Introdução. O fordismo. Do fordismo à acumulação flexível. Teorizando a Transição. Acumulação Flexível – transform

Introdução. O fordismo. Do fordismo à acumulação flexível. Teorizando a Transição. Acumulação Flexível – transformação sólida ou reparo temporário? - Fichamento

HARVEY, David. Introdução. O fordismo. Do fordismo à acumulação flexível. Teorizando a Transição. Acumulação Flexível – transformação sólida ou reparo temporário? P. 117 a p. 184.


Responda o que segue, com base no texto de Harvey sobre as transformações no capitalismo no final do século XX:

Como caracterizar o fordismo?

Simbolicamente, é ao ano de 1914 que nos remetemos quando do intuito de sinalizar o início do sistema fordista de produção em massa. Sob vários aspectos, entretanto, as inovações tecnológicas e organizacionais implementadas por Henry Ford representam um reflexo de tendências já muito bem estabelecidas, tais como a forma corporativa de organizações de negócios, a racionalização de antigas tecnologias, a divisão detalhada do trabalho preexistente, a separação entre gerência, concepção, controle e execução. O que há de novo é a notável apreensão de que produção de massa é também consumo de massa, caracterizando um sistema inovador de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controle e gerência que culmina em uma sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista. Nas palavras de Gramsci, “o maior esforço coletivo até então para criar”, não apenas um novo tipo de trabalhador, também um novo tipo de homem. Ainda que não tivesse consciência dos profundos problemas sociais, psicológicos e políticos que o fordismo poderia trazer, era inerente à Ford a crença de que este novo tipo integrador de sociedade seria produto direto da simples adequação ao poder corporativo. Aos trabalhadores cabia, apenas, certo grau de probidade moral e a noção da auto-ajuda, a fim de garantir a correspondência entre as necessidades e expectativas da corporação e da massa de trabalhadores.

O estabelecimento do sistema fordista remonta, sob a perspectiva de Harvey, a uma gama de decisões individuais, corporativas, institucionais e estatais, feitas se não ao acaso, ao improviso característico da fuga das crises do capitalismo, principalmente no que diz respeito à época da Grande Depressão da década de 1930. Ao estabelecimento do fordismo dizem respeito tentativas altamente diversificadas de alcançar uma situação política, institucional e social que pudesse abarcar a incapacidade do capitalismo de regular as condições fundamentais para a sua própria reprodução como sistema. Em se tratando do período entre guerras, e ao esforço delineador da época, é fato a racionalização em prol da otimização da eficiência – fato este que nem capitalistas nem trabalhadores seriam capazes de recusar. Para este período, são dois os fatores que o autor levanta, a fim de explicar a impossibilidade da disseminação do sistema em questão: 1) a incompatibilidade entre o estado das relações de classe no restante do mundo capitalista para com as condições supostas por Ford, na qual os trabalhadores deveriam se habituar a longas horas de jornada rotinizada, pouco controle sobre as atividades exercidas, o ritmo e a organização do processo como um todo; e 2) os modos e mecanismos de intervenção estatal, caracterizados pela procura por um conjunto de estratégias administrativas científicas e poderes estatais que estabilizassem o capitalismo sem incorrer na estase democrática dos anos 20, tampouco na repressão e irracionalidade típica da beligerância e do nacionalismo estreito das propostas nacional-socialistas.

A consolidação se deu, efetivamente, após 1945, quando o fordismo constituiu o fundamento de um período de incremento do crescimento econômico, aliando-se com o keynesianismo, e possibilitando um surto de expansões de alcance mundial, até mesmo em nações descolonizadas. É necessário ressaltar, ainda, a dependência a uma séria de condições, compromissos assumidos pelos diferentes agentes da expansão – Estados, capital corporativo, trabalho organizado - para que esta pudesse realmente se concretizar, sintetizando uma modalidade alternativa de equilíbrio de poder. Os sindicatos, elementos de especial relevância, terminaram por ser submetidos a uma disciplina legal, na qual incrementavam o seu poder de barganha por benefícios sociais e ganhos salariais reais em troca de uma atitude corporativa cooperativa de incentivo à submissão dos trabalhadores ao acordo fordista de produção. Ao poder corporativo cabia a garantia do crescimento sustentado de investimentos que assegurassem a produtividade, o crescimento e o padrão de vida, enquanto ainda mantivessem os lucros.

Aos trabalhadores era reservada, principalmente, a função de manutenção da demanda efetiva, como fora inicialmente imaginado por Ford. As formas de intervencionismo estatal, por sua vez, variavam conforme os países capitalistas. Entretanto, é possível observar Estados de orientação ideológica extremamente distinta que apresentaram projetos de incremento do crescimento econômico de natureza similar, através de uma combinação entre estado de bem-estar social, administração econômica keynesiana e controle de relações de salário.

Há também que se considerar a internacionalização do sistema fordista, levada a cabo pelas vias da ampliação dos fluxos de comércio mundial e dos investimentos internacionais. Depois da década de 1940, principalmente, aconteceu a sua consolidação fora dos Estados Unidos, na Europa e no Japão, por meio de políticas impostas na ocupação, ou mesmo por meio do Plano Marshall e do investimento americano subseqüente. Nestas novas localidades, entretanto, nem todos eram atingidos pelos benefícios do fordismo – algumas das críticas se relacionavam com a exclusão na negociação fordista dos salários, com a rigidez na realocação do trabalho de uma linha de produção para a outra e com a baixa qualidade de vida em um regime de consumo de massa padronizado. Ao Estado restava agüentar a desordem civil causada pelos grupos excluídos. E é neste contexto que começam a se formar correntes de oposição ao sistema – justo no momento em que o fordismo encontrou o seu ápice.

Para Harvey, então, o fordismo do período pós-guerra é muito mais um modo de vida total do que um mero sistema de produção em massa. É inevitável, para o autor, elencar algumas informações, com o objetivo de caracterizar tal conjuntura através das múltiplas dimensões até então estudadas: sobre o processo de produção, o fordismo é caracterizado pela homogeneização, uniformização e padronização dos bens que são produzidos em massa, pela existência de grandes estoques e inventários, pelos testes de qualidade pós-produção, pela orientação para recursos e pela redução de custos através de salários; sobre o trabalho, o fordismo se fundamenta na realização de uma única tarefa elos trabalhadores, pelo alto grau de especialização na realização de tarefas, pela inexistência de treinamento de qualidade, experiência e segurança, pela organização vertical do trabalho e pela irresponsabilização do trabalhador pela finalidade do próprio trabalho; sobre o espaço, há que se relevar a especialização espacial e funcional, a divisão, a homogeneização de mercados e a distribuição mercadologia em escala mundial; sobre o Estado, á pressuposto do fordismo a regulamentação, a rigidez, a negociação coletiva, a centralização, a existência de políticas regionais e nacionais e a liderança da indústria do que tange a inovação; e, enfim, sobre a dimensão ideológica, a realidade do fordismo pressupõe o consumo em massa de bens duráveis, o modernismo, a socialização e a totalidade enquanto reforma estrutural.

Como caracterizar a acumulação flexível?

Para Harvey, foi no período de 1965 – 1973 que o fordismo e o keynesianismo se revelaram sistema incapazes de conter as contradições inerentes ao sistema capitalista. O problema central, para ele, estava na rigidez, seja nos investimentos de capital fixo de larga escala, seja nos mercados, na alocação e nos contratos de trabalho. Para enfrentar essas questões, apenas a política monetária se apresentava como solução viável, transformando a emissão de papel moeda em instrumento de estabilização do sistema – e por outro lado, aprofundando a onde inflacionária. Em 1973, em conseqüência, a recessão profunda pôs em curso uma gama de elementos que solaparam o processo de acumulação fordista. As décadas de 70 e 80, então, se caracterizaram pela reestruturação econômica e pelo reajustamento social e político, criando um espaço social de oscilações e incertezas, novas experiências nos domínios da organização industrial e da vida social e política. Nesta nova realidade se dá a emersão de um novo sistema de regulamentação política e social, chamado por Harvey de acumulação flexível.

Esta modalidade de acumulação de capital se apóia basicamente na flexibilização dos processos de trabalho, dos mercados, dos produtos e dos padrões de consumo. É fundamentada pelo surgimento de setores inovadores no que tange à produção, aos mercados e, particularmente, ao fornecimento de serviços financeiros diferenciados e ao alto grau de inovação comercial, tecnológica e organizacional, envolvendo, assim, rápidas mudanças nos padrões de desenvolvimento desigual, seja entre setores produtivos, seja entre regiões geográficas. Há também a importância do movimento da compressão do espaço-tempo no mundo capitalista. Tais poderes de flexibilidade e mobilidade permitem, para Harvey, que os capitalistas exerçam maior pressão de controle de trabalho sobre os trabalhadores. Como conclusão, a acumulação flexível implica em aumento do nível de desemprego estrutural, em rápida destruição e reconstrução das habilidades, em ganhos modestos ou inexistentes nos salários reais e em um retrocesso do poder sindical.

A imposição de regimes de trabalho mais flexíveis, por sua vez, implica em uma segmentação da força de trabalho, em face da redução do emprego regular em favor do crescente uso do trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado. Em consonância, há a mudança de igual importância na organização industrial. Lado a lado as corporações tradicionais, emergem novos negócios, de diferentes tamanhos, baseados em tipos diferentes de produção, como a autônoma, a cooperativa, a patriarcal, o paternalismo comunitário, a patrimonial e a proletária. A produção é possível, desta forma, em pequenos lotes, os produtos, tornam-se variados, e não é comum a disponibilidade de estoques. Mais do que isso, a produção se orienta para a demanda existente, existindo a rejeição imediata de peças com defeito, dado que há um setor de controle de qualidade integrado ao próprio processo.

O trabalho na acumulação flexível se dá por múltiplas tarefas, o pagamento é pessoal, e é valorizado o treinamento no trabalho, a fim de organizar mais horizontalmente o processo produtivo. O trabalhador passa a ser co-responsável pelo fruto do seu trabalho, ao mesmo tempo em que tem maior segurança no ambiente de trabalho – apenas no caso de ser um trabalhados perpétuo. Sobre o espaço, a acumulação flexível se relaciona com a aglomeração e agregação espaciais, pela integração e pela diversificação no mercado de trabalho. A relação existente com o Estado, por sua vez, é de desregulamentação, flexibilidade, e descentralização; passando as negociações a serem feitas no âmbito local ou empresarial o mercado internacional desestabilizado. Cabe lembrar ainda, que as inovações partem primordialmente do próprio Estado. E, finalmente, em relação à ideologia, o consumo se torna individualizado, há a cultura do pós-modernismo, e a sociedade passa a ser vista pela ótica da individualização humana: a sociedade, na dimensão econômica, apresentada como espetáculo.

Qual é a grande tese do autor a respeito do assunto e que argumentos ele utiliza para defendê-la?

Ainda que consciente da existência de uma grande mudança na esfera superficial do sistema capitalista a partir de 1973 – que, no entanto, não questiona a lógica da acumulação capitalista e das suas tendências de crise – Harvey procura considerar se tal quadro consiste realmente a emergência de um novo sistema apto a conter as contradições inerentes ao capitalismo. Fundamentado na questão da flexibilidade, ele apresenta três pontos de vistas sobre a temática: o primeiro, levantado por Piore e Sabel, diz respeito a possibilidade das novas tecnologias de instaurarem uma reconstituição das relações de trabalho e dos sistemas de produção em bases sociais, econômicas e geográficas inteiramente distintas; o segundo, se relaciona diretamente com a idéia de que a flexibilidade é um termo de poder, que legitima um conjunto de práticas políticas, mas que não fundamenta empiricamente ou materialmente as reais fases de organização do capitalismo, e o terceiro, este sim, defendido por Harvey, que tange à teoria de uma transição do fordismo para a acumulação flexível.

O autor considera que, assim como as tecnologias e as formas organizacionais flexíveis, o fordismo também não foi uma característica hegemônica em todas as localidades em que esteve presente. Para ele, então, a atualidade abarca ambas as conjunturas, realizada por uma combinação da produção fordista altamente eficiente e de sistemas mais tradicionais de produção, apoiadas em relações de trabalho artesanais, paternalistas ou patriarcais – que, para ele, inclusive, cresceram a partir da década de 1970, muitas vezes às custas da linha de produção puramente fordista.

Algumas das conseqüências que Harvey aponta para esta nova situação são: a expansão das coordenações de mercado sem a ingerência do poder corporativo, a modificação da natureza e da composição da classe trabalhadora e das condições de formação de consciência de ação política, a decadência da sindicalização em alguns lugares, a complicação nas relações de gênero e o aumento da base social de ideologias de empreendimentismo, paternalismo e privatismo. Enfim, são mudanças superficiais no padrão de comportamento econômico e político, frutos de vários fatores, tais como disciplinação ou competição entre alguns sistemas, ou mesmo deslocamentos entre países centrais e periféricos.

Harvey aponta a descrença na irreversibilidade destes processos inovadores de controle do trabalho, ressaltando-os como respostas tradicionais às situações de crise. Para ele, o que há de novo no período pós-1972 é o florescimento e a transformação dos mercados financeiros. Justifica esta afirmação ressaltando não apenas a concentração de poder em instituições financeiras, mas também a eclosão de novos instrumentos e mercados financeiros, os quais são responsáveis pela sofisticação da coordenação financeira na dimensão global da economia. Os Estados, enquanto nações, resguardam ainda algum poder de intervir na financeirização dos mercados – mas são vulneráveis a crises fiscais e AA disciplina do dinheiro internacional. Em suma, nas palavras de Harvey, “(é possível) ver a flexibilidade conseguida na produção, nos mercados de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções financeiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário.”. É o mercado financeiro que atingiu um grau de autonomia frente à economia real de cunho inédito, e não o contrário.

É para o período que segue à década de 1960 que Harvey atribui a emersão de uma natureza inflacionária, na esfera do aparelho financeiro de regulamentação geral, na qual o modo de endividamento e a formação do capital fictício se aceleram, ao passo que são absorvidas moratórias e desvalorizações. Se somadas às flutuações constantes nos mercados de ações de moedas, é fácil considerar o quadro como o prelúdio de uma crise financeira. Não para Harvey, para quem a interligação entre as dívidas das corporações, dos consumidores e do governo apontam na direção de uma regulação da dimensão do consumo e da produção por meio de financiamentos especulativos e fictícios. Para ele, a inovação dos sistemas financeiros foi pré-condição para a superação da rigidez geral existente anteriormente e para a crise temporal, geográfica e política que o fordismo enfrentou nos anos 60.

As conclusões propostas pelo autor dizem respeito à possibilidade reescalonamento da crise, e são as seguintes: 1) a real particularidade do sistema atual reside nos elementos financeiros da organização capitalista e no papel do crédito; e 2) neste sistema de acumulação, a estabilidade de médio prazo se encontra no domínio das novas rodadas e formas de reparo temporal. Ele ressalta a natureza provisória destas conclusões, ancorado na idéia de que a acumulação flexível se baseia na realocação partícula e inovadora de elementos muito mais antigos relacionado com a acumulação de capital. Sobre o reescalonamento, enfim, é paralelo a uma reconstituição de configurações espaciais em que uma diversidade de sistema de controle do trabalho pode prevalecer ao lado de novos produtos e padrões na divisão internacional do trabalho.

*Acadêmica de Relações Internacionais


Como referenciar este conteúdo

BATALHA, Camila Fernanda. Introdução. O fordismo. Do fordismo à acumulação flexível. Teorizando a Transição. Acumulação Flexível – transformação sólida ou reparo temporário? - Fichamento. Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 26 Nov. 2010. Disponível em: www.investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/economia/174297-introducao-o-fordismo-do-fordismo-a-acumulacao-flexivel-teorizando-a-transicao-acumulacao-flexivel--transformacao-solida-ou-reparo-temporario-fichamento. Acesso em: 06 Dez. 2019

 

Receba nossos e-mails e infoprodutos jurídicos

 

 

ENVIE SEU ARTIGO