o exemplo da massiva inserção desses indivíduos na revolução sandinista, mostrou claramente a necessidade de um novo enfoque.

Ainda em Löwy (2007), os marxistas desconcertados ou confusos por estes desenvolvimentos ainda recorrem à distinção usual entre as práticas sociais vigentes destes cristãos, e sua ideologia religiosa, definida como necessariamente regressiva e idealista. Entretanto, com a teologia da liberação vemos a aparição de pensadores religiosos que utilizam conceitos marxistas e convocavam para lutas pela emancipação social.

Para Löwy (2007) a expressão da religião como ópio do povo não é uma totalidade do pensamento de Marx sobre o tema, bem como não é de toda atribuída somente ao nobre teórico do comunismo. Alguns pesquisadores e estudiosos afirmam que em diversos contextos e nos escritos de Immanuel Kant, Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, Henrich Heine, dentre outros, tal afirmação e pensamento já faziam parte.

Alguns autores indicam que foi só depois, particularmente em A Ideologia Alemã (1846), que o característico estudo marxista da religião como uma realidade social e histórica começou. O elemento chave deste novo método para a análise da religião é aproximar-se dela como uma das diversas formas de ideologia, ou seja, da produção espiritual de um povo, da produção de idéias, representações e consciência, necessariamente condicionadas pela produção material e as correspondentes relações sociais.

Löwy (2007) ainda afirma que, apesar de seu pouco interesse pela religião, Marx prestou atenção à relação entre protestantismo e capitalismo. Diversas passagens de O Capital fazem referência à contribuição do protestantismo à acumulação primitiva de capital. Por exemplo, por meio do estimulo à expropriação de propriedades da Igreja e campos comunais. Nos Grundrisse, formula meio século antes do famoso ensaio de Max Weber, que já tratamos anteriormente, o seguinte comentário significativo e revelador sobre a íntima associação entre protestantismo e capitalismo: “O culto do dinheiro tem seu ascetismo, seu auto-abnegação, seu auto-sacrifício à economia e a frugalidade, desprezo pelo mundano, prazeres temporários, efêmeros e fugazes; o correr atrás do eterno tesouro. Daqui a conexão entre o Puritanismo inglês ou o Protestantismo holandês e o fazer dinheiro” (Marx, 1968: 749-750, Tomo I; 1973: 232; 1960a: 143). A semelhança –não a identidade– com a tese do Weber é surpreendente, mais ainda uma vez que o autor da Ética Protestante não pôde ter lido esta passagem (os Grundrisse foram publicados pela primeira vez em 1940).

Por outro lado, Marx se refere ao capitalismo como uma “religião da vida diária” apoiada no fetichismo das mercadorias. Descreve o capitalismo como “um Moloch” que exige o mundo inteiro como um sacrifício devido, e o progresso do capitalismo como um “monstruoso Deus pagão, que só queria beber néctar na caveira da morte”. Sua crítica à economia política está salpicada de freqüentes referências à idolatria.

Segundo ensinamento de Löwy (2007), Friedrich Engels apresentou, provavelmente por sua educação pietista, um interesse muito maior que o de Marx pelo fenômeno religioso e seu papel histórico. A contribuição principal de Engels ao estudo marxista da religião é sua análise da relação de representações religiosas com as lutas de classes. Além da polêmica filosófica de “materialismo contra idealismo”, ele estava interessado em entender e explicar formas históricas e sociais concretas de religião. Em Engels, a cristandade não apareceu como em Feuerbach, como uma “essência” atemporal, mas sim como um sistema cultural experimentando transformações em diferentes períodos históricos. Em primeiro lugar, a cristandade foi uma religião de escravos, depois a ideologia estatal do Império Romano, depois vestimenta da hierarquia feudal e, finalmente se adapta à sociedade burguesa. Assim aparece como um espaço simbólico no que se enfrentam forças sociais antagônicas.

5. CONCLUSÃO

O pensamento de Max Weber acerca da ética religiosa, sobretudo aquela que se refere ao protestantismo ascético, nos mostrou algumas características importantes para a compreensão dessa lógica religiosa, como a vida moral eclesiástica, a compreensão sobre os bens, a riqueza e a vocação para o trabalho como glorificação à obra de Deus e a presença de um racionalismo, sobretudo o econômico, presente em sua obra. Torna-se importante destacar a ideologia presente na obra, sobre a qual, no nosso entendimento, se assentou a base do trabalho investigativo de Weber: a verificação da relação entre os diversos modos de aquisição econômica, bem como sua relação com o modo de viver do indivíduo e, conseqüentemente, da sociedade estudada, com o espírito do capitalismo.

Tivemos em Marx e Engels uma concepção da religião, a princípio, como sendo um baluarte de reação, obscurantismo e conservadorismo. Porém, vimos mais adiante o próprio Marx em Sobre a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel já observando um caráter dual do fenômeno religioso, quando aponta que a religião é ao mesmo tempo a expressão da dor do real e o protesto contra ela. E o mesmo Marx em A Ideologia Alemã também dando um novo tratamento ao estudo da religião, observando sua realidade histórica e social. Observa-se também em Engels, analisando o fenômeno religioso pelo seu papel histórico, fazendo uma relação das representações religiosas com as lutas de classe, bem como fazendo uma abordagem sobre as diferentes etapas históricas do cristianismo, onde se comportou ora combatendo, ora sustentando a ordem burguesa dominante.

Para não ficar somente em Marx e Engels como comunistas críticos da religião, exemplificaremos aqui a posição de Rosa Luxemburgo, fervente atéia, que atacou menos a religião que as políticas e programas reacionários da Igreja. Em um dos seus ensaios críticos “Igreja e Socialismo”, em 1905, afirmou que os socialistas modernos eram mais leais aos princípios originais da cristandade que o clero conservador da sua época. E arrematava dizendo que os socialistas lutavam por uma ordem social de igualdade, liberdade e fraternidade. Para os padres que honestamente quisessem implementar na vida da humanidade o princípio cristão “ama o próximo como a ti”, Rosa dizia que deveriam dar boas vindas ao movimento socialista.

A emergência do cristianismo revolucionário e a teologia da libertação devem, portanto, ser entendidos como uma abertura no capítulo histórico, propondo um novo debate das concepções marxistas sobre a religião.

Vimos que algumas concepções religiosas de Marx e Weber se aproximam, no tocante ao papel preponderante da religião, sua ideologia e sua aproximação com o capitalismo, embora tenhamos a compreensão de que Marx e Engels tenham sido mais contundentes em suas críticas, quando alertam para o cuidado das relações da religião com a sociedade, sobretudo no que diz respeito ao amortecimento das lutas de classe.

REFERÊNCIAS

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LÖWY, Michael. A guerra dos deuses: Religião e política na América Latina. Petrópolis, Vozes, 2000.



[1] Aluno do Curso de Direito da Universidade Estadual do Maranhão


 

Como referenciar este conteúdo

FILHO, Jorge de Jesus Ferreira de Souza. Religião: Salvação ou sustentáculo do capitalismo?. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 16 Abr. 2018. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/filosofia-do-direito/336575-religiao-salvacao-ou-sustentaculo-do-capitalismo. Acesso em: 16 Out. 2018

 

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