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Observações sobre o plano do Professor Hayek

Ludwig von Mises[1]

Nos últimos sessenta ou oitenta anos, em todos os países, eminentes cidadãos se alarmaram com a crescente onda de totalitarismo. Eles quiseram preservar a liberdade e a civilização ocidental e organizar um movimento ideológico e político para cessar o progresso sobre o caminho da servidão.

Todos esses esforços falharam completamente; os partidos e os grupos dedicados à sua realização desapareceram rapidamente do cenário público. Até mesmo os seus nomes caíram no esquecimento.

A causa desta lamentável falha foi que os fundadores desses movimentos não conseguiram se emancipar da influência das próprias ideias dos inimigos da liberdade. Eles não perceberam que a liberdade está indissociavelmente associada à economia de mercado. Eles endossaram de um modo geral a parte crítica do programa socialista. Eles estavam comprometidos com uma solução moderada, com o intervencionismo.

O que esses intelectuais amedrontados não compreenderam é que todas aquelas medidas de interferência do governo sobre os negócios, que eles apoiavam, eram abortivas. Eles produziram, inevitavelmente, um estado de coisas que, sob o ponto de vista de seus próprios interesses, era mais indesejável do que as condições da livre economia de mercado que projetaram alterar. Se os governos e os povos não querem consentir com este resultado insatisfatório, nem abandonar quaisquer interferências adicionais sobre o mercado para retornar à plena liberdade econômica, eles devem então adicionar às suas primeiras medidas mais e mais regulamentação até que, finalmente, o Nazi Zwangswirtschaft [controle nazista da economia], com toda as suas implicações, emerja. Todos esses males que os intervencionistas responsabilizam a economia de mercado são os produtos desta interferência supostamente benéfica. Expansão de crédito resulta em um boom artificial e, em seguida, em um crash. Salário mínimo, seja imposto por decreto governamental ou pela pressão e compulsão sindical, resulta em massivo desemprego, prolongado ano após ano. Os efeitos perniciosos do protecionismo e da inflação são óbvios.

Aquele que quiser preservar a liberdade não deve repetir como um papagaio as frases prontas dos totalitários. Este não deve falar sobre a compatibilidade da ordenação econômica e da liberdade individual. Este não deve protestar que abomina o laissez faire.

Laissez-faire não significa: deixe que os males permaneçam. Significa: deixe que os consumidores, ou seja, o povo, decida – por meio de suas compras e abstenções de compra – o que deve ser produzido e por quem. A alternativa ao laissez faire consiste em confiar estas decisões a um governo paternal. Não há meio-termo. Ou os consumidores são supremos ou o governo.

É inútil falar de interferência governamental para tornar as pessoas livres e para restabelecer a concorrência. O que cria liberdade – política, intelectual e religiosa, assim como econômica – não é a interferência do governo, mas a economia de mercado. Nenhuma interferência governamental é necessária para impedir o surgimento de preços monopolísticos. Não é o livre mercado, mas os governos que alimentam a monopolização. O tão falado declínio da competição é um produto do protecionismo, de acordos intergovernamentais de comércio de commodities e de muitas outras medidas semelhantes. Lembre-se da Administração de Recuperação Nacional do New Deal. Lembre-se da história dos cartéis alemães, tal como narrado no meu livro Omnipotent Government (pp. 66-78, 158-159, 245-251).

Aqueles que querem preservar a liberdade devem pedir o livre comércio, tanto nacional como estrangeiro, o padrão-ouro e o restabelecimento do direito exclusivo dos governos para recorrer à coerção violenta e à repressão (isso inclui abolir o privilégio sindical de "punir" aqueles que abandonam as greves).

Claro que todas essas coisas são muito impopulares. Mas se elas fossem populares, não haveria a necessidade de um novo partido. O político prático deve levar em consideração a reação dos eleitores ao seu programa se quiser obter sucesso no curto prazo. Ele deve transigir. Mas o intelectual pioneiro de um mundo melhor não está confinado às preocupações da Realpolitik. Seu programa deve ser consistente. É somente um programa consistente que triunfa no longo prazo.

O ponto fraco no plano do Professor Hayek é que ele depende da cooperação de muitos homens que são conhecidos pelo seu apoio ao intervencionismo. É necessário esclarecer este ponto antes de a reunião começar. No meu entender sobre o plano, não é uma tarefa para esta reunião discutir novamente se um decreto governamental ou se uma ordem sindical tem o poder de elevar o padrão de vida das massas. Se alguém quiser discutir esses problemas, não há necessidade de fazer uma peregrinação ao Mont Pelerin. Este alguém pode encontrar na sua própria vizinhança ampla oportunidade de fazê-lo.

31 de dezembro de 1946

Ludwig von Mises

Tradução por Gustavo Henrique Carvalho Schiefler

Publicado originalmente em: MISES, Ludwig von. Observations on Professor Hayek’s Plan. In: Libertarian Papers 1, 2 (2009). Disponível em:  http://libertarianpapers.org/article/2-observations-on-professor-hayeks-plan/ Acesso em: 25 jan. 2016



[1] Ludwig von Mises (1881–1973) foi autor de Human Action: A Treatise on Economics (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1949; 2nd ed. New Haven, Conn.: Yale University Press, 1963; 3rd ed. Chicago: Regnery, 1966. Scholar’s edition. Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 1998). Este artigo é um memorando datilografado, anteriormente inédito, datado de 31 de dezembro de 1946; o original deste memorando encontra-se na Grove City College Archive: MPS files. Publicado pela primeira vez no seguinte periódico: Libertarian Papers 1, 2 (2009). Disponível em: http://libertarianpapers.org/article/2-observations-on-professor-hayeks-plan/ Acesso em: 25 jan. 2016

Nota do editor: Este memorando foi escrito por Mises em resposta a solicitação de Henry Hazlitt para o oferecimento de comentários e preocupações sobre a proposta inicial de F. A. Hayek para o que se tornaria a Mont Pèlerin Society. Ver Guido Hülsmann, Mises: The Last Knight of Liberalism (Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 2007), pp. 865 et seq., que discute o contexto deste memorando; ver também a menção deste memorando em “History and Principles of the Property and Freedom Society,” www.propertyandfreedom.org/principles.html. 

 

Como referenciar este conteúdo

MISES, Ludwig von. Observações sobre o plano do Professor Hayek. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 10 Nov. 2016. Disponível em: investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/economia/335259-observacoes-sobre-o-plano-do-professor-hayek. Acesso em: 21 Set. 2017

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